segunda-feira, 30 de junho de 2014

No Brasil, em vésperas de eleição, todos latem e ninguém tem razão

Só há uma coisa tão idiota quanto os argumentos levantados pelos "contra" a Copa do Mundo: a obsessão dos "a favor" em provar que a Copa é um sucesso inigualável, que é a "Copa das copas" etc. 

Vira-latas de um lado, vira-latas de outro.

Um país no qual as opções políticas se resumem a duas vertentes mostra algo nível de despolitização. 

Para os "contras", é preciso explicar que a Copa nunca correu o risco de ser um fiasco. Simplesmente, a Dona Fifa não correria esse risco e o governo brasileiro usa coleira com o nome do dono (ou dona, conforme o caso). 

Digo que não seria jamais um fiasco internacional. O fiasco é interno. Para mim, é vergonhoso dar isenção fiscal à Fifa e a seus parceiros. É um desrespeito aos brasileiros e a prova do fiasco que o governo brasileiro vem mostrando ser há tempo. 

Nós, brasileiros, parecemos não ter clara noção do que é o imposto, do que significa o imposto. Tanto é assim que muitos dos que sabem da importância da arrecadação fiscal calam a boca diante da isenção à Fifa. E é aí que se percebe o complexo de vira-latas em toda sua plenitude: o vira-latas está tão acostumado a ser tratado como vira-latas que aceita de bom grado todo o mal que lhe fazem e até mesmo o classifica como um bem. Se o vira-latas todos os dias leva um chute e uma chicotada, se sente um rei nos dias em que não há o chute ou a chicotada, isto é, quando só leva um ou outro. 

O brasileiro está tão acostumado com a inutilidade dos altos impostos que paga que já nem é capaz de reagir quando esses impostos são sonegados por quem mais pode pagar. A lógica é: "não adianta nada mesmo..." 

O atual vira-latas é o produto químico resultante da ação que vem transformando o cidadão brasileiro em consumidor, ou, mais precisamente, vem formando consumidores e os chamando de cidadãos, como se uma coisa tivesse algo a ver com a outra. 

Evoco o imortal Milton Santos, grande pensador da cidadania brasileira, a ressuscitar para esclarecer esse povo canino. Cidadania não é consumo e cidadão nada tem a ver com consumidor, dizia ele. E tinha total razão. 

PS: comparar esses idiotas de ambos os lados a um cão é insultar o cão, com certeza; logo, a foto é meramente ilustrativa.

André Gonçalves pergunta: "Quem comprou a Copa?"

Conheci o André em Brasília, em 2009, mais precisamente no Palácio do Planalto, durante cobertura jornalística de reunião de quatro governadores com Dilma Rousseff, então Chefe da Casa Civil da Presidência da República: Serra, Aécio Neves, Requião e Sergio Cabral Filho. Foi o início de, para mim, uma boa relação de amizade que durou até aproximadamente um mês depois de eu ter deixado a Capital Federal, quando falei com ele pela última vez. 

Embora não mais o tenha visto ou com ele falado desde então, ainda tenho grande carinho pelo André, bem como reconhecimento por sua qualidade profissional e sua lucidez. 

Agora, ele publica artigo que traz uma discussão fundamental neste momento: o governo petista já cometeu dezenas, centenas, milhares de asneiras e deve ser avaliado por conta disso, sem necessidade de que se criem ou inventem situações fictícias como, por exemplo, a "compra" do resultado da Copa do Mundo que ora se realiza no país. 
Curioso que você deve ter ouvido mais sandices relacionadas à compra da Copa na semana passada do que à última troca na Esplanada, em que Dilma cedeu às pressões do PR de Valdemar Costa Neto para substituir o ministro dos Transportes – César Borges foi para a Secretaria dos Portos, substituído por Paulo Passos. Está aí o exemplo perfeito: o governo merece, sim, ser criticado pelo que faz de errado. Mas não por qualquer boato mirabolante.
Repito: o governo do PT tem muito o que explicar, inclusive em relação à própria Copa do Mundo, realizada com isenção fiscal à Fifa e prováveis desvios de recursos e superfaturamento de obras. Isso sem falar da Petrobras, do Mensalão, da irresponsabilidade na negociação da dívida externa, que se transformou em dívida pública, o que significa uma decuplicação dos juros e um óbvio prejuízo para a maioria dos brasileiros. Tem tanto a explicar que não é necessário inventar problemas novos ou fazer eco a boatos inconsistentes. 

Segue o lúcido texto do amigo André Gonçalves, que é correspondente do jornal Gazeta do Povo em Brasília. 

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Quem comprou a Copa?
André Gonçalves - Gazeta do Povo

Aldo Rebelo dá uma coçadinha no bigode com uma mão, com a outra segura uma mala preta. “Messi, compañero, precisamos chegar a um acuerdo”, diz o ministro. “Un milhón de dólares y la Cuepa es nuestra!” Se o hexa está no bolso do Brasil, inevitavelmente precisaria desse tipo de negociação para chegar até lá. E, para comprar a Copa direito, muita gente teria de receber a sua parte – dezenas (ou centenas) de jogadores, treinadores, árbitros e dirigentes. Haja grana. Imagine qual seria a resposta do craque argentino. Não faça um cálculo moral, mas financeiro mesmo. No último dia 17, a revista Forbes divulgou a lista com os dez jogadores mais bem pagos do mundo – Messi é o segundo do ranking.

O craque do Barcelona ganha US$ 64,7 milhões por ano entre salário e participação em campanhas publicitárias. Na frente dele, aparece o português Cristiano Ronaldo, com US$ 80 milhões. O décimo é o meia alemão Özil, com reles US$ 18,8 milhões. Sim, Messi daria risada até com uma oferta dez vezes superior à inicial. E tem outra: para que se vender, mesmo que seja por US$ 100 milhões, se ele pode ganhar muito mais dinheiro, por muito mais tempo, sendo campeão mundial? Complicado esse negócio de comprar uma Copa, não?
Para quem detesta o petismo, Dilma se transformou na vilã para tudo. Havia gente jogando no colo da presidente o tamanho das filas para entrar no Mané Garrincha nos jogos em Brasília. (...) Do outro lado, Lula inflama os petistas na idealização de uma “elite branca” que impede o desenvolvimento do país. Esse povo do mal quer acabar com o Bolsa Família e recolocar o Brasil em uma era desemprego e recessão. Um grupo preconceituoso que não tolera a ascensão social.
Ainda assim, muita gente (inclusive “esclarecidos” de plantão) insiste na bizarra tese de que o governo negociou a taça para o Brasil. O objetivo, claro, seria ajudar a campanha da presidente Dilma Rousseff. O Brasil ganhou, Dilma se reelegeu. Por mais que seja complicado descrever o tamanho dessa bobagem, ela carrega uma percepção interessante sobre o atual cenário político do país. As duas décadas de polarização entre PT e PSDB nas eleições presidenciais colaboraram para um processo de idiotização do debate eleitoral, que parece ter chegado ao seu ápice. Toda informação passa por um processo de simplificação irracional.

