quinta-feira, 12 de junho de 2014

'Bolsa juros' não deixa o país crescer, dizem economistas

Folha de S. Paulo - 03/05/2014
Eleonora de Lucena

Autores traçam paralelo entre conservadorismo colonial e atualidade

No clássico "Casa Grande & Senzala" (1933), Gilberto Freyre desenhou a hiperdesigual sociedade brasileira, baseada na grande propriedade açucareira e na escravidão. Nesses alicerces, enxergou conservadorismo: "Menos vontade de reformar ou corrigir determinados vícios de organização política ou econômica que o puro gosto de sofrer".

Os economistas Alcino Ferreira Camara Neto e Matías Vernengo resgatam esses conceitos em "Conta de Juros Grande & Favela". No livro, traçam paralelos entre a situação colonial e a atual, afirmando que "a chibata de antanho é a taxa de juros Selic".

"O masoquismo de nossas políticas monetária e cambial só pode ser entendido à luz da formação de uma classe rentista com padrões de consumo internacionalizados, os modernos senhores de engenho, que vivem das nababescas remunerações de suas contas bancárias, possibilitadas pelo Banco Central, a Casa Grande da globalização financeira", escrevem.

Contundente e provocativa, a obra faz um duro ataque à política econômica que vigora no país nas últimas décadas. Para os autores, é esse modelo que beneficia a elite financeira que impede a retomada do desenvolvimento, com "consequências sociais nefastas".
Nesse quadro, o que chamam de "bolsa juros" --o "maior programa social do governo"-- causa uma enorme transferência de recursos para uma minoria da população, bancos e corporações que detêm títulos da dívida pública. Políticas sociais, como o Bolsa Família, tornam-se secundárias em relação à acumulação financeira.
Keynesianistas, postulam câmbio relativamente desvalorizado, controles de capital, reduzida taxa de juros e mais gastos sociais e em infraestrutura. Colocando a política atual pelo avesso, declaram: "Não precisamos cortar os gastos sociais, mas eliminar os gastos com juros e o superavit primário: precisamos de deficit primário".


"A política fiscal responsável é aquela que promove crescimento e pleno emprego com redução de desigualdade. Superavit fiscais permanentes são profundamente irresponsáveis", disparam.

ESTAGNAÇÃO 

Na visão dos autores, o sistema implantado no Brasil após a crise da dívida externa tornou o crescimento "inorgânico, desnecessário e subsidiário para o funcionamento da economia". A favela, símbolo da miséria, não é resultado indesejado da incapacidade de crescer, mas decorrência necessária da financeirização da economia.

"O Brasil não cresce porque não quer, e não quer porque a estagnação cria um ambiente em que alguns poucos, mas poderosos, ganham fortunas nababescas." Para os autores, o equilíbrio dialético entre a conta de juros e a favela --assim como no tempo da casa grande e da senzala-- é "orgânico e constitutivo da nossa economia nos últimos 30 anos".
Não houve uma "revolta conservadora": "Os agentes políticos do ressurgimento de nossa elite predadora foram os partidos de esquerda, que lutaram contra a ditadura", dizem os economistas, para quem o que houve foi uma "vingança dos rentistas.
Vernengo, doutor pela New School for Social Research em Nova York, e Camara Neto, doutor pela Universidade Federal Fluminense, observam apenas diferenças marginais entre as políticas sociais de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma, já que as taxas de juros reais têm permanecido altas desde o Plano Real.

Nesse quadro, o que chamam de "bolsa juros" --o "maior programa social do governo"-- causa uma enorme transferência de recursos para uma minoria da população, bancos e corporações que detêm títulos da dívida pública. Políticas sociais, como o Bolsa Família, tornam-se secundárias em relação à acumulação financeira.

Os autores relativizam as melhorias em indicadores sociais, lembrando que avanços ocorrem desde os anos 1940, em razão da industrialização e urbanização. Consideram que os índices poderiam ser muito mais positivos hoje "se a maior parcela do gasto do governo fosse desviada do pagamento de juros para programas sociais".

Conjugando análise política e econômica, encaixam a situação brasileira dentro do processo mundial de crescimento exponencial da força das finanças, identificando a transferência de poder da indústria para os bancos.

Se nos EUA e na Europa Chistopher Lasch identificou a "revolta das elites" --quando elas se recusaram a pagar a conta do Estado de bem-estar e obtiveram reduções pesadas de impostos deslanchadas nas gestões Reagan e Thatcher--, aqui o arranjo foi diferente.

Não houve uma "revolta conservadora": "Os agentes políticos do ressurgimento de nossa elite predadora foram os partidos de esquerda, que lutaram contra a ditadura", dizem os economistas, para quem o que houve foi uma "vingança dos rentistas.

Ainda que recheado de números, o livro carece de uma revisão atenta e de uma edição cuidadosa. Alguns gráficos são de difícil compreensão; dados precisariam de atualização e visões de mais aprofundamento. Também foi difícil encontrar o livro em livrarias e mesmo encomendá-lo na editora.

Apesar das falhas, a leitura vale. Sua audácia deixará muitos ortodoxos --do governo e da oposição-- de cabelo em pé.

https://www1.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/MostraMateria.asp?page=&cod=962345

Nenhum comentário:

Postar um comentário