quinta-feira, 31 de julho de 2014

"Tio Patinhas, a Suécia e os nossos luxos", por Rogerio Galindo

O que chama a atenção no Brasil é certamente a mentalidade provinciana do "vou me dar bem". Não necessariamente esse "se dar bem" se vincula àquela história do "jeitinho" ou da "malandragem". Não. Nada disso. Essa alma sórdida, a que cultua o privilégio e da mordomia, é a alma pobre do jeca, do pobre de espírito que acredita que somente será considerado gente se tiver empregados lhe servindo, uma roupa bacana e crédito para comprar coisas e coisas que, dependendo do caso, deixam de ter qualquer sentido em pouco tempo, tornam-se lixo quase que instantaneamente após adquiridas. 

Erich Fromm dizia que há uma diferença fundamental entre o "ter" e o "ser" e, ao observar sua argumentação, sou levado a crer que se há um problema relacionado à subjetividade brasileira, certamente não está relacionado a malandragens de meninos de pés descalços ou de quaisquer outros pobres diabos. A cultura do "ter", em contraposição à lógica do "ser" é fundamentada por uma lógica característica de "gente bem", perfumada, de colarinho e gravata e se pode ver por duas perspectivas.

Para a alma clássica de raiz grega, é aquilo que distingue o nobre do plebeu, ou seja, aquele torce o nariz para este por conta deste cultuar a posse de objetos, enquanto aquele tem acesso aos objetos cultuados e, talvez por conta disso, descobriu que não valem tanto quanto aquilo que ele próprio pode vir a ser; dessa forma, como nas referências do texto que apresento a seguir, o culto não é por objetos, mas pela subjetividade, pelo enobrecimento da alma através de sua qualificação. O "eu" se sobrepõe ao objeto.

O jeca, bem caracterizado pelo espírito provinciano e pelo nouveau riche, é o plebeu que não conseguindo alcançar a nobreza do "ser", a encena obsessivamente através do "ter", que lhe está disponível nas prateleiras de qualquer mercado, farmácia ou casa de câmbio. Para o jeca, que se torna muito mais pernóstico quando adquire poder, seja econômico ou político, possuir coisas se afigura como o diferencial qualitativo em relação a todos os outros humanos. Ele tem, os outros são. E isso lhe parece uma vantagem sobre os demais, a única que lhe é possível.  

PS: Utilizo o termo "jeca" tentando uma aproximação com um tipo de caráter, mas não quero nem posso dizer que seja um termo adequado ou que todos os que sejam considerados "jecas" têm os defeitos gravíssimos de caráter apontados. O jeca referido aqui é exatamente aquele que, desprovido da noção de suas qualidades, acredita que estas podem ser conseguidas pela aquisição comercial de objetos com poder de qualificação. É o "homem sem qualidades", o "medíocre" ou o "Zé Ninguém", conforme Robert Musil, Jose Ingenieros ou Wilhelm Reich. 

Boa leitura. 

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Tio Patinhas, a Suécia e os nossos luxos
Rogerio W. Galindo

“Com um salário desses, nem o Tio Patinhas entraria em uma fraude para ganhar algumas notas de mil”, acusou o editorial do diário Gefle Dagblad, de Estocolmo. O texto tratava do deputado sueco Hakan Juholt, um liberal que em 2011 esteve prestes a virar primeiro-ministro. Não chegou em razão justamente da tal fraude. O escândalo surgiu quando se descobriu que Juholt vivia com a namorada em um apartamento em Estocolmo. Nada proibido, claro. Mas o deputado, segundo as regras, tinha de ter pedido reembolso de apenas metade do aluguel do Parlamento – e a namorada devia pagar a outra metade.
O caso dos apartamentos funcionais é um dos que mais chocam o leitor brasileiro. Até os anos 1990, os parlamentares de fora de Estocolmo dormiam em seus gabinetes (a não ser que quisessem alugar algo por conta)
Juholt caiu em desgraça. Um repórter perguntou a ele como aquilo podia ter ocorrido. O deputado afirmou que não sabia da regra. A próxima pergunta veio praticamente na forma de um sermão. “Você não acha lógico ter que dividir o valor do aluguel do apartamento funcional com sua companheira, uma vez que ela também mora lá?” O deputado, sem saída, capitula. “Certamente.”

A história está contada em um interessante livro da repórter Cláudia Wallin (Um país sem excelências e mordomias, da editora Geração), em que ela conta como funciona o serviço público sueco. O caso dos apartamentos funcionais é um dos que mais chocam o leitor brasileiro. Até os anos 1990, os parlamentares de fora de Estocolmo dormiam em seus gabinetes (a não ser que quisessem alugar algo por conta).

Hoje, têm direito a apartamentos funcionais de pouco mais de quarenta metros quadrados. Pouco maiores que as casas da Cohab curitibana.

Neles não há máquina de lavar ou qualquer luxo. Boa parte não tem quarto: há sofá-cama. A explicação é que eles moram em suas cidades de origem, e na capital só ficam durante a semana. Os que são de Estocolmo não ganham qualquer ajuda (só em um sistema muito estranho as pessoas receberiam auxílio-moradia para morar onde já moram, certo?) e os que vêm de fora normalmente ficam em quitinetes.

Os que não ficam em apartamentos funcionais recebem até R$ 2,6 mil de reembolso (os aluguéis em Estocolmo não são os mesmos de Capitão Leônidas Marques, e a verba dá para um apartamento modesto). No caso de Juholt, ele conseguia pagar um apartamento no subúrbio. Mas nem uma “turnê do perdão” de dois meses livrou-o de ser considerado culpado pela opinião pública. O salário de um deputado, líquido, é de R$ 21 mil – cerca de 50% acima do que ganha um professor primário. Juholt ganhava mais ou menos o dobro por ser líder de seu partido.

Cláudia Wallin também fala sobre o Judiciário. Os integrantes da Suprema Corte, por exemplo, não têm direito a secretários particulares. Cuidam de sua própria agenda. E, claro, não têm direito a auxílio-moradia. Göran Lambertz, um dos ministros, deu entrevista sobre o tema.

A pergunta era: “O que pensa sobre sistemas de países como o Brasil, em que políticos e juízes têm privilégios como gratificações extras e aviões à sua disposição?”

Publicado no jornal Gazeta do Povo, de Curitiba. 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

"O PAPEL HIGIÊNICO DO JORNAL", por Jean Wyllys

O jornalismo das organizações Globo parece tão real quanto o Papai Noel. O jornal só chegou ao que é durante e graças à ditadura militar e a televisão que pertence às organizações foi claramente amante dos ditadores durante todo o tempo. Foi e é, deixando claro isso para quem quiser saber, sem qualquer pudor. Representa, assim como a Polícia Militar na sua área específica, um poder paralelo que atenta constantemente contra a cidadania e a democracia. 

