sexta-feira, 4 de julho de 2014

Quem vaia Dilma? Quem está pagando a conta, ora!

Tenho repetido que o pessoal da camada mediana (economicamente falando) tem muito o que reclamar do governo. Simplesmente, se está havendo uma elevação de renda do "andar de baixo", não é o andar de cima que está pagando isso. 

A tal "classe média" clássica, aquela que a filósofa petista Marilena Chauí diz odiar é quem está pagando todas as contas no Brasil contemporâneo: paga as "bolsas", as esmolas e/ou migalhas, e paga a festa do andar de cima. 

Aí, esse pessoal reclama, com razão, pois não é essa camada que deve arcar com essas despesas, e os petistas e simpatizantes do governo os chamam de nomes feios: "coxinhas", "reacionários", "lacerdinhas" e tudo o mais. 

A situação pode ser entendida do seguinte modo: o governo te encontra na rua e te apresenta dois amigos, um pobre, fodido, esfarrapado, e outro bem rico, perfumado, com roupa que custa o que você não juntará em um ano de trabalho. Aí, o governo te "pede" para pagar um rango para ambos, sendo que a grana deve ser dada a ele, governo, que "distribuirá" a renda. No fim das contas, o governo dá dez por cento do que você pagou (contribuiu) para o pobre e o resto usa para uma lauta refeição com o ricaço perfumado. E você vai até o bar da esquina e almoça um sanduíche de ovo. 

O texto abaixo, de André Singer, é útil para entende o que está acontecendo. As "pontas" foram beneficiadas: os ultra ricos continuam ultra ricos; os ultra pobres estão um pouco menos ultra pobres. Já para o meio-campo, resta o prejuízo. 

Não me leva a mal, mas você está nesse meio-campo, certamente e, como bom otário(a), está trabalhando meio ano só para pagar essas contas. 

==============================================

Distribuição de renda e vaias a Dilma

Por André Singer, na Folha de S. Paulo

Bilionários mais bilionários, pobres menos pobres e setores médios com alguma perda; isso justificaria a ira desta classe com relação ao lulismo? 

Uma controvérsia voltou à tona nas últimas semanas. Afinal, o ciclo lulista distribuiu ou concentrou renda? De acordo com reportagem publicada nesta quinta (26) pelo "Valor", a fatia apropriada no Brasil pelo 1% mais rico da população não caiu entre 2000 e 2010. Tal faixa abocanhava cerca de 17% da renda nacional no início do século 21, e continuava a fazê-lo uma década depois. Estaria provado, então, que não houve redistribuição no período petista?

O primeiro impulso é responder que sim, mas a questão é mais complicada. A depender do lugar em que se decida fazer o corte estatístico, aparecem aspectos contraditórios da realidade. A reportagem, assinada por Denise Neumann, mostra que se tomarmos a renda dos 10% mais ricos, veremos que caiu de 51% para 48% do total no período considerado.

Mais ainda. A proporção subtraída do que se convenciona chamar de classe média tradicional parece ter ido parar no bolso dos pobres. A jornalista indica que os 60% pior aquinhoados tiveram os seus rendimentos elevados, indo de 18% para 22%. Desse ângulo, houve ou não distribuição de renda? O impulso é responder que sim.

Uma hipótese plausível é que tenham ocorrido as duas coisas ao mesmo tempo: enquanto a imensa massa dos pobres via a própria renda crescer, ainda que de maneira moderada e a partir de um ponto inicial muito baixo, a classe média perdia algo, produzindo-se, assim, um efeito distributivo, ainda que seja visível a desproporção: 10% detêm 48% da renda; 60% ficam com 22%.

Por outro lado, os mais ricos dentro da classe média (o 1%) não perderam nada. Pode-se supor até que no interior do segmento rico houve concentração, ou seja, os megarricos ficando ainda mais poderosos.

Um exemplo interessante, embora posterior ao período até aqui observado: apenas em 2013 o número de bilionários brasileiros aumentou em 50%, passando de 43 para 65, de acordo com a revista "Forbes". Ou seja, o patrimônio estaria se concentrando na ponta da ponta da ponta.

É possível, assim, que a mesma tendência detectada por Thomas Piketty em escala mundial tenha se dado por aqui, embora simultaneamente houvesse ocorrido um movimento distributivo do meio para baixo. Em resumo, teria havido uma melhora nas pontas, com uma piora relativa no setor intermediário. Note-se que enquanto de um lado cresceu o número de bilionários, de outro a renda dos 10% mais pobres aumentou 106% entre 2003 e 2012 (Marcelo Neri, "Valor"). Trata-se apenas de uma hipótese, mas admita-se que o raciocínio é compatível com a ira da classe média tradicional em relação ao lulismo.

http://ttfbrasil.org/noticias/index.php?id=247 

Nenhum comentário:

Postar um comentário