segunda-feira, 21 de julho de 2014

A Pátria coberta com chocolate granulado (ou coco ralado)

Todos juntos, vamos, pra frente Brasil, Brasil, salve o quindim!!!
Soube que um chef de cozinha disse que docinhos como brigadeiro e quindim são shit (porcarias ou merdas, conforme o gosto da tradução). A reação dos brasileiros ultrajados foi heroica. De um momento para outro, eis que surgem voluntários da Pátria a defender a Nação ferida pelo mestre de cozinha.

Sim, isso aconteceu, você sabe. Se não sabe, explico: durante um programa de televisão, o “chef” Jamie Olivier disse que brigadeiros e quindins são "um monte de porcaria". Depois disso, eis que um grupo de defensores da brasilidade ficou muito zangado e começou a lançar vitupérios iracundos contra o sujeito, que é inglês e só deve entender ofensas feitas na língua de Shakespeare. 

Parece que a “grande” imprensa deu eco e força aos bastiões da brasilidade dos docinhos. Tudo aconteceu a partir do dia 16 de julho, quando o programa foi ao ar. Ah, o programa é um tal “Saia Justa”, exibido no canal a cabo GNT.
Nelson Rodrigues dizia que o escrete (a seleção) era a “Pátria em chuteiras”. Agora, alguns brasileiros descobrem que o brigadeiro é a Pátria coberta com chocolate granulado. 
Deram ao Olivier caldo de cana e açaí. Ele gostou. Quando provou os quitutes recheados de brasilidade, no entanto, fez cara feia. "Quando você usa muito açúcar, você acaba mascarando o sabor das frutas na sobremesa", argumentou. É um interessante ponto de vista e, claramente, adequado para definir tanto o brigadeiro quanto o quindim: são basicamente açucarados. Se você não é chegado a um torrão de açúcar, não vai mesmo gostar, seja qual for sua nacionalidade.

A brasilidade em toda a sua plenitude
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Logo depois da confusão "seleção = Nação", observamos que surge outra, desta vez um tanto ridícula: "quindim = Brasil". 

Bem, há que se observar isso de forma otimista. MV Bill dizia, num rap, que só somos brasileiros na Copa. Agora, se descobre que, além disso, a nacionalidade se define na cozinha, com muito açúcar, chocolate e coco ralado. É um avanço!!!

Nelson Rodrigues dizia que o escrete (a seleção) era a “Pátria em chuteiras”. Agora, alguns brasileiros descobrem que o brigadeiro é a Pátria coberta com chocolate granulado. 

Depois da "humilhação" diante do esquadrão boche, eis que vem um inglês ofuscar o orgulho nacional... 

Pesos diferentes

Não vejo a mesma indignação com o Estado policial que vem mostrando a todos nós que a ditadura nunca acabou. Também não vejo a mesma verve nacionalista para rechaçar as corporações internacionais que vêm ao Brasil apenas para para espoliar sua população, além de sabotar sua saúde e sua sanidade. 

Do mesmo modo, não percebo sequer um décimo desse descontentamento em relação aos governos, que não apenas permitem e incentivam as tais corporações a procederem dessa forma pouco ética, como agem de modo que o Estado e a população que o constitui sejam parasitados em favor de poucos. 

Não vi nem um tiquinho de ultraje quando populações pobres do Rio de Janeiro e de outras cidades brasileiras foram expulsas de suas residências, sob porrada e tiros pela força militar que os governos usam contra o cidadão. Não houve revolta semelhante com a farra da Copa, com isenção fiscal, benefícios a alguns grupos de empresas e a construção de estádios que provavelmente serão brevemente classificados como os maiores banheiros de pássaros do mundo. 

Se esses que se calam diante dos verdadeiros ataques à Nação e à cidadania e quicam de indignação diante de "ofensas" a brigadeiros e quindins forem os verdadeiros brasileiros, então eu creio que não sou. 

Se o Brasil é apenas um grupo de onze jogadores de futebol ou uma bolinha de açúcar, então talvez não valha a pena viver neste país. 

Alguém me diz que o provincianismo e a mediocridade são doenças graves, muito piores do que o câncer ou a AIDS: simplesmente fazem com que a pessoa esteja morta em vida, e essa é possivelmente a mais terrível forma de morrer. 

4 comentários:

  1. O que você diz está correto. É preciso se indignar com TUDO que está errado no nosso país, quero lembrar dos protestos de junho de 2013, que só não continuou porque uns imbecis mascarados fizeram o favor de escorraçar as pessoas de bem das ruas. Agora está na hora das eleições, vamos votar com consciência e seriedade. Agora, não concordo em relação à defesa do brigadeiro e do quindim. Principalmente o brigadeiro, são docinhos que nossas mães e avós faziam nos nossos aniversários desde que nascemos, fazem parte de nossas vidas, carregam grande carga afetiva. São coisa séria, fazem parte de nossa identidade cultural. Vem um grosseiro e mal educado inglês dizer na TV que são "shit"? Ah, essa não.

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    1. Olá, difícil dizer que não são "shit". São açúcar puro, costumeiramente doces em demasia e têm valor nutritivo próximo de zero. Isso não impede que se coma, vez por outra, essa "shit". Existe muita porcaria que é gostosa, mas mesmo sendo gostosa não deixa de ser porcaria. E também não concordo, aliás, tenho certeza, de que não foram os "imbecis mascarados" que escorraçaram as pessoas de bem das ruas. Digo que tenho certeza e tenho. A maior parte das "badernas" foram feitas por infiltrados, não raro os famigerados P2 e alguns foram flagrados e filmados. Quem afastou efetivamente as pessoas das ruas foi o Estado autoritário e terrorista que, com sua policia, atacou não quem fazia a baderna (e o cerco à Assembleia Legislativa do Rio foi emblemático), mas quem se manifestava pacificamente. Os Black Blocs têm lá sua cabeça feita e atacam "símbolos do capital". Bem, acho um tanto ineficazes essas ações, mas não dá para pôr a culpa nesse pessoal. Mascarados vândalos foram, na verdade, os policiais que, notadamente nas topas de choque, escondem o rosto e as identificações e agridem cidadãos, não baderneiros ou bandidos. De todo modo, agradeço bastante pelo comentário.

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