O "jornalismo" desse veículo é, como dito, espectral como uma aparição fantasmagórica. Por entre seus filamentos, as letras que compõem suas mensagens, apenas se pode enxergar as trevas do autoritarismo. 

Segue texto de Jean Wyllys, deputado federal pelo Rio de Janeiro que tece alguns interessantes comentários acerca dessa empresa jornalística que parece sobreviver sem exercer o fim a que se deveria destinar: contribuir para a formação de uma "esfera pública", transmitir a informação clara e precisa, de acordo com padrões democráticos e, acima de tudo, éticos. 

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O papel higiênico do jornal

Eu tenho amigos trabalhando em O Globo. Estes sabem que os respeito e sabem que sei distingui-los do jornal em que ralam. Em outras palavras, eles sabem que eu sei separá-los do desejo editorial da empresa e dos interesses de seus patrões (trabalhei anos num jornal de direita e me lembro do quanto nos constrangiam as imposições dos donos do jornal e seus títeres na redação). Logo, meus amigos que trabalham em O Globo não tomarão este comentário como algo pessoal.

Embora o conteúdo de nossa reclamação ao CNJ (em razão da violação dos direitos dos manifestantes a um julgamento justo e a ampla defesa no tempo das garantias jurídicas perpetrada pelo governo do Rio de Janeiro com apoio de um juiz e de um promotor) seja evidente; embora o conteúdo da reclamação, por si só, deixe claro, para qualquer pessoa minimamente inteligente, que nossa intenção não é defender violência nem depredações praticadas por manifestantes, mas, sim, defender os princípios do Estado Democrático de Direito; e embora nós tenhamos publicado em El País e em nossas redes sociais - já que O Globo não abriu qualquer espaço para nos ouvir - uma nota esclarecendo DIDATICAMENTE (como se explica a uma pessoa com problemas de cognição) qual o objetivo de nossa reclamação, o editorial de hoje de O Globo volta a fazer as ilações desonestas que as "reportagens" do Fantástico e dos telejornais da TV Globo já haviam feito, no sentido de nos associar (nós os parlamentares do PSOL mais a deputada federal Jandira Feghali) a atos violentos praticados por manifestantes.

Há duas hipóteses para essa atitude de O Globo. A primeira é a de que o editor (aquele que dá a linha "editorial" à cobertura e assina o texto do editorial propriamente dito) é uma pessoa que sofre de problemas cognitivos e, por isso, não consegue ler e entender mais que fachada de loja. Esta hipótese, eu descarto. A segunda hipótese é a de que O Globo está dando seqüência ao que sabe fazer bem quando quer: tentar destruir reputações de pessoas que contrariam seus interesses, intoxicando seus leitores com deturpações e ilações canhestras e desonestas intelectualmente.
O Globo também ignorou a nota de respeitados juristas do país, em que estes se posicionam contra a violação do Estado de Direito que as prisões dos manifestantes no Rio de Janeiro - sem o devido processo legal, sem o direito a defesa, sem que provas sejam apresentadas contra os acusados e com abuso de prisões preventivas e temporárias - representam.
Ora, não estamos esquecidos da pesada e assustadora campanha difamatória empreendida por O Globo contra Marcelo Freixo, buscando associá-lo, de maneira desonesta e forçosa, baseada em disse-me-disse, à morte do cinegrafista Santiago Andrade. Dessa campanha difamatória, que só encontrou paralelo na edição fraudulenta do debate entre Collor e Lula feita pelo Jornal Nacional em 1989, com o intuito de derrubar o candidato petista, dessa campanha, O Globo saiu desmoralizado pela hastag ‪#‎LigacaoComFreixo.

E não estamos esquecidos do tratamento que O Globo (e os telejornais da TV Globo) deram às manifestações populares de junho do ano passado - criminalizando-as e justificando a desmedida violência da polícia contra elas - antes de tentar tirar proveito político das mesmas contra o governo Dilma.

Há outros exemplos do comportamento anti-ético por parte de O Globo e dos telejornais da Globo, principalmente em ano eleitoral.

Logo, o editorial de O Globo de hoje cumpre seu gasto papel de difamar quem contraria seus interesses, ao, mais uma vez, deturpar o propósito de nossa reclamação ao CNJ e ignorar que o ministro do STF Marco Aurélio de Mello pensa da mesma forma que nós:

"Não devemos esquecer que a prisão preventiva é sempre uma exceção e não uma regra. Não consigo vislumbrar nessas manifestações, criminosos, pessoas perigosas. Há uma crítica ao que se fez que é primeiro prender para ver o que tem errado. Sem considerar o princípio da culpabilidade. Não vejo porque uma ordem de prisão nesse momento antes de instaurar inquérito. Para mim é extravagante."

O Globo também ignorou a nota de respeitados juristas do país, em que estes se posicionam contra a violação do Estado de Direito que as prisões dos manifestantes no Rio de Janeiro - sem o devido processo legal, sem o direito a defesa, sem que provas sejam apresentadas contra os acusados e com abuso de prisões preventivas e temporárias - representam.

Eu construí, nesses quatro anos, um mandato comprometido com a defesa e promoção dos Direitos Humanos e das liberdades individuais. Um mandato respeitado e elogiado inclusive internacionalmente. Conquistei essa posição com trabalho, transparência e coerência, enfrentando, desde o primeiro ano, os ataques e difamações vindos dos fascistas e fundamentalistas religiosos. Sou honesto material e intelectualmente. Esforço-me por resgatar, principalmente junto às novas gerações, o apreço pela política e pelo parlamento.

E aí, vem o jornal O Globo e tenta, ao seu bel-prazer e por entender que minha atuação, nesse caso (atuação coerente com minha atuação em outros casos de violação de Direitos Humanos), contraria os seus interesses, destruir minha reputação, associando-me a uma violência que repudio.

O Globo passa sua vida enchendo suas páginas com reclamações sobre a falta de qualidade dos políticos que representam o povo brasileiro, mas, não pensa duas vezes em tentar destruir alguém que tem as qualidades que ele tanto reivindica.


E são curiosos os critérios jornalísticos de O Globo (e dos telejornais da Globo), que ignoram solenemente a tortura e o assassinato de um menor por agentes da polícia do Rio, bem como o "grampo" ilegal da polícia em telefones de advogados, para dar prioridade a manifestantes acusados de crimes que ainda não cometeram. Se este é o "papel de um jornal", só pode ser o papel higiênico.

