quarta-feira, 2 de julho de 2014

"Esquerda padrão Fifa", por Vladimir Safatle


Diferentemente dos baba-ovos do governo, o movimento "Não vai ter
Copa" evocou a dignidade e a cidadania e deixou uma mensagem clara:
o tempo do Brasil de bico calado acabou e o governo que aí está é tão
ditatorial quanto aquele das décadas de 1960/1970. Se dias melhores
vierem, devemos muito a esse pessoal. Já os defensores incondicionais
do governo petista vão direto para o lixo da história, sem escalas. 
O movimento do "Não vai ter Copa" merece muito mais elogios do que críticas. Apontou o jogo sórdido da Fifa e do governo atual com bravura e coragem, pois que enfrentar o Estado terrorista brasileiro não é para qualquer um. 

Assusta ver gente que se dizia (e ainda se diz!) "de esquerda", defendendo a isenção fiscal para a Fifa e seus parceiros e defendendo até as brutais remoções de comunidades pobres, realizadas por conta da especulação imobiliária que a Copa gerou. 

Um conhecido militante "de esquerda" morador de Curitiba está tão obcecado na defesa do governo que, todos os dias, comete o mesmo erro: faz essa defesa com base no preceito do "nós somos bons"/"eles são maus", característico dos fascistas. Sempre o imagino brandindo uma cruz para afastar os maus espíritos, que ele considera "coxinhas", "reacionários" ou "lacerdinhas" (1).  

É curioso, pois Walter Benjamin, que se dizia comunista, afirmou, em seu texto mais conhecido, que à estetização da política, praticada pelo fascismo, o comunismo responderia com a politização da arte. 

A notar a forma como lançou o programa "Mais Médicos", como trata os movimentos sociais e como utiliza o ufanismo estúpido para tentar melhorar sua imagem diante da "torcida brasileira", o governo atual pode ser, tranquilamente, definido como fascista. A última propaganda que pagou, a que fala do medo da volta aos "maus tempos", é emblemática e bem poderia ter sido paga por Goebbels, por exemplo. 

Segue o texto de Safatle. 

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Esquerda padrão Fifa

Por Vladimir Safatle (artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo)

Aqueles dispostos a permanecer de esquerda e defender o governo federal deveriam pensar melhor sua maneira de compreender as críticas feitas à Copa do Mundo. A tentativa de desqualificar toda crítica a partir do clássico sintagma "você está fazendo o jogo da direita" deveria ser motivo de vergonha. Tal argumentação estratégica só aparece quando não é mais possível utilizar raciocínios realmente programáticos. 
Como se não bastasse, é triste não estranhar mais que uma política que se veja de esquerda abrace sem complexos a dinâmica anestesiante da sociedade do espetáculo
Muitas das críticas mostraram com clareza como tais grandes eventos esportivos são um presente envenenado por potencializar um modelo de desenvolvimento excludente. Remoções brutais de populações, estádios construídos em condições deploráveis de trabalho, cidades atravessadas por megaprojetos feitos a partir da lógica da rentabilização máxima da especulação imobiliária, relações incestuosas entre recursos públicos e interesses de pequenos grupos de grandes empresários, incompetência gerencial feita expressamente para ajudar empreiteiras a lucrar mais: esta foi a mesma história encontrada na África do Sul, no Brasil e, certamente, será repetida na Rússia. 
A esquerda morre quando negocia sua força crítica por alguns ingressos de futebol
Nos primeiros dois casos, ela conta como antigos grupos de esquerda, tais quais o partido CNA (Congresso Nacional Africano) sul-africano e o PT brasileiro, naturalizaram o fato de se transformarem em parceiros privilegiados da hiper-rentabilização do capital por meio do esporte. Hiper-rentabilização comandada por uma entidade eivada até a medula por acusações pesadas de corrupção. 

Como se não bastasse, é triste não estranhar mais que uma política que se veja de esquerda abrace sem complexos a dinâmica anestesiante da sociedade do espetáculo. 

Parece o sintoma mais acabado de falência ideológica usar megaeventos como dispositivo de mobilização nacional. Tentar reeditar luta de classes por meio da defesa da Copa do Mundo é uma situação patética que alguns defensores do governo deveriam nos poupar. Mais um pouco e teremos gente que se dizia de esquerda gritando: "Brasil, ame-o ou deixe-o". 

Enquanto isso, temos pessoas que são presas como criminosos por participarem de protestos e funcionários públicos que são demitidos por utilizarem a visibilidade da Copa a fim de organizarem greves cuja função era expor suas péssimas condições de trabalho. Seria bom nos atentarmos primeiramente para eles neste momento. 
Remoções brutais de populações, estádios construídos em condições deploráveis de trabalho, cidades atravessadas por megaprojetos feitos a partir da lógica da rentabilização máxima da especulação imobiliária, relações incestuosas entre recursos públicos e interesses de pequenos grupos de grandes empresários, incompetência gerencial feita expressamente para ajudar empreiteiras a lucrar mais: esta foi a mesma história encontrada na África do Sul, no Brasil e, certamente, será repetida na Rússia. 
Eles não procuravam "estragar a festa" da população, mas lembrar que há muita gente que não foi convidada para dela participar. 

A esquerda morre quando negocia sua força crítica por alguns ingressos de futebol. 

VLADIMIR SAFATLE - É filósofo e professor livre-docente da Universidade de São Paulo. Integra o PSOL. Escreve às terças-feiras na página 2 da Folha de S. Paulo.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/173758-esquerda-padrao-fifa.shtml 

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(1) Termo que faz referência ao jornalista e ex-governador carioca Carlos Lacerda, fundador do jornal Tribuna da Imprensa e um declarado conspirador da União Democrática Nacional - a UDN. Foi contra ele o atentado da Rua Tonelero, em Copacabana, que foi o estopim que levou o ex-presidente Getúlio Vargas ao suicídio. Após apoiar o golpe de 1964, foi perseguido pelos que apoiou e que, dizem por aí, tiveram participação decisiva na sua morte, ocorrida em 1977. Lacerda foi inimigo figadal de Vargas. 

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