Para quem detesta o petismo, Dilma se transformou na vilã para tudo. Havia gente jogando no colo da presidente o tamanho das filas para entrar no Mané Garrincha nos jogos em Brasília. Se falta comida nos estádios, também é culpa da presidente – inclusive para aqueles que outro dia pregavam o #nãovaitercopa. Do outro lado, Lula inflama os petistas na idealização de uma “elite branca” que impede o desenvolvimento do país. Esse povo do mal quer acabar com o Bolsa Família e recolocar o Brasil em uma era desemprego e recessão. Um grupo preconceituoso que não tolera a ascensão social.

No fundo, ambos os lados jogam com a incapacidade de reflexão das pessoas. Mais fácil falar de ódio ao oponente do que tentar entendê-lo. No futebol, isso acaba em briga de torcida, na política, em governos que precisam comprar apoios para se manter de pé.


Curioso que você deve ter ouvido mais sandices relacionadas à compra da Copa na semana passada do que à última troca na Esplanada, em que Dilma cedeu às pressões do PR de Valdemar Costa Neto para substituir o ministro dos Transportes – César Borges foi para a Secretaria dos Portos, substituído por Paulo Passos. Está aí o exemplo perfeito: o governo merece, sim, ser criticado pelo que faz de errado. Mas não por qualquer boato mirabolante.

Tanto a “antiga classe média” como a “nova classe média” devem muito aos governos dos últimos 20 anos

O governo tem sido tratado com muita má vontade por uma parcela de nossa população, não há dúvida. Os governistas muito se esforçam para melhorar a vida de todo mundo, mas poucos reconhecem seus esforços. Veja que há os auxílios assistencialistas, genericamente chamados de “bolsas”, uma espécie de subsídio oferecido a pessoas que supostamente se encontram em flagrante dificuldade de sobrevivência. Há também a criação de empregos, que rende aos governistas o argumento de que jamais houve desemprego tão baixo na história brasileira. 

O importante é consumir e consumir bastante. Mesmo que não se tenha como, mesmo que o custo de algo seja dezenas ou centenas de vezes mais alto do que a real capacidade de pagamento, é preciso comprar sem medo. Não é preciso medo porque, como o pessoal da antiga classe média elevou o padrão (ainda que mais virtualmente do que de forma real), paga "um pouco mais" de impostos por isso. Assim, o que os bolsistas do governo, o pessoal da “nova classe média”, aquelas pessoas que faturam algo em torno de R$ 300 e R$ 1000, não puder pagar, a “antiga classe média” pagará. Simples assim.
Bem, está certo que “bolsas” e empregos possuem uma relação mais íntima do que aquela que os mortais imaginam haver: tudo indica que nos levantamentos da taxa de emprego e desemprego o pessoal que recebe os subsídios é incluído automaticamente no rol dos “formalmente empregados”. O tal subsídio é de algo em torno de R$ 70 ou R$ 80. Não dá para considerar isso um salário e não dá para dizer que o recebimento do auxílio assistencial signifique inserção no mundo do trabalho. Parece maquiagem de dados e informações: a bandeira maior do governo é a queda do desemprego e, parece, para ajudar a melhorar as aparências, não custa nada reduzir o número de pessoas sem empregos. Quando não se pode fazer isso de forma real, um pouco de criatividade pode ser usada. 


Maquia, baby!

Se a presidenta usa tanta maquiagem para dar uma forcinha no visual, os técnicos do governo também podem usar o mesmo recurso para elevar o moral dos números oficiais. Sabe como é, as eleições estão perto demais para escrúpulos excessivos... 

São, afinal, algo em torno de 30 milhões de pessoas, segundo se conta, a receber o auxílio do “Bolsa Família”, o nome do tal subsídio. Logo, se formos levar em conta que o governo maquia as contas do desemprego com esses milhões de pessoas, bem se poderia acrescentar 30 milhões de desempregados ao Brasil. 

Não se deve fazer isso, porém. Esses trinta milhões de brasileiros estão tendo a chance de viver um pouco melhor com essa ajuda do governo e, nada mais justo que ajudem cedendo seus CPFs para que a presidenta que tenta se reeleger os use da melhor forma. Não fazer isso seria ingratidão, claro. 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

"A Copa é deles", por Armando Sartori

Quando a Fifa for embora, depois de ter embolsado bilhões de dólares com o torneio, ficarão por aqui 12 modernas arenas. E um futebol que parece se aproximar cada vez mais da falência

27/06/2014 - Por Armando Sartori, da Retrato do Brasil 

Em 1950, quando sediou a quarta edição da Copa do Mundo de futebol, o Brasil era muito diferente do atual. De seus 52 milhões de habitantes, praticamente dois em cada três moravam na área rural, e nosso PIB per capita era de 1,6 mil dólares, cerca de 17% do americano, de 9,6 mil dólares. O grande feito brasileiro para a realização da Copa foi a construção, no Rio de Janeiro, a então capital federal, do Maracanã, estádio que seria apresentado pela mídia da época como um “colosso”, “o maior do mundo” e que, na partida final do torneio, entre as seleções brasileira e uruguaia, acolheu quase 200 mil pessoas.

O mundo também era bem diferente. Vivia-se a Guerra Fria, que estabeleceu dois grandes blocos geopolíticos: o Ocidental, capitaneado pelos EUA e integrado pelos países europeus ocidentais, e o “comunista”, liderado pela União Soviética (URSS), ao qual aderiram países da Europa Oriental, a China – onde, no ano anterior, o Partido Comunista chegara ao poder – a Coreia do Norte e o Vietnã do Norte.
Durante a cerimônia em que afirmou que “o legado da Copa é nosso”, a presidente Dilma também declarou que esta será a “Copa das Copas”. É claro, ela estava defendendo seu governo, o qual espera que o evento gere 3,6 milhões de empregos e movimente 65 bilhões de reais este ano, “um legado importante na área econômica”, como diz Joel Benin, assessor do Ministério do Esporte. A avaliação é contestada, inclusive por Wolfgang Maenning, da Universidade de Hamburgo, que estuda há anos os efeitos econômicos da realização de eventos esportivos de grande porte. “Estimativas infladas de geração de emprego e renda são comuns em eventos desse tipo porque os governos precisam justificar seus gastos com estádios e instalações esportivas.”
Com a Europa e boa parte da Ásia destruídas pela Segunda Guerra Mundial, participaram daquela Copa apenas 13 das 16 equipes previstas. O Brasil, como se sabe, no jogo que definiu a equipe campeã mundial, foi derrotado pela seleção do Uruguai por 2 a 1, no traumático episódio que ficaria conhecido como “maracanaço”.