Jean Wyllys

terça-feira, 22 de julho de 2014

A ditadura não acabou


Ironicamente, alguns dos que lutavam contra a ditadura,
participavam de passeatas e pichavam os muros com
palavras de ordem, acabaram alcançando o poder e,
ao contrário do que se esperava, repetiram essencialmente
tudo aquilo que combatiam e imitaram todos aqueles
contra os quais lutaram no passado
No último dia 1º de abril se deu o aniversário de 50 anos da “gloriosa”, termo que designa a ditadura militar implantada pelo golpe de 1964. Esse evento político cinquentenário serviu como parte de um processo de espraiamento comercial e financeiro de grupos que nomearam o presidente dos Estados Unidos da América (EUA) como seu Chief Executive Officer (CEO). Em nome do lucro pessoal de alguns, várias nações, entre elas o Brasil, foram espoliadas no que tinham, ou deveriam ter, de mais precioso: a liberdade de seu povo, fato que representa um tiro mortal no projeto de cidadania de toda uma Pátria.

O golpe foi militar porque foi o Exército Brasileiro que o executou. Infelizmente, ao invés de cumprir seu papel de defender a população, aparentemente optou por atacá-la, numa perversão do sentido de sua missão, procedimento nefasto que lhe custou o opróbrio de manchar a própria honra para satisfazer a sanha de meia dúzia de sanguessugas.

Claramente empobrecida, em poderio e valor diante da população e dos próprios magnatas que a contrataram para aquele serviço sujo, essa instituição da República paga, ainda hoje, o preço de ter tomado a decisão errada no início da década de 1960. A vergonha é tanta que vez por outra é chamada para invadir favelas cariocas, servindo claramente de polícia contra o próprio cidadão brasileiro (1), como se este fora um invasor inimigo.

A volta do chicote

Muitos dos que tramaram e apoiaram o golpe foram esmagados por ele, numa curiosa confirmação de que o cipó de aroeira não raro volta para marcar o lombo de quem mandou dar, como sugeria Geraldo Vandré numa de suas canções daquela época. Na política, são famosos e conhecidos os casos de Carlos Lacerda, que era governador da Guanabara e conspirou para que o golpe acontecesse e acabou aparentemente exterminado pelos golpistas, e também de Juscelino Kubitschek, ex-presidente, que apoiou o golpe e foi perseguido e, tudo indica, morto pelo próprio monstro que acolheu com tanta simpatia já no berço.  

A pequena burguesia nacional, a chamada classe média (que não é a mesma que o mercado financeiro de hoje inventou e o governo brasileiro adotou como bibelô), havia ido para as ruas e clamado pelo golpe. Foi contemplada com o tal “fuscão no juízo final e diploma de bem comportado” citados por Luís Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha na canção "Comportamento Geral". Os medianos e/ou medíocres perceberam uma melhora parcial no orçamento e correram a se endividar o quanto puderam, para depois de algum tempo cair na realidade de uma crise inflacionária que apenas cedeu em 1994, quando a estratégia dos financistas sofreu leve alteração de curso e promoveu a adequação do país, sob a regência de Fernando Henrique Cardoso (FHC) (2), a um modelo econômico taxado usualmente como neoliberal, ou seja, uma recuperação da mentalidade liberal nascida no século XVIII e interrompida após seus supostos mentores produzirem a maior depressão econômica da história e duas guerras sangrentas (3).

Lula, antes e depois da presidência: de crítico
mordaz a empregado do capital financeiro
A cereja do bolo

O tempo passa e nós, que falávamos do golpe de 1964, que estávamos lá trás no tempo, percebemos que andamos décadas e, com a eleição de Lula para Presidente da República, em 2002, o bolo ganhou sua cereja. Jamais a estrutura de poder que se implantou em 1964 esteve tão no topo quanto no governo do partido que nasceu com o discurso anticapitalista e de confronto não apenas com o poder instituído, mas contra toda a estrutura econômica, política, social e cultural que o cerca e sustenta.

Aparentemente, esse partido nasceu e cresceu com o fermento do mesmo capital que engendrou o golpe militar, com o intuito de combater a tradição nacionalista do trabalhismo e de seu líder, Leonel Brizola. O Partido dos Trabalhadores, que ocupa o poder há doze anos e, durante esse período, promoveu medidas que contrariam o que se disse de toda a sua história de lutas no passado. Vamos recordar apenas alguns, embora a relação não pare aqui: 

- uma reforma previdenciária danosa aos trabalhadores, já em 2003, pouco depois de Lula assumir a presidência;

- uma desastrosa renegociação da dívida externa, transformando-a em interna e quadruplicando-a;

- um programa assistencialista que camufla o conflito político de classes e consegue o efeito formidável de elevar temporariamente o nível de capacidade de consumo da população e fazer sumir, como que por encanto, uma massa considerável de desempregados das estatísticas oficiais;

- uma política econômica baseada simples e resumidamente no incentivo ao consumo e ao endividamento em detrimento da cidadania e da geração de poupança; 

- sucateamento de serviços públicos e sabotagem à indústria nacional, tornando cada vez mais o país dependente como mero exportador de matérias primas e produtos agrícolas;

- uma preocupante tentativa de substituir o Estado pelo governo, isto é, de ocupar os espaços destinados a servir ao cidadão em geral visando servir, em vez disso, a apenas alguns privilegiados, gerando gastos elevados com a manutenção de uma máquina pública que não serve à população - são 40 ministérios aproximadamente (já perdi a conta) e mais de 100 mil comissionados, conforme último levantamento de sindicalistas. 

Isso não ocorreu isoladamente. Basta observar as publicações internacionais acerca da economia dos tais “países emergentes” para ter certeza de que o ocorrido no Brasil foi algo bastante semelhante ao que também ocorreu em outros países “da mesma laia”. Claramente, há indícios de que toda a estratégia do governo brasileiro nos últimos 20 anos foi ditada ipsis litteris pelo comando financeiro global, que tem nos governos nacionais os seus CEOs e consegue, assim, não apenas colocar sua mão invisível no bolso do cidadão comum, como tem facilitado o acesso de enlaçamento ideológico que garante e justifica a existência desse sistema de escravidão mascarada em individualismo consumista: você entrega a sua alma e ganha uma TV de tela plana e um iPhone.

Fim de festa, mas não para o capital

Recentemente, tanto o jornal Financial Times quanto a revista The Economist, cuja apresentação parece desnecessária, disseram que o projeto “classe média” dos tais “emergentes” está fazendo água e pode afundar levando consigo aproximadamente um bilhão de pessoas novamente para as profundezas do inferno da pobreza. 

