terça-feira, 22 de julho de 2014

A ditadura não acabou


Ironicamente, alguns dos que lutavam contra a ditadura,
participavam de passeatas e pichavam os muros com
palavras de ordem, acabaram alcançando o poder e,
ao contrário do que se esperava, repetiram essencialmente
tudo aquilo que combatiam e imitaram todos aqueles
contra os quais lutaram no passado
No último dia 1º de abril se deu o aniversário de 50 anos da “gloriosa”, termo que designa a ditadura militar implantada pelo golpe de 1964. Esse evento político cinquentenário serviu como parte de um processo de espraiamento comercial e financeiro de grupos que nomearam o presidente dos Estados Unidos da América (EUA) como seu Chief Executive Officer (CEO). Em nome do lucro pessoal de alguns, várias nações, entre elas o Brasil, foram espoliadas no que tinham, ou deveriam ter, de mais precioso: a liberdade de seu povo, fato que representa um tiro mortal no projeto de cidadania de toda uma Pátria.

O golpe foi militar porque foi o Exército Brasileiro que o executou. Infelizmente, ao invés de cumprir seu papel de defender a população, aparentemente optou por atacá-la, numa perversão do sentido de sua missão, procedimento nefasto que lhe custou o opróbrio de manchar a própria honra para satisfazer a sanha de meia dúzia de sanguessugas.

Claramente empobrecida, em poderio e valor diante da população e dos próprios magnatas que a contrataram para aquele serviço sujo, essa instituição da República paga, ainda hoje, o preço de ter tomado a decisão errada no início da década de 1960. A vergonha é tanta que vez por outra é chamada para invadir favelas cariocas, servindo claramente de polícia contra o próprio cidadão brasileiro (1), como se este fora um invasor inimigo.

A volta do chicote

Muitos dos que tramaram e apoiaram o golpe foram esmagados por ele, numa curiosa confirmação de que o cipó de aroeira não raro volta para marcar o lombo de quem mandou dar, como sugeria Geraldo Vandré numa de suas canções daquela época. Na política, são famosos e conhecidos os casos de Carlos Lacerda, que era governador da Guanabara e conspirou para que o golpe acontecesse e acabou aparentemente exterminado pelos golpistas, e também de Juscelino Kubitschek, ex-presidente, que apoiou o golpe e foi perseguido e, tudo indica, morto pelo próprio monstro que acolheu com tanta simpatia já no berço.  

A pequena burguesia nacional, a chamada classe média (que não é a mesma que o mercado financeiro de hoje inventou e o governo brasileiro adotou como bibelô), havia ido para as ruas e clamado pelo golpe. Foi contemplada com o tal “fuscão no juízo final e diploma de bem comportado” citados por Luís Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha na canção "Comportamento Geral". Os medianos e/ou medíocres perceberam uma melhora parcial no orçamento e correram a se endividar o quanto puderam, para depois de algum tempo cair na realidade de uma crise inflacionária que apenas cedeu em 1994, quando a estratégia dos financistas sofreu leve alteração de curso e promoveu a adequação do país, sob a regência de Fernando Henrique Cardoso (FHC) (2), a um modelo econômico taxado usualmente como neoliberal, ou seja, uma recuperação da mentalidade liberal nascida no século XVIII e interrompida após seus supostos mentores produzirem a maior depressão econômica da história e duas guerras sangrentas (3).

Lula, antes e depois da presidência: de crítico
mordaz a empregado do capital financeiro
A cereja do bolo

O tempo passa e nós, que falávamos do golpe de 1964, que estávamos lá trás no tempo, percebemos que andamos décadas e, com a eleição de Lula para Presidente da República, em 2002, o bolo ganhou sua cereja. Jamais a estrutura de poder que se implantou em 1964 esteve tão no topo quanto no governo do partido que nasceu com o discurso anticapitalista e de confronto não apenas com o poder instituído, mas contra toda a estrutura econômica, política, social e cultural que o cerca e sustenta.

