segunda-feira, 30 de junho de 2014

Tanto a “antiga classe média” como a “nova classe média” devem muito aos governos dos últimos 20 anos

O governo tem sido tratado com muita má vontade por uma parcela de nossa população, não há dúvida. Os governistas muito se esforçam para melhorar a vida de todo mundo, mas poucos reconhecem seus esforços. Veja que há os auxílios assistencialistas, genericamente chamados de “bolsas”, uma espécie de subsídio oferecido a pessoas que supostamente se encontram em flagrante dificuldade de sobrevivência. Há também a criação de empregos, que rende aos governistas o argumento de que jamais houve desemprego tão baixo na história brasileira. 

O importante é consumir e consumir bastante. Mesmo que não se tenha como, mesmo que o custo de algo seja dezenas ou centenas de vezes mais alto do que a real capacidade de pagamento, é preciso comprar sem medo. Não é preciso medo porque, como o pessoal da antiga classe média elevou o padrão (ainda que mais virtualmente do que de forma real), paga "um pouco mais" de impostos por isso. Assim, o que os bolsistas do governo, o pessoal da “nova classe média”, aquelas pessoas que faturam algo em torno de R$ 300 e R$ 1000, não puder pagar, a “antiga classe média” pagará. Simples assim.
Bem, está certo que “bolsas” e empregos possuem uma relação mais íntima do que aquela que os mortais imaginam haver: tudo indica que nos levantamentos da taxa de emprego e desemprego o pessoal que recebe os subsídios é incluído automaticamente no rol dos “formalmente empregados”. O tal subsídio é de algo em torno de R$ 70 ou R$ 80. Não dá para considerar isso um salário e não dá para dizer que o recebimento do auxílio assistencial signifique inserção no mundo do trabalho. Parece maquiagem de dados e informações: a bandeira maior do governo é a queda do desemprego e, parece, para ajudar a melhorar as aparências, não custa nada reduzir o número de pessoas sem empregos. Quando não se pode fazer isso de forma real, um pouco de criatividade pode ser usada. 


Maquia, baby!

Se a presidenta usa tanta maquiagem para dar uma forcinha no visual, os técnicos do governo também podem usar o mesmo recurso para elevar o moral dos números oficiais. Sabe como é, as eleições estão perto demais para escrúpulos excessivos... 

São, afinal, algo em torno de 30 milhões de pessoas, segundo se conta, a receber o auxílio do “Bolsa Família”, o nome do tal subsídio. Logo, se formos levar em conta que o governo maquia as contas do desemprego com esses milhões de pessoas, bem se poderia acrescentar 30 milhões de desempregados ao Brasil. 

Não se deve fazer isso, porém. Esses trinta milhões de brasileiros estão tendo a chance de viver um pouco melhor com essa ajuda do governo e, nada mais justo que ajudem cedendo seus CPFs para que a presidenta que tenta se reeleger os use da melhor forma. Não fazer isso seria ingratidão, claro. 

A “velha” classe média não existe mais

Outro grande favor que o governo tem prestado alcança outro público: a tal “classe média”. Não, não exatamente o que o governo chama de “classe média”, mas sim aquela clássica, que era, até um tempo na história, entendida como aquele grupo seleto de assalariados e profissionais liberais que detinha recursos para manter um padrão de vida melhor no plano do consumo, com a possibilidade de possuir um imóvel, ou vários, automóvel, poupança, eletrodomésticos, capacidade para um consumo de melhor nível etc. Em suma, aquela categoria social que dependia do trabalho, mas usualmente de um trabalho qualificado, conseguia acumular alguma riqueza e, assim, projetava uma vida melhor para o futuro, graças a investimentos no presente. 


Pois não é que o governo, além de fornecer os subsídios assistencialistas, agora resolveu redefinir essa história de ser “classe média”. Depois de uma das intelectuais orgânicas mais importantes do partido que ocupa do governo ter declarado seu ódio e desprezo à tal “classe média” clássica, os governistas deram uma mexida nos números e nos conceitos e passaram a chamar uma camada antes considerada “pobre”, com vencimentos baixos e baixa capacidade de consumo, de “classe média”. Os que ocupavam antigamente a faixa “média”, o governo passou a considerar “semi-ricos”, o que os livra das maledicências da intelectual citada e realiza os sonhos de boa parte dos ocupantes dessa classe social. Afinal, sempre se disse que o pessoal da classe média almejava a riqueza. Agora, graças ao governo, conseguiu chegar mais perto do sonho.  