Quatro décadas mais tarde, o colapso da URSS levou ao fim da Guerra Fria e a uma nova configuração mundial, na qual a hegemonia americana que se seguiu vem sendo paulatinamente contestada. A China é hoje o grande destaque dessa nova realidade: tornou-se a segunda economia mundial, superada apenas pela americana. Mas o Brasil (com uma população estimada que supera os 200 milhões de habitantes, dos quais perto de 90% vivem em cidades) também se sobressai: sua economia é a sexta maior do mundo e desde o “maracanaço” o PIB per capita brasileiro foi multiplicado por sete, chegando a 11,3 mil dólares. Ainda permanece distante do dos EUA, que é de quase 50 mil dólares, mas hoje o PIB per capita brasileiro equivale a 22,5% do americano.

Se o mundo e o Brasil não são mais os mesmos, o futebol também mudou. O Maracanã – local da partida que definirá o campeão da 20ª edição da Copa, que se inicia neste mês –, como erguido em 1950, não existe mais. Ou melhor: dele existe apenas a “casca” – a fachada tombada pelo Patrimônio Histórico. Para a disputa desta Copa, a cobertura de concreto foi demolida e cedeu lugar a outra, maior, composta de uma membrana translúcida, sustentada por uma estrutura de cabos tensionados. Quando construído, o estádio tinha dois grande níveis para acomodar o público sentado – em arquibancadas e cadeiras numeradas – e um espaço, próximo ao gramado, onde cabiam dezenas de milhares de torcedores que assistiam às partidas em pé – eram os “geraldinos”, ou frequentadores da geral, o local de ingresso mais barato do estádio. Os “geraldinos” perderam seu lugar há quase uma década: seu espaço foi tomado pela ampliação do setor destinado às cadeiras numeradas, e os outros dois níveis que abrigavam os torcedores foram agora transformados em um só.
Nenhum desses patrocinadores, assim como a Fifa e suas subsidiárias, pagará tributos e contribuições federais, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e o Imposto de Importação (II). 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Fracassou o modelo neoliberal-assistencialista no Brasil?" - a resposta a essa pergunta é de Alejandro Nadal

Modelo neoliberal, bem ilustrado na charge, é
hegemônico, inclusive durante o governo petista
Quando Lula chegou ao poder, o PT assumiu as restrições que impõe o neoliberalismo a um projeto de desenvolvimento econômico e social. Agora, que explodem as contradições, tem de aguentar as consequências do descrédito da crise. 

Alejandro Nadal - 16 de Julho, 2013 

As manifestações no Brasil deram origem a um debate de grande atualidade. As posições polarizaram-se e a direita continental utiliza as manifestações para anunciar o fracasso do modelo populista brasileiro. A derrocada nos níveis de popularidade de Dilma Rousseff avivou as esperanças da direita a recuperar a Presidência em 2014. O primeiro impulso da esquerda consiste em assinalar os bons resultados econômicos do programa do Partido dos Trabalhadores desde a vitória de Lula em 2002.

A manobra política da direita passa por capitalizar a ideia do falhanço do modelo económico do PT. Os termos do debate são os que convêm à direita. A sua ofensiva baseia-se na falsificação: apresenta como populista ou de esquerda utópica uma estratégia de política econômica que no fundo conservou os elementos medulares do neoliberalismo e somente acrescentou uma política social reforçada. A falsificação nestes termos tem uma enorme desvantagem para o PT e os seus amigos. O PT teve de suportar longos anos de gestão do modelo neoliberal e agora, que explodem as contradições, tem de aguentar as consequências do descrédito da crise.
Em síntese, o PT assumiu as restrições que impõe o neoliberalismo a um projeto de desenvolvimento econômico e social.
Quando Lula chegou ao poder político, a estratégia do PT aceitou a arquitetura do neoliberalismo: abertura financeira e uma férrea disciplina fiscal para gerar um enorme superávit primário (para pagar as pesadas cargas financeiras). Eram os anos seguintes à crise do neoliberalismo promovido por Fernando Henrique Cardoso e os seus aliados no FMI e nos Estados Unidos. Lula aceitou a pretendida autonomia do Banco Central e designou como seu governador Henrique Meirelles, até então presidente do International Bank of Boston, um dos principais credores do Brasil. O PT também não quis fazer marcha atrás no grande tema das privatizações e opôs-se às ocupações de terras lançadas pelo Movimento dos Sem Terra. Em síntese, o PT assumiu as restrições que impõe o neoliberalismo a um projeto de desenvolvimento econômico e social.

Houve uma importante exceção no esquema do PT: a política de salários e os programas. Sob os governos do PT, os salários começaram a crescer e a recuperar alguma coisa do que tinham perdido nas décadas anteriores. Muito se fala das políticas de tipo assistencialista, como o programa Bolsa Família, mas o maior impacto no combate à pobreza veio sem dúvida do aumento dos salários.

O coeficiente de Gini, o indicador de desigualdade mais utilizado, passou de .599 a .539 entre 1995 e 2009. Para um período de 14 anos não é o mais espetacular, mas não deixa de ser um ganho importante. O componente de política econômica que mais impacto causou nesta evolução da desigualdade foi o aumento dos salários nos últimos dez anos. Mas como se pode observar no meu artigo anterior, a política fiscal é muito pouco progressiva e contribui para explicar a lenta evolução da luta contra a desigualdade. O aumento dos salários não foi suficientemente forte e hoje está em risco de voltar atrás.
A grande pergunta é se os resultados do esquema brasileiro são sustentáveis e permitiriam continuar a melhorar. A resposta é muito provavelmente em sentido negativo.
A grande pergunta é se os resultados do esquema brasileiro são sustentáveis e permitiriam continuar a melhorar. A resposta é muito provavelmente em sentido negativo.

O crescimento da economia brasileira nos últimos seis anos foi impulsionado pelo boom mundial dos produtos básicos (commodities). A procura proveniente da China e da Índia, bem como o impacto da especulação financeira nos mercados de futuros de alguns destes produtos, foram o motor deste processo. Isto permitiu ao Brasil manter uma posição folgada no sector exportador.

No entanto, é bem sabido que apoiar-se num setor primário exportador não equivale a criar o motor de crescimento necessário para um bom processo de desenvolvimento. Pelo contrário, o setor exportador impulsionado por um modelo de agronegócios que fomenta a concentração de terras e o endividamento das famílias camponesas implica também um extraordinário custo ambiental. O melhor exemplo é o da soja transgênica que provocou o desastre no cerrado brasileiro, com a expulsão da pequena agricultura numa zona gigantesca e a deslocação da criação de gado para a zona de Amazônia legal.