A economia, como usualmente ocorre, se marca em ciclos, aparentemente num movimento sistólico e diastólico que, no modelo da circulação do sangue, opera para distribuir e concentrar recursos, conforme o caso e a ocasião, mas que serve fundamentalmente, por todo tempo, a poucos senhores. 

Nada mudou

O governo brasileiro, parece claro, entrou no jogo proposto, agiu como devia, fez a lição de casa e agora, quando tudo se encaminha para o precipício, com uma grave crise se anunciando, poderá ser responsabilizado, tanto política quanto criminalmente, pelo que poderá vir e pelos atos lesivos aos cofres públicos que, segundo as informações disponíveis, cometeu durante o tempo dos três mandatos.

O importante, no entanto, é perceber que tudo leva a crer que o mesmo poder que agia há 50 anos continua agindo. Nada ou muito pouco mudou de estrutural em todo esse tempo. Alteraram-se os personagens, as marionetes utilizadas, não a lógica, o sentido das ações e a estrutura básica que sustenta o poder.

E o poder, como ensinou Pierre Bourdieu, só é estruturante porque estruturado. Isso significa dizer que dentro de sua estrutura tudo é possível e crível e até mesmo o que está acima pode surgir como reflexo embaixo, assim como o que está à direita pode aparecer refletido à esquerda e vice-versa.

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Notas

(1) O Exército Brasileiro precisa se recuperar desse baque e parece tentar isso, mas parece esbarrar em suas próprias limitações e em um sistema político e econômico forte e ditatorial, que transforma heróis em ídolos e faz da honra nacional uma pantomima futebolística. O maior cuidado a ser tomado nesse caso e situação deve ser para que não haja novamente uma tentativa de usar essa instituição para favorecer pequenos grupos pela via do golpe de Estado, como em 1964.

(2) Esse presidente foi eleito exatamente por ter implantado um plano anti-inflacionário, o Plano Real.

(3) Dizem que a essa lista deveria se acrescentar uma revolução socialista.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

PIB afundando, economia estagnada e desemprego em alta: prepare-se que o bicho vai pegar depois das eleições

Más notícias, não exatamente para o governo, que já as esperava, pois as viabilizou com sua política econômica, mas para nós, população brasileira. O Produto Interno Bruto brasileiro, que já estava crescendo pouquinho, crescerá menos ainda. Até outro dia, se falava em 1%, mas a projeção mais recente dá conta de que subirá apenas 0.97%.

Para 2015, as previsões são ruins, mas pelo que o Banco Central (BC) projeta para o ano que vem, parecem até animadoras. Segundo o BC, a previsão é de crescimento de aproximadamente 1,50%. Uma titica, mas é o que temos de melhor, pois há quem diga que o PIB se manterá estagnado, ou quase. Os alarmistas e catastrofistas falam em queda e os veículos internacionais, como o Financial Times e a revista The Economist, já andam avisando, há muito tempo, que a coisa vai de mal a pior. 

Falando em queda, a produção industrial promete cair neste ano algo em torno de 1,15%, com perspectivas de piorar. Aliás, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) já disse que o setor está pessimista ao extremo e espera atividade industrial mais fraca ainda para o segundo semestre.

No mercado de trabalho, orgulho do governo (1), as notícias também não são nada animadoras. O Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) aponta que a criação de vagas em junho de 2014 é a menor desde 1998 e o fechamento de vagas suplantou a criação: 28,5 mil. Por conta disso, o Ministério do Trabalho já trabalha com uma estimativa de 1,1 milhão de vagas criadas em 2014. Até pouco tempo atrás, se falava em 1,5 milhão. Segundo línguas viperinas, pode chegar a menos de 1 milhão, no segundo semestre. 

Se você acredita em Deus, reze. Ano que vem, tudo indica, vamos ter recessão. E das brabas, dizem alguns especialistas. 

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(1) O governo brada aos sete ventos que o desemprego é historicamente o menor, sem contar que, na verdade, os seus programas assistencialistas é que têm produzido esse resultado maquiado. Com pequenos truques de prestidigitação, consegue-se o efeito esperado de um índice de desemprego baixo. Lula, Dilma, Mantega & Cia jamais vão ficar desempregados: se o bicho pegar, qualquer circo vai querer contratar mágicos tão eficientes. 

A Pátria coberta com chocolate granulado (ou coco ralado)

Todos juntos, vamos, pra frente Brasil, Brasil, salve o quindim!!!
Soube que um chef de cozinha disse que docinhos como brigadeiro e quindim são shit (porcarias ou merdas, conforme o gosto da tradução). A reação dos brasileiros ultrajados foi heroica. De um momento para outro, eis que surgem voluntários da Pátria a defender a Nação ferida pelo mestre de cozinha.

Sim, isso aconteceu, você sabe. Se não sabe, explico: durante um programa de televisão, o “chef” Jamie Olivier disse que brigadeiros e quindins são "um monte de porcaria". Depois disso, eis que um grupo de defensores da brasilidade ficou muito zangado e começou a lançar vitupérios iracundos contra o sujeito, que é inglês e só deve entender ofensas feitas na língua de Shakespeare. 

Parece que a “grande” imprensa deu eco e força aos bastiões da brasilidade dos docinhos. Tudo aconteceu a partir do dia 16 de julho, quando o programa foi ao ar. Ah, o programa é um tal “Saia Justa”, exibido no canal a cabo GNT.
Nelson Rodrigues dizia que o escrete (a seleção) era a “Pátria em chuteiras”. Agora, alguns brasileiros descobrem que o brigadeiro é a Pátria coberta com chocolate granulado. 
Deram ao Olivier caldo de cana e açaí. Ele gostou. Quando provou os quitutes recheados de brasilidade, no entanto, fez cara feia. "Quando você usa muito açúcar, você acaba mascarando o sabor das frutas na sobremesa", argumentou. É um interessante ponto de vista e, claramente, adequado para definir tanto o brigadeiro quanto o quindim: são basicamente açucarados. Se você não é chegado a um torrão de açúcar, não vai mesmo gostar, seja qual for sua nacionalidade.

A brasilidade em toda a sua plenitude
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Logo depois da confusão "seleção = Nação", observamos que surge outra, desta vez um tanto ridícula: "quindim = Brasil". 

Bem, há que se observar isso de forma otimista. MV Bill dizia, num rap, que só somos brasileiros na Copa. Agora, se descobre que, além disso, a nacionalidade se define na cozinha, com muito açúcar, chocolate e coco ralado. É um avanço!!!