Aparentemente, esse partido nasceu e cresceu com o fermento do mesmo capital que engendrou o golpe militar, com o intuito de combater a tradição nacionalista do trabalhismo e de seu líder, Leonel Brizola. O Partido dos Trabalhadores, que ocupa o poder há doze anos e, durante esse período, promoveu medidas que contrariam o que se disse de toda a sua história de lutas no passado. Vamos recordar apenas alguns, embora a relação não pare aqui: 

- uma reforma previdenciária danosa aos trabalhadores, já em 2003, pouco depois de Lula assumir a presidência;

- uma desastrosa renegociação da dívida externa, transformando-a em interna e quadruplicando-a;

- um programa assistencialista que camufla o conflito político de classes e consegue o efeito formidável de elevar temporariamente o nível de capacidade de consumo da população e fazer sumir, como que por encanto, uma massa considerável de desempregados das estatísticas oficiais;

- uma política econômica baseada simples e resumidamente no incentivo ao consumo e ao endividamento em detrimento da cidadania e da geração de poupança; 

- sucateamento de serviços públicos e sabotagem à indústria nacional, tornando cada vez mais o país dependente como mero exportador de matérias primas e produtos agrícolas;

- uma preocupante tentativa de substituir o Estado pelo governo, isto é, de ocupar os espaços destinados a servir ao cidadão em geral visando servir, em vez disso, a apenas alguns privilegiados, gerando gastos elevados com a manutenção de uma máquina pública que não serve à população - são 40 ministérios aproximadamente (já perdi a conta) e mais de 100 mil comissionados, conforme último levantamento de sindicalistas. 

Isso não ocorreu isoladamente. Basta observar as publicações internacionais acerca da economia dos tais “países emergentes” para ter certeza de que o ocorrido no Brasil foi algo bastante semelhante ao que também ocorreu em outros países “da mesma laia”. Claramente, há indícios de que toda a estratégia do governo brasileiro nos últimos 20 anos foi ditada ipsis litteris pelo comando financeiro global, que tem nos governos nacionais os seus CEOs e consegue, assim, não apenas colocar sua mão invisível no bolso do cidadão comum, como tem facilitado o acesso de enlaçamento ideológico que garante e justifica a existência desse sistema de escravidão mascarada em individualismo consumista: você entrega a sua alma e ganha uma TV de tela plana e um iPhone.

Fim de festa, mas não para o capital

Recentemente, tanto o jornal Financial Times quanto a revista The Economist, cuja apresentação parece desnecessária, disseram que o projeto “classe média” dos tais “emergentes” está fazendo água e pode afundar levando consigo aproximadamente um bilhão de pessoas novamente para as profundezas do inferno da pobreza. 

A economia, como usualmente ocorre, se marca em ciclos, aparentemente num movimento sistólico e diastólico que, no modelo da circulação do sangue, opera para distribuir e concentrar recursos, conforme o caso e a ocasião, mas que serve fundamentalmente, por todo tempo, a poucos senhores. 

Nada mudou

O governo brasileiro, parece claro, entrou no jogo proposto, agiu como devia, fez a lição de casa e agora, quando tudo se encaminha para o precipício, com uma grave crise se anunciando, poderá ser responsabilizado, tanto política quanto criminalmente, pelo que poderá vir e pelos atos lesivos aos cofres públicos que, segundo as informações disponíveis, cometeu durante o tempo dos três mandatos.

O importante, no entanto, é perceber que tudo leva a crer que o mesmo poder que agia há 50 anos continua agindo. Nada ou muito pouco mudou de estrutural em todo esse tempo. Alteraram-se os personagens, as marionetes utilizadas, não a lógica, o sentido das ações e a estrutura básica que sustenta o poder.

E o poder, como ensinou Pierre Bourdieu, só é estruturante porque estruturado. Isso significa dizer que dentro de sua estrutura tudo é possível e crível e até mesmo o que está acima pode surgir como reflexo embaixo, assim como o que está à direita pode aparecer refletido à esquerda e vice-versa.

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Notas

(1) O Exército Brasileiro precisa se recuperar desse baque e parece tentar isso, mas parece esbarrar em suas próprias limitações e em um sistema político e econômico forte e ditatorial, que transforma heróis em ídolos e faz da honra nacional uma pantomima futebolística. O maior cuidado a ser tomado nesse caso e situação deve ser para que não haja novamente uma tentativa de usar essa instituição para favorecer pequenos grupos pela via do golpe de Estado, como em 1964.

(2) Esse presidente foi eleito exatamente por ter implantado um plano anti-inflacionário, o Plano Real.

(3) Dizem que a essa lista deveria se acrescentar uma revolução socialista.

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