O PT e a esquerda latino-americana devem abrir os olhos diante das evidências. O modelo neoliberal não pode conduzir ao desenvolvimento econômico e social. Simplesmente não está desenhado para esse objetivo.

As economias capitalistas são intrinsecamente instáveis. Mas, além disso, o modelo neoliberal de abertura financeira e comercial distorce profundamente o papel das variáveis chave de qualquer economia capitalista, começando pela taxa de juros e o tipo de câmbio. Estas distorções constituem um grande obstáculo para o investimento produtivo e para o crescimento. Não é possível mitigar o dano destas distorções numa sociedade com uma política social que não toque nos pilares do neoliberalismo. O que está a fracassar no Brasil é, uma vez mais, o neoliberalismo.

Publicado em La Jornada. Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Governo Federal obriga servidor a ir para casa torcer pelo Brasil, mas cobra horas não trabalhadas (mesmo de quem queria trabalhar no dia do jogo)

- Você deve ir para casa torcer pela nossa seleção!, diz o governo.
Está de folga, mas terá que pagar o horário que eu lhe obriguei
a tirar de folga hoje. Se não pagar, será descontada!
Governo Federal fecha repartições em dias de jogos do Brasil, mas determina que servidores compensem o horário não trabalhado. Mas, o horário não trabalhado não foi trabalhado por determinação do próprio governo, que se entenda bem isso. 

Repetindo, didaticamente: o patrão manda você para casa. Não é você que quer ir, você não pediu, você não reivindicou isso. Por você, o trabalho do dia seria realizado, o horário cumprido, sem problemas. Mas, você não pode fazer isso, pois é dia de jogo da Seleção. Mas, o horário que você terá de folga por determinação do patrão lhe será cobrado.

Sim, parece surrealismo ou delírio, mas é real. 

O servidor é obrigado a sair do seu local de trabalho, tem que ir torcer pelo Brasil de qualquer jeito, com determinação do Ministério do Planejamento. Não pode trabalhar, mas tem que compensar o horário que não pôde usar para trabalhar no dia do jogo do Brasil... 

O desejo de torcer, pelo visto, não é tanto dos servidores, mas imposto pelo Governo Federal. O problema é que, além de praticamente obrigar o servidor a empunhar a bandeira da seleção de futebol, o governo ainda quer que ele pague por isso. 

Para mim, isso corresponde a uma conduta abusiva do Poder Público, daquelas que bem podem ser classificadas como "Assédio Moral". E uma atitude nada ética e um governo que tem mostrado claramente que despreza os servidores públicos e, acima de tudo, a cidadania.
Governo quer que servidor vista a camisa e ainda pague por ela. 

O mais interessante é que uma portaria do mesmo Ministério do Planejamento, publicada em 4 de abril de 2014, "não prevê a compensação de horário pelos servidores públicos federais", conforme consta textualmente em mensagem do gabinete da ministra encaminhado às repartições no dia 7 de abril. 

Mais interessante ainda: a comunicação da necessidade de compensação do horário foi encaminhada aos servidores na manhã do dia 12 de junho, poucas horas antes do início do jogo da seleção brasileira na Copa. A realização da Copa no Brasil foi decidida há sete anos e só momentos antes do jogo de abertura os servidores são comunicados acerca da esdrúxula decisão... 

A impressão predominante no serviço público é que o governo perdeu o rumo. Isso não significa dizer que está sem saber aonde ir. Parece, mais precisamente, que o governo escolheu um mau rumo, que o pode levar à perdição... 

Black Bloc, por Esther Solano

Entrevista

Esther Solano acompanha as manifestações desde o ano passado. E não é de sua casa ou da universidade. Ela vai a atos e conversa com adeptos da tática Black Bloc. Esther é doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Leia nossa entrevista com ela:

Coletivo AJA – Você tem acompanhado a Polícia Militar a algum tempo. A proximidade da Copa está deixando a corporação e os indivíduos mais tensos?

Esther Solano - A proximidade da Copa, sem dúvida é um momento de stress para todos os agentes de segurança pública. A Polícia Militar está nas ruas faz um ano lidando com protestos heterogêneos, novos para ela, com diferentes atores, sem lideranças fixas, com um clima muito tenso nas ruas, então, pode-se imaginar o nível de stress acumulado. Por outro lado, o fator incerteza, não saber como serão os protestos, quantas pessoas terão, se haverá ou não presença de Black Bloc, gera uma tensão a mais, e finalmente, a onipresença da imprensa é outro elemento que aumenta também o nível de ansiedade. Saber que tudo é filmado, que os holofotes estarão fixados nas manifestações, que amanhã um protesto pode ser manchete ou capa não só dos médios nacionais, mas também estrangeiros, são questões que não ajudam muito a manter a calma…
Acho importante não esquecer que quando a polícia atua o faz comandada pelo poder político e legitimada pela própria sociedade, por isso sempre penso que a insatisfação que temos com nossas polícias deveria se refletir também em fazer uma autocrítica e pensar que somos nós os que legitimamos suas ações
AJA - A polícia teve treinamento e foram criadas divisões especiais para as manifestações.  Entre eles isso é bem visto? Eles entendem que há maneiras mais cidadãs de tratar a população?

Esther - Pelo que eu pude compartilhar e dialogar com os policiais, existem, claro, como em toda grande corporação (e a PMESP tem mais de 80.000 efetivos) diversos pontos de vista. Na verdade nada mais é do que um reflexo do que acontece na sociedade. Pessoas com perfil mais dialogante, que apostam com uma ação mediadora, pessoas com um perfil mais duro que apostam por uma ação mais repressiva. Acho importante não esquecer que quando a polícia atua o faz comandada pelo poder político e legitimada pela própria sociedade, por isso sempre penso que a insatisfação que temos com nossas polícias deveria se refletir também em fazer uma autocrítica e pensar que somos nós os que legitimamos suas ações e os que votamos nas figuras do governo de Estado, portanto, somos todos corresponsáveis.

AJA - As pessoas que utilizam a tática Black Bloc se enxergam como “foras da lei”?

Esther - Acho que eles se enxergam como enfrentando um sistema que não é legítimo. Pelo que conversei com eles, me parece que muitos enxergam sua violência como uma expressão política, como forma de reação diante de um sistema político e policial que é desprezado. Sim poderíamos dizer que “foras da lei”, dado que esta lei é percebida e pensada como um mecanismo de reprodução de privilégios e estruturas autoritárias e sufocantes para a sociedade.

AJA - Há semelhanças entre eles ou o ponto em comum é a raiva do que está ai?

Esther - Muitas semelhanças! Algumas das falas dos Black Bloc são extremamente parecidas com as de vários dos manifestantes de Junho. O descontentamento e a indignação contra o sistema político, a decepção, a raiva, o sentimento de que chegamos ao limite do tolerável. Segundo os depoimentos, são os elementos comuns que juntam as pessoas nas ruas.