Nelson Rodrigues dizia que o escrete (a seleção) era a “Pátria em chuteiras”. Agora, alguns brasileiros descobrem que o brigadeiro é a Pátria coberta com chocolate granulado. 

Depois da "humilhação" diante do esquadrão boche, eis que vem um inglês ofuscar o orgulho nacional... 

Pesos diferentes

Não vejo a mesma indignação com o Estado policial que vem mostrando a todos nós que a ditadura nunca acabou. Também não vejo a mesma verve nacionalista para rechaçar as corporações internacionais que vêm ao Brasil apenas para para espoliar sua população, além de sabotar sua saúde e sua sanidade. 

Do mesmo modo, não percebo sequer um décimo desse descontentamento em relação aos governos, que não apenas permitem e incentivam as tais corporações a procederem dessa forma pouco ética, como agem de modo que o Estado e a população que o constitui sejam parasitados em favor de poucos. 

Não vi nem um tiquinho de ultraje quando populações pobres do Rio de Janeiro e de outras cidades brasileiras foram expulsas de suas residências, sob porrada e tiros pela força militar que os governos usam contra o cidadão. Não houve revolta semelhante com a farra da Copa, com isenção fiscal, benefícios a alguns grupos de empresas e a construção de estádios que provavelmente serão brevemente classificados como os maiores banheiros de pássaros do mundo. 

Se esses que se calam diante dos verdadeiros ataques à Nação e à cidadania e quicam de indignação diante de "ofensas" a brigadeiros e quindins forem os verdadeiros brasileiros, então eu creio que não sou. 

Se o Brasil é apenas um grupo de onze jogadores de futebol ou uma bolinha de açúcar, então talvez não valha a pena viver neste país. 

Alguém me diz que o provincianismo e a mediocridade são doenças graves, muito piores do que o câncer ou a AIDS: simplesmente fazem com que a pessoa esteja morta em vida, e essa é possivelmente a mais terrível forma de morrer. 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

"Legado para não esquecer", por Vladimir Safatle

Terça, 15 de julho de 2014, publicado no jornal Folha de São Paulo

Não serei o primeiro a lembrar que, dentre os vários legados da Copa do Mundo, um dos mais duradouros será certamente a ampliação da zona de suspensão de direitos. O Brasil já era conhecido por seu histórico de violência policial, de desrespeito aos direitos civis e pela proximidade entre bandidos e a polícia. Nesta Copa do Mundo, a despeito da segurança contra manifestações políticas, tal processo chegou muito próximo da perfeição.

Enquanto todo o mundo se preparava para ver a final entre as seleções da Alemanha e da Argentina, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro mostrava, na praça Saens Peña, porque tem a palavra "militar" em seu nome.

Transformando praça pública em verdadeiras praças de guerra nas quais pessoas ficaram confinadas por horas à força, espancando jornalistas, moradores, advogados e ativistas de maneira indiscriminada - ao menos nisto eles são democráticos - e prendendo por "formação de quadrilha" pessoas cujo maior crime foi manifestarem-se politicamente, as "forças da ordem" conseguiram impor um padrão de excelência em matéria de indistinção entre democracia e passado ditatorial.

Já em São Paulo, a ocasião de manifestações para a liberação de pessoas presas por estarem protestando, em vez de ficarem em casa vendo a gloriosa campanha da nossa grandiosa "famiglia Scolari" em sua luta renhida e emocionante contra os teutônicos, a polícia havia mostrado quão pouco realmente se deixa intimidar por certas "ideias abstratas", como respeito ao direito popular de contestação e às garantias constitucionais. Neste ponto, a Fifa fez bem em escolher países como o Brasil e a Rússia para sediar a Copa do Mundo. O nível da política de segurança interna dos dois países é, hoje, praticamente o mesmo.

O problema, como costumava dizer o filósofo italiano Giorgio Agamben, é que práticas de exceção, quando aparecem devido a situações, digamos, excepcionais (como Copas, Olimpíadas, uma invasão de argentinos, guerras ou catástrofes naturais) não desaparecem mais. Elas vão se tornando uma espécie de jurisprudência muda, que pode existir nas entrelinhas, sem precisarem ser claramente enunciadas para serem efetivamente seguidas.

Assim, ao ritmo de Copas do Mundo e Jogos Olímpicos, o Brasil joga fora suas máscaras para mostrar a mais clara ausência de complexo em relação a seus arcaísmos. Mas, para um país que conseguiu, no século XIX, o feito de ser, ao mesmo tempo, liberal e escravocrata, qual, afinal, é a dificuldade em ser, agora, democrático e com uma polícia fora da lei?

Vladimir Safatle

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2014/07/1486026-legado-para-nao-esquecer.shtml 

PEC em tramitação cria gratificação para magistrados: R$ 3 bilhões a mais de despesas

O cidadão comum vive sua vida cotidiana, cumprindo horários e fazendo contas, além de sonhar com este e aquele produto de consumo. Enquanto faz isso, muitas coisas acontecem no mundo, tanto perto quanto longe dele, e o coitado nem imagina o quanto algumas dessas coisas podem influenciar sua vida. 

Agora mesmo, você veja, está tramitando no Senado Federal, lá em Brasília, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que cria uma gratificação por tempo de serviço para os magistrados. Segundo informações colhidas, trata-se de um acréscimo de R$ 3 bilhões para os cofres do Tesouro. Se a gratificação for retroativa, custará R$ 30 bilhões, mais do que o governo gasta anualmente com o Bolsa Família. E, convenhamos, os “bolsistas” precisam muito mais de uma graninha extra do que os magistrados, que já estão claramente entre os profissionais mais bem pagos do país. 

Pelo que se conta, o governo está conduzindo mal, bem mal, o processo. Afinal, a negociação política e o cuidado com os gastos públicos não são o forte da gestão da atual “comandante da Nação”. 

Logo, possivelmente em pouco tempo o Estado brasileiro terá mais uma grossa despesa. Junte isso ao que já existe para ser pago, notadamente o trilhão de juros da dívida (que já tinha sido paga, disse Lula) e você terá menos serviços, pois o governo já gasta pouco com isso e certamente gastará menos ainda. 

Então, é preciso dizer ao tal “cidadão comum” que pague seus impostos, trabalhando cinco meses ao ano somente para isso. E também é importante lhe informar que o dinheiro que pagou provavelmente não retornará, jamais. 

Claro, não vamos também crucificar ninguém, muito menos os magistrados. Mas, é preciso que se criem mecanismos de distribuição de riquezas e isso não está acontecendo, apesar do que os ferrenhos defensores do governo atual bradam. 

