quarta-feira, 11 de junho de 2014

Governo manda apagar de vez a lâmpada incandescente

Meu amigo Jorge prepara diariamente um excelente clipping. No de ontem, constava matéria na qual há uma informação de repercussões drásticas: “lâmpadas mais usadas no Brasil vão sumir das lojas em até um ano”. 

As “lâmpadas mais usadas no Brasil” são as incandescentes, aquelas de luz meio amarelada. As mais usadas no país. 

Dentro de pouco tempo, uma lâmpada incandescente será peça de museu 

Se sua casa já não estiver empesteada de lâmpadas fluorescentes ou “led”, não se esqueça de guardar as suas lâmpadas incandescentes usadas para mostrar aos netos. Pense que são, olhando de certo ângulo, bastante interessantes estética e filosoficamente: uma grande cúpula de vidro cercando um espaço quase vazio, no qual um minúsculo arame fica em brasa quando o pequeno artefato é plugado à eletricidade. 

Não é fantástico? Uma peça que assinala um modelo civilizatório, sem qualquer dúvida. 

Um pouco de filosofia...

Perceba a perspectiva filosófica contida no design de uma mera lâmpada. A mensagem claramente é a de que a lâmpada é como uma pequena cabeça iluminada que, com sua luminosidade, ilumina ainda outras cabeças, incluindo corpos, que não possuem luz própria, mesmo se ligados à eletricidade. Só a lâmpada consegue isso. Se você tentar, vai, ao contrário da lâmpada, apagar. 

Pense que se você vivesse na virada do século XVIII para o XIX, poderia se transformar facilmente num dos primeiros pacientes da nascente ciência da Psiquiatria: bastaria contar a alguém que haveria, antes do final do século, um objeto como a lâmpada, aparentemente tão simples e tão pequeno, que iluminaria, muitas vezes com a potência de um pequeno sol, salas, quintais, ruas etc. 


Futuro de trevas

Mas, o tempo é implacável e as lâmpadas agora deixam de impor sua luz aos ambientes diversos, apagam-se definitivamente para se transformar em objetos mortos, como toda e qualquer peça de museu. Mortos, é claro, mas possuidores de sentidos que lhes dão uma vida fantasmagórica aos olhos humanos e apenas a eles. Isso significa que a luz da lâmpada incandescente passa a ser, a partir de sua extinção, aquela que a eletricidade da imaginação humana conseguirá lhe atribuir. Não mais a luz própria, ou a ilusão de conter uma luz própria. 

Agonia será breve

E esse sumiço será rápido. Em um mês, não será mais permitido que se fabriquem ou importem lâmpadas incandescentes de qualquer tipo. No varejo, elas vão sumir definitivamente em um ano, mas há quem garanta que, em seis meses, não haverá mais nenhuma à venda. Em julho de 2016, estará total e completamente extinta, salvo em um ou outro recanto. 

E perceba que, só no ano passado, algo em torno de 250 milhões de lâmpadas incandescentes foram comercializadas. É um trauma drástico para boa parte da população brasileira. Há quem já diga, por exemplo, que o governo tramou tudo muito bem tramado e que a Copa no Brasil e as eleições foram estrategicamente pensadas para desviar a atenção dos brasileiros. 


Alguns saudosistas já idealizam novas funções para as lâmpadas
Na calada da noite, o fim

Note, também, que já está em vigor uma proibição relacionada às lâmpadas incandescentes, embora você talvez nem tenha notado. As lâmpadas desse tipo com modelo acima de 61 watts já estão extintas por decisão governamental. Enquanto você se distraía com as peripécias do Joaquim Barbosa dando uma de paladino contra os dragões petistas ou com escândalos como o da refinaria de Pasadena ou do metrô paulistano, os predadores agiam na calada da noite. 

Governos são grupos de humanos aos quais se atribuem poderes decisórios sobre outros grupos e outros humanos e, é claro, também sobre as coisas. No caso, o governo do Brasil, este país de quinhentos e poucos anos, decidiu que as lâmpadas incandescentes devem morrer. Não existe Pena Capital neste lugar, a não ser para lâmpadas incandescentes. 

Logo a lâmpada, o objeto que, se tomado em conta o verso de Jorge Mautner, “belezas são coisas acesas por dentro”, é um ícone da beleza. Logo esse objeto singelo e tão rico em significados está fadado ao desaparecimento. 

Não há de ser nada. Enxugue essa lágrima e siga em frente, agora sob a iluminação fluorescente e da tal lâmpada led, seja lá o que seja isso. Sim, eu sei, tanto uma como outra são frias.

É... pelo menos as lâmpadas incandescentes eram quentinhas... 

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