AJA - Você já havia ouvido alguma vez sobre qualquer ligação de adeptos da tática e o PCC ?

Esther - Nunca e acho que devemos ser muito cuidadosos e responsáveis com a informação. Seriedade, fatos e não especulações ou extrapolações excessivas deveriam sempre guiar nossas pesquisas ou nossas pautas jornalísticas.
Claro, para um país acostumado a uma história de escravidão, de guetos, de classes sociais absolutamente distantes, tanto “dinamismo nas ruas” pode assustar a muitos que estavam acostumados a manter seus privilégios em base à carência total de direitos de muitos. Sinto muito, a sociedade está em movimento…
AJA - O que essa juventude quer? Existem pautas que se sobressaem?

Esther - Todos convergem em que querem mudança, mudança radical, estrutural. Mais dignidade na política, mais dignidade no trato ao cidadão, mais responsabilidade por parte do poder público.  Agora, o sentimento de decepção e de a crise de representatividade são tamanhas que eu me pergunto qual é o caminho que vamos tomar. Temos uma grande massa da juventude que não acredita mais nos velhos modelos políticos, mas que tampouco sabe muito vem que construir ou como pensar modelos novos. Momento de transição, no qual sabemos muito bem o que rejeitamos mas não temos tanta certeza sobre o que queremos colocar no lugar

AJA - Convivendo com eles (black blocs) você considera que o poder público está respondendo da maneira mais adequada?

Esther - Sou bastante crítica com o poder público. Acho que houve uma negligência total. O poder público escondeu-se atrás da polícia, que é a única que não pode sair das ruas e foi omisso na questão da violência nas manifestações. Eu queria ter visto representantes do poder público nas manifestações, como mediadores, como negociadores, tentando diminuir a violência, exercendo o papel que lhes corresponde, respondendo ao desafio social, tratando as manifestações como questões políticas, não policiais. Infelizmente, tivemos pouquíssimas participações desse tipo. O poder público não soube ou não quis assumir seu papel.

AJA - Como você avalia o momento que estamos vivendo no Brasil?

Esther - E um momento muito importante. O País precisa de mudanças urgentes. Isso é inegável, mas as pessoas têm que reivindicar e lutar por estas mudanças. Brasil é um país com profundos problemas sociais, com uma herança histórica muito complicada. Manifestações, greves, formam parte da saúde da democracia, são suas bases, seus cimentos. Um país que não se move, que não é dinâmico, é um cadáver. Claro que temos que conseguir, entre todos, que o clima de tensão e violência, nas ruas diminua, mas o país deve avançar, deve ocupar o espaço público, lutar por diminuir esta trágica desigualdade que o corrói totalmente. Claro, para um país acostumado a uma história de escravidão, de guetos, de classes sociais absolutamente distantes, tanto “dinamismo nas ruas” pode assustar a muitos que estavam acostumados a manter seus privilégios em base à carência total de direitos de muitos. Sinto muito, a sociedade está em movimento…


quinta-feira, 12 de junho de 2014

'Bolsa juros' não deixa o país crescer, dizem economistas

Folha de S. Paulo - 03/05/2014
Eleonora de Lucena

Autores traçam paralelo entre conservadorismo colonial e atualidade

No clássico "Casa Grande & Senzala" (1933), Gilberto Freyre desenhou a hiperdesigual sociedade brasileira, baseada na grande propriedade açucareira e na escravidão. Nesses alicerces, enxergou conservadorismo: "Menos vontade de reformar ou corrigir determinados vícios de organização política ou econômica que o puro gosto de sofrer".

Os economistas Alcino Ferreira Camara Neto e Matías Vernengo resgatam esses conceitos em "Conta de Juros Grande & Favela". No livro, traçam paralelos entre a situação colonial e a atual, afirmando que "a chibata de antanho é a taxa de juros Selic".

"O masoquismo de nossas políticas monetária e cambial só pode ser entendido à luz da formação de uma classe rentista com padrões de consumo internacionalizados, os modernos senhores de engenho, que vivem das nababescas remunerações de suas contas bancárias, possibilitadas pelo Banco Central, a Casa Grande da globalização financeira", escrevem.

Contundente e provocativa, a obra faz um duro ataque à política econômica que vigora no país nas últimas décadas. Para os autores, é esse modelo que beneficia a elite financeira que impede a retomada do desenvolvimento, com "consequências sociais nefastas".
Nesse quadro, o que chamam de "bolsa juros" --o "maior programa social do governo"-- causa uma enorme transferência de recursos para uma minoria da população, bancos e corporações que detêm títulos da dívida pública. Políticas sociais, como o Bolsa Família, tornam-se secundárias em relação à acumulação financeira.
Keynesianistas, postulam câmbio relativamente desvalorizado, controles de capital, reduzida taxa de juros e mais gastos sociais e em infraestrutura. Colocando a política atual pelo avesso, declaram: "Não precisamos cortar os gastos sociais, mas eliminar os gastos com juros e o superavit primário: precisamos de deficit primário".


"A política fiscal responsável é aquela que promove crescimento e pleno emprego com redução de desigualdade. Superavit fiscais permanentes são profundamente irresponsáveis", disparam.

ESTAGNAÇÃO 

Na visão dos autores, o sistema implantado no Brasil após a crise da dívida externa tornou o crescimento "inorgânico, desnecessário e subsidiário para o funcionamento da economia". A favela, símbolo da miséria, não é resultado indesejado da incapacidade de crescer, mas decorrência necessária da financeirização da economia.

"O Brasil não cresce porque não quer, e não quer porque a estagnação cria um ambiente em que alguns poucos, mas poderosos, ganham fortunas nababescas." Para os autores, o equilíbrio dialético entre a conta de juros e a favela --assim como no tempo da casa grande e da senzala-- é "orgânico e constitutivo da nossa economia nos últimos 30 anos".
Não houve uma "revolta conservadora": "Os agentes políticos do ressurgimento de nossa elite predadora foram os partidos de esquerda, que lutaram contra a ditadura", dizem os economistas, para quem o que houve foi uma "vingança dos rentistas.
Vernengo, doutor pela New School for Social Research em Nova York, e Camara Neto, doutor pela Universidade Federal Fluminense, observam apenas diferenças marginais entre as políticas sociais de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma, já que as taxas de juros reais têm permanecido altas desde o Plano Real.

Nesse quadro, o que chamam de "bolsa juros" --o "maior programa social do governo"-- causa uma enorme transferência de recursos para uma minoria da população, bancos e corporações que detêm títulos da dívida pública. Políticas sociais, como o Bolsa Família, tornam-se secundárias em relação à acumulação financeira.