Há, sim, uma elevação do crédito, não uma elevação da riqueza do cidadão. Há uma elevação do endividamento, levando a um enredamento cada vez maior do "cidadão comum" com o mundo de exploração do trabalho, comandado, lá do alto, pelos deuses do capital financeiro. 

E, pior: pelo que a grande imprensa financeira internacional vem indicando, nem sequer essa elevação nefasta tem futuro. Para que tivesse, seria necessário um crescimento econômico de pelo menos 10%, o que não acontece. 

Tudo indica que aquelas nuvens negras que vemos lá longe estão chegando perto. 

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(1) Vide a tal refinaria comprada pela bagatela de R$ 1 bilhão e que não oferece perspectiva de retorno desse “investimento”. Tudo porque a senhora presidenta não leu sequer o parecer preparado para decidir a compra da refinaria. Ela própria reconheceu isso. Não caberia um Processo Administrativo Disciplinar nesse caso? 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Quem vaia Dilma? Quem está pagando a conta, ora!

Tenho repetido que o pessoal da camada mediana (economicamente falando) tem muito o que reclamar do governo. Simplesmente, se está havendo uma elevação de renda do "andar de baixo", não é o andar de cima que está pagando isso. 

A tal "classe média" clássica, aquela que a filósofa petista Marilena Chauí diz odiar é quem está pagando todas as contas no Brasil contemporâneo: paga as "bolsas", as esmolas e/ou migalhas, e paga a festa do andar de cima. 

Aí, esse pessoal reclama, com razão, pois não é essa camada que deve arcar com essas despesas, e os petistas e simpatizantes do governo os chamam de nomes feios: "coxinhas", "reacionários", "lacerdinhas" e tudo o mais. 

A situação pode ser entendida do seguinte modo: o governo te encontra na rua e te apresenta dois amigos, um pobre, fodido, esfarrapado, e outro bem rico, perfumado, com roupa que custa o que você não juntará em um ano de trabalho. Aí, o governo te "pede" para pagar um rango para ambos, sendo que a grana deve ser dada a ele, governo, que "distribuirá" a renda. No fim das contas, o governo dá dez por cento do que você pagou (contribuiu) para o pobre e o resto usa para uma lauta refeição com o ricaço perfumado. E você vai até o bar da esquina e almoça um sanduíche de ovo. 

O texto abaixo, de André Singer, é útil para entende o que está acontecendo. As "pontas" foram beneficiadas: os ultra ricos continuam ultra ricos; os ultra pobres estão um pouco menos ultra pobres. Já para o meio-campo, resta o prejuízo. 

Não me leva a mal, mas você está nesse meio-campo, certamente e, como bom otário(a), está trabalhando meio ano só para pagar essas contas. 

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Distribuição de renda e vaias a Dilma

Por André Singer, na Folha de S. Paulo

Bilionários mais bilionários, pobres menos pobres e setores médios com alguma perda; isso justificaria a ira desta classe com relação ao lulismo? 

Uma controvérsia voltou à tona nas últimas semanas. Afinal, o ciclo lulista distribuiu ou concentrou renda? De acordo com reportagem publicada nesta quinta (26) pelo "Valor", a fatia apropriada no Brasil pelo 1% mais rico da população não caiu entre 2000 e 2010. Tal faixa abocanhava cerca de 17% da renda nacional no início do século 21, e continuava a fazê-lo uma década depois. Estaria provado, então, que não houve redistribuição no período petista?

O primeiro impulso é responder que sim, mas a questão é mais complicada. A depender do lugar em que se decida fazer o corte estatístico, aparecem aspectos contraditórios da realidade. A reportagem, assinada por Denise Neumann, mostra que se tomarmos a renda dos 10% mais ricos, veremos que caiu de 51% para 48% do total no período considerado.

Mais ainda. A proporção subtraída do que se convenciona chamar de classe média tradicional parece ter ido parar no bolso dos pobres. A jornalista indica que os 60% pior aquinhoados tiveram os seus rendimentos elevados, indo de 18% para 22%. Desse ângulo, houve ou não distribuição de renda? O impulso é responder que sim.

Uma hipótese plausível é que tenham ocorrido as duas coisas ao mesmo tempo: enquanto a imensa massa dos pobres via a própria renda crescer, ainda que de maneira moderada e a partir de um ponto inicial muito baixo, a classe média perdia algo, produzindo-se, assim, um efeito distributivo, ainda que seja visível a desproporção: 10% detêm 48% da renda; 60% ficam com 22%.

Por outro lado, os mais ricos dentro da classe média (o 1%) não perderam nada. Pode-se supor até que no interior do segmento rico houve concentração, ou seja, os megarricos ficando ainda mais poderosos.

Um exemplo interessante, embora posterior ao período até aqui observado: apenas em 2013 o número de bilionários brasileiros aumentou em 50%, passando de 43 para 65, de acordo com a revista "Forbes". Ou seja, o patrimônio estaria se concentrando na ponta da ponta da ponta.

É possível, assim, que a mesma tendência detectada por Thomas Piketty em escala mundial tenha se dado por aqui, embora simultaneamente houvesse ocorrido um movimento distributivo do meio para baixo. Em resumo, teria havido uma melhora nas pontas, com uma piora relativa no setor intermediário. Note-se que enquanto de um lado cresceu o número de bilionários, de outro a renda dos 10% mais pobres aumentou 106% entre 2003 e 2012 (Marcelo Neri, "Valor"). Trata-se apenas de uma hipótese, mas admita-se que o raciocínio é compatível com a ira da classe média tradicional em relação ao lulismo.

http://ttfbrasil.org/noticias/index.php?id=247 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Direitos e direitos

Há uma questão muito oportuna a ser debatida em nosso tempo, a dos “direitos”. Você já deve ter notado de que muito se fala em “direitos” hoje em dia. Muito, até quase demais. Então, cabe pensar um pouco sobre isso. 

O tema dos “direitos humanos” é controverso e tem gerado manifestações favoráveis e contrárias, sendo que quem se manifesta favoravelmente o faz usualmente com tom humanista e não é raro descobrir que muitos destes “advogados” consideram mesmo que todos somos iguais diante da lei, embora a realidade lhes mostre exatamente o oposto disso. Provavelmente a força da crença nos direitos humanos vem exatamente da tentativa de provar que a realidade está errada. 

