sexta-feira, 13 de junho de 2014

Black Bloc, por Esther Solano

Entrevista

Esther Solano acompanha as manifestações desde o ano passado. E não é de sua casa ou da universidade. Ela vai a atos e conversa com adeptos da tática Black Bloc. Esther é doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Leia nossa entrevista com ela:

Coletivo AJA – Você tem acompanhado a Polícia Militar a algum tempo. A proximidade da Copa está deixando a corporação e os indivíduos mais tensos?

Esther Solano - A proximidade da Copa, sem dúvida é um momento de stress para todos os agentes de segurança pública. A Polícia Militar está nas ruas faz um ano lidando com protestos heterogêneos, novos para ela, com diferentes atores, sem lideranças fixas, com um clima muito tenso nas ruas, então, pode-se imaginar o nível de stress acumulado. Por outro lado, o fator incerteza, não saber como serão os protestos, quantas pessoas terão, se haverá ou não presença de Black Bloc, gera uma tensão a mais, e finalmente, a onipresença da imprensa é outro elemento que aumenta também o nível de ansiedade. Saber que tudo é filmado, que os holofotes estarão fixados nas manifestações, que amanhã um protesto pode ser manchete ou capa não só dos médios nacionais, mas também estrangeiros, são questões que não ajudam muito a manter a calma…
Acho importante não esquecer que quando a polícia atua o faz comandada pelo poder político e legitimada pela própria sociedade, por isso sempre penso que a insatisfação que temos com nossas polícias deveria se refletir também em fazer uma autocrítica e pensar que somos nós os que legitimamos suas ações
AJA - A polícia teve treinamento e foram criadas divisões especiais para as manifestações.  Entre eles isso é bem visto? Eles entendem que há maneiras mais cidadãs de tratar a população?

Esther - Pelo que eu pude compartilhar e dialogar com os policiais, existem, claro, como em toda grande corporação (e a PMESP tem mais de 80.000 efetivos) diversos pontos de vista. Na verdade nada mais é do que um reflexo do que acontece na sociedade. Pessoas com perfil mais dialogante, que apostam com uma ação mediadora, pessoas com um perfil mais duro que apostam por uma ação mais repressiva. Acho importante não esquecer que quando a polícia atua o faz comandada pelo poder político e legitimada pela própria sociedade, por isso sempre penso que a insatisfação que temos com nossas polícias deveria se refletir também em fazer uma autocrítica e pensar que somos nós os que legitimamos suas ações e os que votamos nas figuras do governo de Estado, portanto, somos todos corresponsáveis.

AJA - As pessoas que utilizam a tática Black Bloc se enxergam como “foras da lei”?

Esther - Acho que eles se enxergam como enfrentando um sistema que não é legítimo. Pelo que conversei com eles, me parece que muitos enxergam sua violência como uma expressão política, como forma de reação diante de um sistema político e policial que é desprezado. Sim poderíamos dizer que “foras da lei”, dado que esta lei é percebida e pensada como um mecanismo de reprodução de privilégios e estruturas autoritárias e sufocantes para a sociedade.

AJA - Há semelhanças entre eles ou o ponto em comum é a raiva do que está ai?

Esther - Muitas semelhanças! Algumas das falas dos Black Bloc são extremamente parecidas com as de vários dos manifestantes de Junho. O descontentamento e a indignação contra o sistema político, a decepção, a raiva, o sentimento de que chegamos ao limite do tolerável. Segundo os depoimentos, são os elementos comuns que juntam as pessoas nas ruas.

AJA - Você já havia ouvido alguma vez sobre qualquer ligação de adeptos da tática e o PCC ?

Esther - Nunca e acho que devemos ser muito cuidadosos e responsáveis com a informação. Seriedade, fatos e não especulações ou extrapolações excessivas deveriam sempre guiar nossas pesquisas ou nossas pautas jornalísticas.
Claro, para um país acostumado a uma história de escravidão, de guetos, de classes sociais absolutamente distantes, tanto “dinamismo nas ruas” pode assustar a muitos que estavam acostumados a manter seus privilégios em base à carência total de direitos de muitos. Sinto muito, a sociedade está em movimento…
AJA - O que essa juventude quer? Existem pautas que se sobressaem?

Esther - Todos convergem em que querem mudança, mudança radical, estrutural. Mais dignidade na política, mais dignidade no trato ao cidadão, mais responsabilidade por parte do poder público.  Agora, o sentimento de decepção e de a crise de representatividade são tamanhas que eu me pergunto qual é o caminho que vamos tomar. Temos uma grande massa da juventude que não acredita mais nos velhos modelos políticos, mas que tampouco sabe muito vem que construir ou como pensar modelos novos. Momento de transição, no qual sabemos muito bem o que rejeitamos mas não temos tanta certeza sobre o que queremos colocar no lugar

AJA - Convivendo com eles (black blocs) você considera que o poder público está respondendo da maneira mais adequada?

Esther - Sou bastante crítica com o poder público. Acho que houve uma negligência total. O poder público escondeu-se atrás da polícia, que é a única que não pode sair das ruas e foi omisso na questão da violência nas manifestações. Eu queria ter visto representantes do poder público nas manifestações, como mediadores, como negociadores, tentando diminuir a violência, exercendo o papel que lhes corresponde, respondendo ao desafio social, tratando as manifestações como questões políticas, não policiais. Infelizmente, tivemos pouquíssimas participações desse tipo. O poder público não soube ou não quis assumir seu papel.

AJA - Como você avalia o momento que estamos vivendo no Brasil?

Esther - E um momento muito importante. O País precisa de mudanças urgentes. Isso é inegável, mas as pessoas têm que reivindicar e lutar por estas mudanças. Brasil é um país com profundos problemas sociais, com uma herança histórica muito complicada. Manifestações, greves, formam parte da saúde da democracia, são suas bases, seus cimentos. Um país que não se move, que não é dinâmico, é um cadáver. Claro que temos que conseguir, entre todos, que o clima de tensão e violência, nas ruas diminua, mas o país deve avançar, deve ocupar o espaço público, lutar por diminuir esta trágica desigualdade que o corrói totalmente. Claro, para um país acostumado a uma história de escravidão, de guetos, de classes sociais absolutamente distantes, tanto “dinamismo nas ruas” pode assustar a muitos que estavam acostumados a manter seus privilégios em base à carência total de direitos de muitos. Sinto muito, a sociedade está em movimento…


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