Os autores relativizam as melhorias em indicadores sociais, lembrando que avanços ocorrem desde os anos 1940, em razão da industrialização e urbanização. Consideram que os índices poderiam ser muito mais positivos hoje "se a maior parcela do gasto do governo fosse desviada do pagamento de juros para programas sociais".

Conjugando análise política e econômica, encaixam a situação brasileira dentro do processo mundial de crescimento exponencial da força das finanças, identificando a transferência de poder da indústria para os bancos.

Se nos EUA e na Europa Chistopher Lasch identificou a "revolta das elites" --quando elas se recusaram a pagar a conta do Estado de bem-estar e obtiveram reduções pesadas de impostos deslanchadas nas gestões Reagan e Thatcher--, aqui o arranjo foi diferente.

Não houve uma "revolta conservadora": "Os agentes políticos do ressurgimento de nossa elite predadora foram os partidos de esquerda, que lutaram contra a ditadura", dizem os economistas, para quem o que houve foi uma "vingança dos rentistas.

Ainda que recheado de números, o livro carece de uma revisão atenta e de uma edição cuidadosa. Alguns gráficos são de difícil compreensão; dados precisariam de atualização e visões de mais aprofundamento. Também foi difícil encontrar o livro em livrarias e mesmo encomendá-lo na editora.

Apesar das falhas, a leitura vale. Sua audácia deixará muitos ortodoxos --do governo e da oposição-- de cabelo em pé.

https://www1.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/MostraMateria.asp?page=&cod=962345

Emoção da abertura da Copa foi tanta que contagiou juiz e bandeirinhas

Juiz foi o destaque da seleção brasileira
Dizem que o show de abertura foi lindo. Eu não vi. Há quem diga que foi decepcionante, sei lá. Me contaram que os jogadores brasileiros entraram cheios de emoção e a execução do hino foi algo inesquecível. 

Pois é, a festa deve ter sido linda. Deduzo isso porque, sem dúvida, tanto o juiz como os bandeiras entram no clima do “pra frente Brasil” e foi o que se viu. 

O jogo começou com a Croácia bem armada e saindo em contra ataques pelas pontas. Num deles, o gol, numa infelicidade do lateral Marcelo. Depois do gol, algo semelhante por algum tempo, mas depois o time visitante se encolheu, manteve uma marcação cerrada e só foi surpreendido pelo chute mascado do Neymar, principalmente o goleiro, que pulou atrasado, como pularia atrasado no terceiro gol do Brasil. 

Mas a atração do jogo era mesmo o juiz e os bandeiras, que, segundo comentaristas, decidiram tudo o que puderam a favor do Brasil. O japonês do apito deu uma excelente assistência para o segundo gol do Brasil, de pênalti, marcado pelo mesmo Neymar. 

Como se não bastasse, em um cruzamento, o goleiro Julio César saiu mal do gol e foi acossado por um atacante. Não vi falta. Mas o bandeira estava lá de zagueiro e viu a infração que só foi apitada depois que o jogador croata pôs a bola no fundo da rede. 

Com a preciosa assistência do juiz, Neymar fez seu segundo gol no jogo
Bem, lance polêmico, deixa pra lá. Mas, por que foi o bandeira que marcou e não o juiz? É mais uma pergunta que não quer calar. Talvez porque o juiz é bom de assistência e a especialidade do bandeira é ali na zaga. 

O juiz é mesmo gente boa. O mesmo Neymar, o que fez os dois gols, agrediu um jogador croata e recebeu, apenas, o cartão amarelo. Todo mundo sabe que o que Neymar fez merecia, na hora, o cartão vermelho. Aplicá-lo em lances como aquele é determinação expressa da FIFA. Mas, o juiz não fez isso, para o bem de todos e felicidade geral da Nação. 

Tudo terminou bem: 3 a 1. Neymar saiu, mas substituído por outro jogador, o Felipão abraçou o Murtosa e a torcida vibrou. Ficou só, mais uma vez, a sensação de que o Brasil já perdeu essa Copa, ainda que a seleção a vença.    

E as más línguas garantem que, se tomarmos o jogo de hoje como padrão para o resto da Copa do Mundo, está claro que a seleção brasileira vencerá... custe o que custar. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Governo manda apagar de vez a lâmpada incandescente

Meu amigo Jorge prepara diariamente um excelente clipping. No de ontem, constava matéria na qual há uma informação de repercussões drásticas: “lâmpadas mais usadas no Brasil vão sumir das lojas em até um ano”. 

As “lâmpadas mais usadas no Brasil” são as incandescentes, aquelas de luz meio amarelada. As mais usadas no país. 

Dentro de pouco tempo, uma lâmpada incandescente será peça de museu 

Se sua casa já não estiver empesteada de lâmpadas fluorescentes ou “led”, não se esqueça de guardar as suas lâmpadas incandescentes usadas para mostrar aos netos. Pense que são, olhando de certo ângulo, bastante interessantes estética e filosoficamente: uma grande cúpula de vidro cercando um espaço quase vazio, no qual um minúsculo arame fica em brasa quando o pequeno artefato é plugado à eletricidade. 

Não é fantástico? Uma peça que assinala um modelo civilizatório, sem qualquer dúvida. 

Um pouco de filosofia...

Perceba a perspectiva filosófica contida no design de uma mera lâmpada. A mensagem claramente é a de que a lâmpada é como uma pequena cabeça iluminada que, com sua luminosidade, ilumina ainda outras cabeças, incluindo corpos, que não possuem luz própria, mesmo se ligados à eletricidade. Só a lâmpada consegue isso. Se você tentar, vai, ao contrário da lâmpada, apagar. 

Pense que se você vivesse na virada do século XVIII para o XIX, poderia se transformar facilmente num dos primeiros pacientes da nascente ciência da Psiquiatria: bastaria contar a alguém que haveria, antes do final do século, um objeto como a lâmpada, aparentemente tão simples e tão pequeno, que iluminaria, muitas vezes com a potência de um pequeno sol, salas, quintais, ruas etc. 


Futuro de trevas

Mas, o tempo é implacável e as lâmpadas agora deixam de impor sua luz aos ambientes diversos, apagam-se definitivamente para se transformar em objetos mortos, como toda e qualquer peça de museu. Mortos, é claro, mas possuidores de sentidos que lhes dão uma vida fantasmagórica aos olhos humanos e apenas a eles. Isso significa que a luz da lâmpada incandescente passa a ser, a partir de sua extinção, aquela que a eletricidade da imaginação humana conseguirá lhe atribuir. Não mais a luz própria, ou a ilusão de conter uma luz própria. 