Quem se manifesta contrariamente não raro acusa os defensores desses direitos como promotores da desumanidade. Dizem que a conversa dos direitos humanos serve mesmo é para dar boa vida a bandidos, quando as vítimas destes não tiveram esses direitos. Em casos em que os argumentos são postos nesse nível é melhor não discutir muito. Simplesmente, porque não adianta. 

Discriminar não se pode...

Mas, pondo à parte as polêmicas mesquinhas e pontuais, há um ponto cego em toda essa discussão acerca de direitos. Ponto cego que, como se pode imaginar, une a todos em um engodo. 

O caso é que, quando se fala em direitos civis e políticos (incluindo aí, em algum lugar, os direitos humanos), a gritaria contra a discriminação é geral e irrestrita. Há uma condenação sisuda, resoluta e absoluta contra qualquer ato discriminatório. Os cenhos franzem, os olhos arregalam e a indignação fica estampada na face de qualquer um quando se depara com um caso, simples ou complexo, de discriminação, ou seja, de uma atitude adversa de alguém baseada em alguma característica específica de outrem. 

Em resumo, ninguém pode ser discriminado por causa da sua raça, do seu gênero, orientação sexual, nacionalidade, religião, situação social etc. Não se discute. Já no caso das discriminações por conta de salário, renda e situação econômica, há uma tolerância absoluta. E aí é que não se discute mesmo. 

... mas, em alguns casos, é natural...

Se você for negro, não pode ser discriminado; mas, se for negro pobre (o que não é raro no Brasil e no mundo), pode, não por ser negro, mas por ser pobre. Se for mulher, não pode, em hipótese alguma, sofrer qualquer tipo de diferenciação negativa por isso; mas se for mulher e pobre, aí já se abrem exceções. Se for homossexual, ocorre o mesmo, assim como se for católico, umbandista ou evangélico. Ou seja, se for bem de vida, é gay, “homo”, transexual, “assumido” etc., tudo sendo uma questão de opção; mas, se for pobre, é veado mesmo, bicha, biba, mona, pederasta, sapata, safado(a) e/ou sem vergonha. 

Parece claro que há direitos e direitos e nem todos parecem ter os mesmos direitos. 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

"Esquerda padrão Fifa", por Vladimir Safatle


Diferentemente dos baba-ovos do governo, o movimento "Não vai ter
Copa" evocou a dignidade e a cidadania e deixou uma mensagem clara:
o tempo do Brasil de bico calado acabou e o governo que aí está é tão
ditatorial quanto aquele das décadas de 1960/1970. Se dias melhores
vierem, devemos muito a esse pessoal. Já os defensores incondicionais
do governo petista vão direto para o lixo da história, sem escalas. 
O movimento do "Não vai ter Copa" merece muito mais elogios do que críticas. Apontou o jogo sórdido da Fifa e do governo atual com bravura e coragem, pois que enfrentar o Estado terrorista brasileiro não é para qualquer um. 

Assusta ver gente que se dizia (e ainda se diz!) "de esquerda", defendendo a isenção fiscal para a Fifa e seus parceiros e defendendo até as brutais remoções de comunidades pobres, realizadas por conta da especulação imobiliária que a Copa gerou. 

Um conhecido militante "de esquerda" morador de Curitiba está tão obcecado na defesa do governo que, todos os dias, comete o mesmo erro: faz essa defesa com base no preceito do "nós somos bons"/"eles são maus", característico dos fascistas. Sempre o imagino brandindo uma cruz para afastar os maus espíritos, que ele considera "coxinhas", "reacionários" ou "lacerdinhas" (1).  

É curioso, pois Walter Benjamin, que se dizia comunista, afirmou, em seu texto mais conhecido, que à estetização da política, praticada pelo fascismo, o comunismo responderia com a politização da arte. 

A notar a forma como lançou o programa "Mais Médicos", como trata os movimentos sociais e como utiliza o ufanismo estúpido para tentar melhorar sua imagem diante da "torcida brasileira", o governo atual pode ser, tranquilamente, definido como fascista. A última propaganda que pagou, a que fala do medo da volta aos "maus tempos", é emblemática e bem poderia ter sido paga por Goebbels, por exemplo. 

Segue o texto de Safatle. 

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Esquerda padrão Fifa

Por Vladimir Safatle (artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo)

Aqueles dispostos a permanecer de esquerda e defender o governo federal deveriam pensar melhor sua maneira de compreender as críticas feitas à Copa do Mundo. A tentativa de desqualificar toda crítica a partir do clássico sintagma "você está fazendo o jogo da direita" deveria ser motivo de vergonha. Tal argumentação estratégica só aparece quando não é mais possível utilizar raciocínios realmente programáticos. 
Como se não bastasse, é triste não estranhar mais que uma política que se veja de esquerda abrace sem complexos a dinâmica anestesiante da sociedade do espetáculo
Muitas das críticas mostraram com clareza como tais grandes eventos esportivos são um presente envenenado por potencializar um modelo de desenvolvimento excludente. Remoções brutais de populações, estádios construídos em condições deploráveis de trabalho, cidades atravessadas por megaprojetos feitos a partir da lógica da rentabilização máxima da especulação imobiliária, relações incestuosas entre recursos públicos e interesses de pequenos grupos de grandes empresários, incompetência gerencial feita expressamente para ajudar empreiteiras a lucrar mais: esta foi a mesma história encontrada na África do Sul, no Brasil e, certamente, será repetida na Rússia. 
A esquerda morre quando negocia sua força crítica por alguns ingressos de futebol
Nos primeiros dois casos, ela conta como antigos grupos de esquerda, tais quais o partido CNA (Congresso Nacional Africano) sul-africano e o PT brasileiro, naturalizaram o fato de se transformarem em parceiros privilegiados da hiper-rentabilização do capital por meio do esporte. Hiper-rentabilização comandada por uma entidade eivada até a medula por acusações pesadas de corrupção. 

Como se não bastasse, é triste não estranhar mais que uma política que se veja de esquerda abrace sem complexos a dinâmica anestesiante da sociedade do espetáculo. 

Parece o sintoma mais acabado de falência ideológica usar megaeventos como dispositivo de mobilização nacional. Tentar reeditar luta de classes por meio da defesa da Copa do Mundo é uma situação patética que alguns defensores do governo deveriam nos poupar. Mais um pouco e teremos gente que se dizia de esquerda gritando: "Brasil, ame-o ou deixe-o". 