Se a presidenta usa tanta maquiagem para dar uma forcinha no visual, os técnicos do governo também podem usar o mesmo recurso para elevar o moral dos números oficiais. Sabe como é, as eleições estão perto demais para escrúpulos excessivos... 
Tudo mudou

Se você era um “classe média” olhado com desprezo pelos ricos e com ódio pelos pobres, esse inferno chegou ao fim. 

Todos ganham: os pobres que agora são chamados “classe média”, se sentem prestigiados por motivos óbvios. Antes, cheios de rancor, ficavam jogando pedras e ou balas perdidas nos telhados daqueles que eles chamavam genericamente de “ricos”, embora estes não fossem nem de perto ricos. Agora, podem experimentar, ao menos em tese, como é a vida que eles imaginavam que os “ricos” tinham: podem comprar televisores, aparelhos de som, telefones, máquinas de lavar roupa ou louça etc. Até mesmo podem comprar um carrinho para levar a família nos domingos no Jardim Zoológico, não para dar pipoca aos macacos, pois que isso deixará doentes os animais, mas para mostrar a si próprios como estão distantes e como são cada vez mais superiores aos outros mamíferos. 


O pessoal do governo já avisou a Marilena Chauí que tudo mudou
e a classe média não é mais o horror que a filósofa pensava
O pessoal que hoje saiu da classe média para galgar as colinas da riqueza, ainda que essa “riqueza” signifique apenas possuir um pouco mais de dinheiro do que os novos “classes médias”, também fica feliz, é claro. Se a corrida socioeconômica envolve aparências, como parece óbvio, estão bem melhor na foto e, segundo o Papa do partido que ocupa o governo, chamado misticamente de "Lula", só andam reclamando porque estão de barriga cheia. Segundo ele, a cobrança de impostos não é alta e, ainda que seja um pouquinho voraz, se justifica porque está melhorando a vida de muitos brasileiros, possibilitando que estes consumam e se endividem para o bem de todos e felicidade geral da Nação. 

Consuma que alguém pagará a conta, é garantido

Com mais dinheiro no bolso, o pessoal mais pobre comete menos crimes e consome mais. E o importante, hoje, é consumir e consumir bastante. Mesmo que não se tenha como consumir, mesmo que o custo de algo seja dezenas ou centenas de vezes mais alto do que a real capacidade de pagamento, é preciso comprar sem medo. Não é preciso ter medo porque, como o pessoal da antiga classe média elevou o padrão (ainda que mais virtualmente do que de forma real), paga "um pouco mais" de impostos por isso. Assim, o que os bolsistas do governo, o pessoal da “nova classe média”, aquelas pessoas que faturam algo em torno de R$ 300 e R$ 1000, não puder pagar, a “antiga classe média” pagará. Simples assim. 

O pessoal que antes era considerado "rico" vai bem, obrigado. Continua rico e, dizem, cada vez mais rico. Na prática, na verdade mesmo, é a ele que o governo atende e, é claro, deve muito a este. O problema é que não costuma pagar o que deve, simplesmente porque não reconhece a dívida. 

Não reclame, que tudo está sendo feito da melhor forma possível

Logo, se for falar mal do governo, pense bem. De alguma forma, ele está zelando por sua comodidade, seja você um calouro da classe média, um novo rico (ou semi, tanto faz, pois nem tudo que brilha é ouro, mas o importante é que parece ser) ou, principalmente, um rico de carteirinha. 

Se ainda assim, se depois de conhecer todas as boas intenções do governo, você ainda continua reclamando, se ajoelhe e peça desculpas aos céus. A ingratidão é um dos maiores pecados, fique sabendo. 

Na prática, fica a lição de que basta uma forma otimista de perceber o mundo e a realidade para que tudo se transforme. Nizan Guanaes, um publicitário que no tempo de FHC dizia que o maior problema do Brasil era a falta de otimismo com a qual o brasileiro encara o próprio país, realmente tinha certeza, como se pode comprovar agora. 

Vinte anos de continuismo

Aliás, como em outros campos, o pessoal do atual governo, que se diz inimigo do governo de FHC, parece ter aprendido muito não apenas com o ex-presidente, mas também com outros tucanos de plumagem sedosa. De 1994 para cá, aliás, pouco mudou. 

De alguma forma, esses vinte anos um dia poderão ser lembrados pela continuidade e pela hegemonia da aparência em detrimento da essência. 

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