Agonia será breve

E esse sumiço será rápido. Em um mês, não será mais permitido que se fabriquem ou importem lâmpadas incandescentes de qualquer tipo. No varejo, elas vão sumir definitivamente em um ano, mas há quem garanta que, em seis meses, não haverá mais nenhuma à venda. Em julho de 2016, estará total e completamente extinta, salvo em um ou outro recanto. 

E perceba que, só no ano passado, algo em torno de 250 milhões de lâmpadas incandescentes foram comercializadas. É um trauma drástico para boa parte da população brasileira. Há quem já diga, por exemplo, que o governo tramou tudo muito bem tramado e que a Copa no Brasil e as eleições foram estrategicamente pensadas para desviar a atenção dos brasileiros. 


Alguns saudosistas já idealizam novas funções para as lâmpadas
Na calada da noite, o fim

Note, também, que já está em vigor uma proibição relacionada às lâmpadas incandescentes, embora você talvez nem tenha notado. As lâmpadas desse tipo com modelo acima de 61 watts já estão extintas por decisão governamental. Enquanto você se distraía com as peripécias do Joaquim Barbosa dando uma de paladino contra os dragões petistas ou com escândalos como o da refinaria de Pasadena ou do metrô paulistano, os predadores agiam na calada da noite. 

Governos são grupos de humanos aos quais se atribuem poderes decisórios sobre outros grupos e outros humanos e, é claro, também sobre as coisas. No caso, o governo do Brasil, este país de quinhentos e poucos anos, decidiu que as lâmpadas incandescentes devem morrer. Não existe Pena Capital neste lugar, a não ser para lâmpadas incandescentes. 

Logo a lâmpada, o objeto que, se tomado em conta o verso de Jorge Mautner, “belezas são coisas acesas por dentro”, é um ícone da beleza. Logo esse objeto singelo e tão rico em significados está fadado ao desaparecimento. 

Não há de ser nada. Enxugue essa lágrima e siga em frente, agora sob a iluminação fluorescente e da tal lâmpada led, seja lá o que seja isso. Sim, eu sei, tanto uma como outra são frias.

É... pelo menos as lâmpadas incandescentes eram quentinhas... 

terça-feira, 10 de junho de 2014

"Criticar a Copa é ser contra o Brasil?", por Chico Alencar

É engraçado. De repente criticar os muitos absurdos e atropelos da Copa virou motivo pra ser tachado de pessimista, de oportunista e até - vejam só! - de reacionário.

Antes de mais nada: muitos dos que são críticos ao evento da Fifa são apaixonados por futebol. A maioria destes, inclusive, já está preparando o churrasco com amigos e familiares para acompanhar os jogos. O Chico é um deles.

Mas isso não deve, de maneira nenhuma, ser confundido com o silêncio diante de todos os absurdos que fomos obrigados a engolir durante os últimos anos. Protestar - antes, durante e depois da Copa - é direito e dever de uma população que pratica a cidadania ativa. De forma organizada, pacífica e com pautas claras, para que não haja manipulação dos conservadores de plantão.
Mas algumas pessoas mais próximas ao governo federal acusam os críticos de "fazer o jogo da direita". Peraí! Fazer o jogo da direita? Quem? Está na boca do povo: a Copa do Mundo, agenciada pela Fifa, atendeu interesses econômicos muito poderosos. E o interesse público foi colocado em último lugar.
Mas algumas pessoas mais próximas ao governo federal acusam os críticos de "fazer o jogo da direita".

Peraí! Fazer o jogo da direita?? Quem?

Está na boca do povo: a Copa do Mundo, agenciada pela Fifa, atendeu interesses econômicos muito poderosos. E o interesse público foi colocado em último lugar.

Quem se favoreceu com a Copa tem CNPJ e endereço fixo. As grandes empresas de construção são o maior exemplo. Mas não são só elas. A Fifa, as empresas patrocinadoras, as corporações de mídia, as grandes imobiliárias e outras grandes empresas. Todas tiraram sua casquinha. E os maiores partidos políticos? Esses também parecem ter garantido o financiamento milionário das próximas campanhas eleitorais.

É claro como água! Neste processo, os reacionários saíram ganhando.

O benefício às grandes empresas, o avanço dos processos de privatização, a aprovação de leis que criminalizam os movimentos sociais e relativizam direitos, a militarização das cidades - com direito a Exército na rua! -, a remoção de comunidades pobres, a perseguição aos trabalhadores ambulantes, a elitização do futebol, a implementação de um modelo de cidade excludente... A Copa acelerou questões que historicamente estão vinculadas ao projeto da direita.
O benefício às grandes empresas, o avanço dos processos de privatização, a aprovação de leis que criminalizam os movimentos sociais e relativizam direitos, a militarização das cidades - com direito a Exército na rua! -, a remoção de comunidades pobres, a perseguição aos trabalhadores ambulantes, a elitização do futebol, a implementação de um modelo de cidade excludente... Quem ficou de fora foi o povo. De fora dos estádios, de fora de suas casas, de fora do clima de festa que o discurso oficial tentou vender. 
Quem ficou de fora foi o povo. De fora dos estádios, de fora de suas casas, de fora do clima de festa que o discurso oficial tentou vender. Vai ter Copa, mas não vai ter a Copa que propagandearam alguns anos atrás.

De nossa parte, seguimos na luta. Com um lado: em defesa de direitos e de cidades mais justas, onde o Poder Público não é subordinado ao poder econômico.

Chico Alencar é professor de história e deputado federal pelo PSOL-RJ...

http://www.psol50.org.br/site/artigos-e-entrevistas/664/criticar-a-copa-e-ser-contra-o-brasil

"Somos todos vira-latas", por Sérgio Domingues

“Não temos o complexo de vira-latas”, disse Dilma Roussef, recentemente, em resposta aos críticos da Copa do Mundo.

A expressão foi usada por Nelson Rodrigues, logo depois da derrota da seleção brasileira na Copa de 1950. Mas também serviria para a situação de inferioridade em que os brasileiros se colocariam diante do resto do mundo.
Nos jogos da Copa, os que têm pedigree estarão nas áreas Vips dos estádios. Desfrutando do conforto pago pela grande maioria formada por vira-latas. Mas muitos destes últimos estarão nas ruas, protestando. Oprimidos e explorados, juntos e misturados. 
Muitos intelectuais da elite realmente acreditavam, e acreditam, nesta inferioridade. E ela se deveria ao caráter mestiço do povo brasileiro. Certa vez, Monteiro Lobato, por exemplo, disse que o Brasil era “filho de pais inferiores”. Seu povo, desprovido do “sangue de alguma raça original”.

Mais recentemente, a mestiçagem ganhou caráter positivo. Mas começou a ser utilizada para esconder o racismo brasileiro. “Aqui não há racismo”, dizem. “Somos todos juntos e misturados”. Discurso desmentido pelas condições de vida muito piores reservadas à população negra.