Enquanto isso, temos pessoas que são presas como criminosos por participarem de protestos e funcionários públicos que são demitidos por utilizarem a visibilidade da Copa a fim de organizarem greves cuja função era expor suas péssimas condições de trabalho. Seria bom nos atentarmos primeiramente para eles neste momento. 
Remoções brutais de populações, estádios construídos em condições deploráveis de trabalho, cidades atravessadas por megaprojetos feitos a partir da lógica da rentabilização máxima da especulação imobiliária, relações incestuosas entre recursos públicos e interesses de pequenos grupos de grandes empresários, incompetência gerencial feita expressamente para ajudar empreiteiras a lucrar mais: esta foi a mesma história encontrada na África do Sul, no Brasil e, certamente, será repetida na Rússia. 
Eles não procuravam "estragar a festa" da população, mas lembrar que há muita gente que não foi convidada para dela participar. 

A esquerda morre quando negocia sua força crítica por alguns ingressos de futebol. 

VLADIMIR SAFATLE - É filósofo e professor livre-docente da Universidade de São Paulo. Integra o PSOL. Escreve às terças-feiras na página 2 da Folha de S. Paulo.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/173758-esquerda-padrao-fifa.shtml 

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(1) Termo que faz referência ao jornalista e ex-governador carioca Carlos Lacerda, fundador do jornal Tribuna da Imprensa e um declarado conspirador da União Democrática Nacional - a UDN. Foi contra ele o atentado da Rua Tonelero, em Copacabana, que foi o estopim que levou o ex-presidente Getúlio Vargas ao suicídio. Após apoiar o golpe de 1964, foi perseguido pelos que apoiou e que, dizem por aí, tiveram participação decisiva na sua morte, ocorrida em 1977. Lacerda foi inimigo figadal de Vargas. 

Cenário paranaense prenuncia mais uma eleição para Requião

Requião, que já governou o Paraná três vezes, deve voltar para o quarto mandato
Observadores com faro político afirmam que, no Paraná, a eleição ruma para o retorno de Requião ao governo. Dizem que, ao perder a convenção do PMDB e, assim, o apoio do partido, o atual governador, Beto Richa, perdeu a eleição. E justamente para Requião, indicado na tal convenção como candidato ao governo. 

A base racional da afirmação não está exatamente na perda do apoio do PMDB, mas na elevação de Requião a candidato. Como aliado, o partido garantiria basicamente algum tempo de televisão, mas, fundamentalmente, seria valioso ao ficar calado, ao não fazer críticas e nem falar sobre a sofrível administração de Richa nos últimos quatro anos (difícil encontrar alguém que fale bem). Seria uma pedra a menos no caminho, é certo. 

Já Requião é candidato forte e o fato de ter vencido sete das oito eleições que disputou, sendo quatro para governador, com três vitórias, já parece suficiente para falar sobre a eficiência do político paranaense. E, mais: fala a seu favor o fato de seus governos terem sido caracterizados por investimentos na melhoria da qualidade de vida da população em geral, sem os privilégios características dos governos de Lerner e de Richa, que mais foram balcões de negócios do que propriamente governos. Lerner, por exemplo, graças a detalhes de sua lamentável atuação no posto de governador, foi inclusive condenado à prisão. No entanto, parece cumprir pena em liberdade. 


O casal Gleisi/Bernardo com sua maior cabo eleitoral
Os progressistas mais conservadores do PT

Richa está com as barbas de molho porque tem em Requião um adversário muito mais consistente e forte do que Gleisi Hoffmann, candidata do partido que ocupa o Governo Federal. A moça não é assim tão forte no discurso e menos ainda no curriculum. Coleciona vitórias nos últimos pleitos e ainda tem quatro anos de mandato no Senado Federal, mas, dizem as más línguas, seu sucesso está intimamente ligado ao patrocínio do marido, que ocupa cargos nos altos escalões do Governo Federal e, dizem as piores línguas, conseguiu fazer muitos “amigos” durante esse período, “amigos” que lhe garantem sempre boas verbas para campanhas. 

O casal, aliás, parece compor a ala mais conservadora do PT governista. Conservadores, diga-se, não por defender ideias antigas e retrógradas. Isso, de maneira alguma: eles são até bem “moderninhos” nas falas, podem ser mesmo classificados como progressistas de nobres ideais. Mas, como há distância entre intenção e ato, a práxis de ambos vai no sentido de conservar privilégios e promover os “aliados” que lhes financiarão a campanha e a vida em geral. 

Um assessor parlamentar de um deputado estadual me contou, no calor da eleição de 2010, que Gleisi, (que foi ministra de Dilma Rousseff, posteriormente, assim como o maridão), já chegava no interior do estado, durante aquela eleição, com o status de “esposa do ministro do Planejamento”. Não que ela precisasse dizer isso, é claro. Há coisas que não precisam ser ditas e os políticos costumam ter quem fale abertamente por eles essas coisas que não precisam ser ditas. Afinal, para que servem os assessores? 


Richa perdeu o apoio do PMDB e ganhou,
com Requião, o adversário que tentava evitar
Enfrentar Gleisi, assim, não é exatamente o sonho de Richa, mas também não parece se constituir num pesadelo. Enfrentar Requião, porém, certamente está tirando o sono do atual governador. 

Fortes emoções

No entanto, o jogo não está decidido. Requião enfrentará as máquinas dos governos estadual e federal e todos sabemos que esses times têm se mostrado bons mesmo é na "politicagem", ou seja, entendem a política como forma de atender interesses pessoais, não como forma de servir à sociedade. Como Requião não joga nesse time, muito pelo contrário, certamente está aí sua maior força. A maior parte dos educadores de escolas estaduais, bem como os policiais e outros servidores, estão, por saber disso, se posicionando ao lado de Requião. Afinal, servidor público quer servir ao público, não aos “aspones” de plantão. 


Bernardo Pilotto concorre pelo PSOL
De todo modo, se prenunciam fortes emoções. 

Correndo por fora, PSOL pensa no futuro

Há outras candidaturas e parece adequado destacar a de Bernardo Pilotto, um militante do PSOL que vai para o palanque mais para promover uma ampla discussão política, tornando, assim, públicas as propostas de seu partido, do que para vencer a eleição. Observe-se que, pelo que conheci dos candidatos “nanicos” de eleições passadas, a candidatura de Bernardo parece mais sólida: tem mais desenvoltura na exposição de ideias e, assim, pode ser mais convincente e confiável para o eleitor. O tempo de TV, muito pequeno, é uma barreira, mas, se o candidato do PSOL conseguir elevar o debate que Richa e Gleisi (já apelidados de Ken e Barbie por Requião) tentarão rebaixar constantemente e se conseguir sensibilizar uma parcela do eleitorado, já terá ganho a eleição, proporcionalmente, é claro. O maior ganho pode vir do futuro, nesse caso.