segunda-feira, 30 de junho de 2014

André Gonçalves pergunta: "Quem comprou a Copa?"

Conheci o André em Brasília, em 2009, mais precisamente no Palácio do Planalto, durante cobertura jornalística de reunião de quatro governadores com Dilma Rousseff, então Chefe da Casa Civil da Presidência da República: Serra, Aécio Neves, Requião e Sergio Cabral Filho. Foi o início de, para mim, uma boa relação de amizade que durou até aproximadamente um mês depois de eu ter deixado a Capital Federal, quando falei com ele pela última vez. 

Embora não mais o tenha visto ou com ele falado desde então, ainda tenho grande carinho pelo André, bem como reconhecimento por sua qualidade profissional e sua lucidez. 

Agora, ele publica artigo que traz uma discussão fundamental neste momento: o governo petista já cometeu dezenas, centenas, milhares de asneiras e deve ser avaliado por conta disso, sem necessidade de que se criem ou inventem situações fictícias como, por exemplo, a "compra" do resultado da Copa do Mundo que ora se realiza no país. 
Curioso que você deve ter ouvido mais sandices relacionadas à compra da Copa na semana passada do que à última troca na Esplanada, em que Dilma cedeu às pressões do PR de Valdemar Costa Neto para substituir o ministro dos Transportes – César Borges foi para a Secretaria dos Portos, substituído por Paulo Passos. Está aí o exemplo perfeito: o governo merece, sim, ser criticado pelo que faz de errado. Mas não por qualquer boato mirabolante.
Repito: o governo do PT tem muito o que explicar, inclusive em relação à própria Copa do Mundo, realizada com isenção fiscal à Fifa e prováveis desvios de recursos e superfaturamento de obras. Isso sem falar da Petrobras, do Mensalão, da irresponsabilidade na negociação da dívida externa, que se transformou em dívida pública, o que significa uma decuplicação dos juros e um óbvio prejuízo para a maioria dos brasileiros. Tem tanto a explicar que não é necessário inventar problemas novos ou fazer eco a boatos inconsistentes. 

Segue o lúcido texto do amigo André Gonçalves, que é correspondente do jornal Gazeta do Povo em Brasília. 

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Quem comprou a Copa?
André Gonçalves - Gazeta do Povo

Aldo Rebelo dá uma coçadinha no bigode com uma mão, com a outra segura uma mala preta. “Messi, compañero, precisamos chegar a um acuerdo”, diz o ministro. “Un milhón de dólares y la Cuepa es nuestra!” Se o hexa está no bolso do Brasil, inevitavelmente precisaria desse tipo de negociação para chegar até lá. E, para comprar a Copa direito, muita gente teria de receber a sua parte – dezenas (ou centenas) de jogadores, treinadores, árbitros e dirigentes. Haja grana. Imagine qual seria a resposta do craque argentino. Não faça um cálculo moral, mas financeiro mesmo. No último dia 17, a revista Forbes divulgou a lista com os dez jogadores mais bem pagos do mundo – Messi é o segundo do ranking.

O craque do Barcelona ganha US$ 64,7 milhões por ano entre salário e participação em campanhas publicitárias. Na frente dele, aparece o português Cristiano Ronaldo, com US$ 80 milhões. O décimo é o meia alemão Özil, com reles US$ 18,8 milhões. Sim, Messi daria risada até com uma oferta dez vezes superior à inicial. E tem outra: para que se vender, mesmo que seja por US$ 100 milhões, se ele pode ganhar muito mais dinheiro, por muito mais tempo, sendo campeão mundial? Complicado esse negócio de comprar uma Copa, não?
Para quem detesta o petismo, Dilma se transformou na vilã para tudo. Havia gente jogando no colo da presidente o tamanho das filas para entrar no Mané Garrincha nos jogos em Brasília. (...) Do outro lado, Lula inflama os petistas na idealização de uma “elite branca” que impede o desenvolvimento do país. Esse povo do mal quer acabar com o Bolsa Família e recolocar o Brasil em uma era desemprego e recessão. Um grupo preconceituoso que não tolera a ascensão social.
Ainda assim, muita gente (inclusive “esclarecidos” de plantão) insiste na bizarra tese de que o governo negociou a taça para o Brasil. O objetivo, claro, seria ajudar a campanha da presidente Dilma Rousseff. O Brasil ganhou, Dilma se reelegeu. Por mais que seja complicado descrever o tamanho dessa bobagem, ela carrega uma percepção interessante sobre o atual cenário político do país. As duas décadas de polarização entre PT e PSDB nas eleições presidenciais colaboraram para um processo de idiotização do debate eleitoral, que parece ter chegado ao seu ápice. Toda informação passa por um processo de simplificação irracional.

Para quem detesta o petismo, Dilma se transformou na vilã para tudo. Havia gente jogando no colo da presidente o tamanho das filas para entrar no Mané Garrincha nos jogos em Brasília. Se falta comida nos estádios, também é culpa da presidente – inclusive para aqueles que outro dia pregavam o #nãovaitercopa. Do outro lado, Lula inflama os petistas na idealização de uma “elite branca” que impede o desenvolvimento do país. Esse povo do mal quer acabar com o Bolsa Família e recolocar o Brasil em uma era desemprego e recessão. Um grupo preconceituoso que não tolera a ascensão social.

No fundo, ambos os lados jogam com a incapacidade de reflexão das pessoas. Mais fácil falar de ódio ao oponente do que tentar entendê-lo. No futebol, isso acaba em briga de torcida, na política, em governos que precisam comprar apoios para se manter de pé.


Curioso que você deve ter ouvido mais sandices relacionadas à compra da Copa na semana passada do que à última troca na Esplanada, em que Dilma cedeu às pressões do PR de Valdemar Costa Neto para substituir o ministro dos Transportes – César Borges foi para a Secretaria dos Portos, substituído por Paulo Passos. Está aí o exemplo perfeito: o governo merece, sim, ser criticado pelo que faz de errado. Mas não por qualquer boato mirabolante.

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