De qualquer maneira, pureza de raça nunca foi vantagem. Ao contrário, a biologia já provou que a diversidade só traz benefícios. O melhor exemplo são exatamente os vira-latas. Aqueles cães e gatos sem raça definida, que enchem as ruas das cidades brasileiras.

Resultado da mistura constante de raças, a falta de pedigree do vira-lata é compensada por muitas vantagens. Entre elas, a resistência a doenças e a inteligência estimulada pela necessidade de sobreviver. A mesma que os torna fiéis companheiros de quem os acolhe.

Nos jogos da Copa, os que têm pedigree estarão nas áreas Vips dos estádios. Desfrutando do conforto pago pela grande maioria formada por vira-latas. Mas muitos destes últimos estarão nas ruas, protestando. Oprimidos e explorados, juntos e misturados.

Somos vira-latas. Nunca desistimos!

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Sérgio Domingues é militante do PSOL, sociólogo, servidor do Ministério da Saúde e coautor do Dicionário de Politiquês, com Vito Giannotti. Também escreve nos blogs Pílulas Diárias e Midiavigiada. 
http://www.psol50.org.br/site/artigos-e-entrevistas/colunistas/25/sergio-domingues

sexta-feira, 6 de junho de 2014

"A conta das arenas é nossa. Saiba por que nunca pôde ser diferente", por Vinícius Segalla

Vinícius Segalla do UOL, em São Paulo 04/06/2014 

Em 2007, quando o Brasil se candidatou a receber a Copa, o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, e o ministro dos Esportes da época, Orlando Silva Júnior, eram categóricos em afirmar que os estádios seriam erguidos exclusivamente com dinheiro privado. 

Hoje, a realidade não poderia estar mais distante da promessa. 100% dos estádios da Copa foram ou estão sendo construídos com algum percentual de dinheiro público, resultando em um custo de mais de R$ 8 bilhões. Em 9 das 12 arenas da Copa, não houve ou há um centavo de recurso privado bancando as obras. 

E, em todas as arenas, os custos finais das empreitadas são muito maiores do que as projeções iniciais. O que explica tamanha discrepância entre o planejado e o executado? É custoso crer que em algum dia foi seriamente cogitado erguer os estádios da Copa exclusivamente com dinheiro privado. Por mais de um motivo. Pela lista de estruturas exigidas pela Fifa para as arenas, sabida desde o início do processo, não havia um só estádio preparado no país para receber o evento sem antes passar por reformas milionárias. O Brasil poderia ter organizado uma Copa com apenas oito ou dez cidades-sedes. O governo federal, porém, divulgou em 31 de maio de 2009 a opção por 12, incluindo entre elas cidades sem clubes de tradição no futebol nacional, como Brasília, Cuiabá e Manaus. Ou seja, três cidades onde dificilmente haveria retorno econômico oriundo do futebol para os investidores privados. 
Em 2007, quando o Brasil se candidatou a receber a Copa, o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, e o ministro dos Esportes da época, Orlando Silva Júnior, eram categóricos em afirmar que os estádios seriam erguidos exclusivamente com dinheiro privado. Hoje, a realidade não poderia estar mais distante da promessa. 100% dos estádios da Copa foram ou estão sendo construídos com algum percentual de dinheiro público, resultando em um custo de mais de R$ 8 bilhões. Em 9 das 12 arenas da Copa, não houve ou há um centavo de recurso privado bancando as obras. 
Para o sucesos da Copa da Fifa, do PT e das elites brasileiras, o Estado
Terrorista mandou a policia escpancar e matar gente que só se
torna visível na hora de levar porrada e tiro. Para a Copa dos ricos,
os pobres devem sumir do mapa. E cabe lembrar que o PT se elegeu
prometendo defender essa gente. O nome do partido mudará para PTraição?
Mas não é somente nessas cidades que o pretenso desejo de se fazer "a Copa do dinheiro privado" parece apenas jogo de cena. Nas demais nove sedes, a obrigação contratual de erguer arenas padrão Fifa em um tempo exíguo era do poder público brasileiro. 

Ora, qualquer clube de futebol do país - em sua maioria endividados e com impedimentos judiciais para tomar empréstimos de alto vulto - ou empreiteira que fosse assumir o compromisso de levantar do chão tais estádios em menos de cinco anos naturalmente exigiria dos governos (federal, estadual ou municipal) garantias e vantagens para entrar no negócio. Afinal, a tarefa era árdua, o tempo era exíguo e o compromisso era do Brasil, não dos clubes, construtoras ou investidores privados. Assim, a Copa do dinheiro privado naturalmente se transformou na Copa do dinheiro público, independentemente da modelagem financeira da construção ou da realidade do futebol local onde as arenas foram erguidas. Veja, abaixo, o caminho que levou o contribuinte brasileiro a empenhar bilhões de reais em estádios de futebol padrão Fifa . 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A maior lição da Copa: no Brasil, cidadão é aquele idiota que paga impostos e recebe uma banana em troca

Karina Ernsen & Luiz Geremias

Convidamos você a um rápido exercício de imaginação. 

Imagine a festa que seria esta Copa do Mundo, se tudo tivesse sido feito de forma correta e adequada. 

Imagine como as cidades estariam agora se as verbas públicas fossem utilizadas para o fim que lhes é devido, com ou sem Copa. 

Imagine como estaríamos se as obras necessárias para o dia-a-dia do cidadão fossem realizadas.

Imagine como nos sentiríamos se o poder público demonstrasse seu respeito por nós. 

Imagine como estaríamos felizes se aqueles que elegemos para estar do nosso lado realmente estivessem do nosso lado.

Imagine o transporte público maravilhoso que teríamos se o interesse de todos estivesse acima do lucro de poucos.

Imagine se o atendimento real às necessidades de nós, população, fosse a prioridade dos governantes. 

Imagine se, pelo menos, o cidadão fosse considerado como o que, na realidade, é: o cento do mundo urbano, o fundamento para a existência da cidade. 

Agora, pare de imaginar e olhe em torno. 


Figurinha carimbada do álbum da Copa:
o Estado Terrorista e sua Tropa de Choque contra o cidadão. 
A realidade não imaginada

O cidadão tem sido, aparentemente, considerado pelo poder público como aquele idiota que deve pagar pontualmente seus impostos para receber uma banana no fim das contas. E, apenas para pagar seus impostos e ganhar sua banana, o cidadão deve trabalhar aproximadamente metade de cada ano. E, além de tudo isso, deve permanecer calado, sob o risco de ser taxado de “reacionário”, “direita” ou “coxinha” por alguns; ou de “black bloc”, “esquerdopata”, “baderneiro” ou “vândalo”, por outros, dependendo apenas do momento, companhia e local. 

Na hora de ir contra você, tanto a direita como a esquerda se unem no mesmo lado.