quarta-feira, 4 de junho de 2014

A maior lição da Copa: no Brasil, cidadão é aquele idiota que paga impostos e recebe uma banana em troca

Karina Ernsen & Luiz Geremias

Convidamos você a um rápido exercício de imaginação. 

Imagine a festa que seria esta Copa do Mundo, se tudo tivesse sido feito de forma correta e adequada. 

Imagine como as cidades estariam agora se as verbas públicas fossem utilizadas para o fim que lhes é devido, com ou sem Copa. 

Imagine como estaríamos se as obras necessárias para o dia-a-dia do cidadão fossem realizadas.

Imagine como nos sentiríamos se o poder público demonstrasse seu respeito por nós. 

Imagine como estaríamos felizes se aqueles que elegemos para estar do nosso lado realmente estivessem do nosso lado.

Imagine o transporte público maravilhoso que teríamos se o interesse de todos estivesse acima do lucro de poucos.

Imagine se o atendimento real às necessidades de nós, população, fosse a prioridade dos governantes. 

Imagine se, pelo menos, o cidadão fosse considerado como o que, na realidade, é: o cento do mundo urbano, o fundamento para a existência da cidade. 

Agora, pare de imaginar e olhe em torno. 


Figurinha carimbada do álbum da Copa:
o Estado Terrorista e sua Tropa de Choque contra o cidadão. 
A realidade não imaginada

O cidadão tem sido, aparentemente, considerado pelo poder público como aquele idiota que deve pagar pontualmente seus impostos para receber uma banana no fim das contas. E, apenas para pagar seus impostos e ganhar sua banana, o cidadão deve trabalhar aproximadamente metade de cada ano. E, além de tudo isso, deve permanecer calado, sob o risco de ser taxado de “reacionário”, “direita” ou “coxinha” por alguns; ou de “black bloc”, “esquerdopata”, “baderneiro” ou “vândalo”, por outros, dependendo apenas do momento, companhia e local. 

Na hora de ir contra você, tanto a direita como a esquerda se unem no mesmo lado. 

A regra número um é que o cidadão deve trabalhar, pagar sem receber nada ou quase nada em troca e ainda permanecer calado, ou o Estado pode lhe calar com suas polícias, equipadas com cassetetes, escudos, gás e balas de borracha. Polícias que costumeiramente defendem os governantes, não o cidadão. 

Em suma: se não fizer o que o poder público espera dele, o cidadão se torna um estorvo para os governantes das cidades, dos estados e do país. Se resolver questionar a realidade injusta, torna-se um inimigo. 


Investimentos dirigidos

No caso da Copa do Mundo, o absurdo, o nonsense chega a um nível tamanho que em lugar da melhoria das condições de circulação interna nas cidades e entre elas, das ampliações dos aeroportos, do metrô (no caso de Curitiba), de sinalização sincronizada e viadutos para aliviar os congestionamentos, tivemos, no fim das contas, obras mal feitas, às pressas, superfaturadas e, tudo indica, de vida inútil e curta, incluindo um tal viaduto “estaiado”, em Curitiba, que parece ter sido feito mais para aparecer na foto do que para ligar um lugar a outro. 

Os maiores investimentos, tudo indica, foram feitos no bolso de alguns empresários, nas contas bancárias dos associados à Fifa e certamente nas campanhas de certos políticos brasileiros. Ah, sem esquecer dos pesados investimentos em Segurança Pública, o que significa, de fato, que os governos equiparam as polícias com o objetivo de garantir o silêncio forçado do cidadão. 

É muita burrice

Absurdo maior que deve ser lembrado: num país com dimensões continentais, o transporte de mercadorias, produtos e pessoas é feito preferencialmente por rodovias, com automóveis, ônibus e caminhões jogando dióxido de carbono na atmosfera, com o desmatamento necessário para a abertura de estradas, com um gasto desnecessário em combustíveis pedágios, obras de manutenção caríssimas etc.

Os ciclistas não têm vez, ou quase. A cidade é feita para os carros, principalmente. Carros que podem desenvolver boas velocidades e, com isso, gastar menos combustível, mas, presos em congestionamentos, acabam se locomovendo a 10 km/hora. Resumo da ópera: os carros andam quase na mesma velocidade das bicicletas e, para isso, consomem combustível, exigem gastos excepcionais e causam muito mais poluição. Olhando por um ângulo, é muita burrice. 

O real ganho da Copa para os brasileiros

Burrice? Aparentemente não, muito pelo contrário. Quem manda nesse país diz que caminhões, carros e ônibus precisam ser vendidos como água, para gerar mais gastos para todos e mais ganhos para poucos. Se há burrice aí, não é de quem promove essa realidade. Na certa, é nossa, nós que aceitamos tudo, ou quase tudo, calados. 

Se a Copa do Mundo trouxe algum ganho para nós, brasileiros, foi o de colocar mais uma vez diante de nossos olhos o quanto somos feitos de bobos, tantas e inúmeras vezes. A diferença é que estamos conseguindo falar sobre isso de forma mais clara, ampla e sincera do que nas vezes anteriores. 

O maior ganho é, porém, entender que a nossa consciência causa verdadeiro pavor aos governantes e políticos diversos, de um lado e de outro. Nestes momentos, o que eles mais querem é falar de futebol.

PS: E os estádios? Belos, é claro, pelo menos os que ficaram completamente prontos. Mas, precisávamos realmente desses estádios? Não seria melhor ter aplicado em outras áreas que são obviamente mais carentes? E, na prática, quem pagou esses estádios, que, como o Itaquerão corintiano e o da baixada atleticana do Paraná, são particulares? Não foram os clubes, com absoluta certeza. 

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