sexta-feira, 9 de maio de 2014

"Realismo socialista" ou aceitação acrítica de uma certa "bandidagem política capitalística"?

FHC (à direita) parece ter ensinado a Lula como funciona a tal "ética específica" do político.
Os governos petistas praticaram o ensinamento de FHC e se construíram com essa tal ética,
que muitos identificam como algo muito próximo da aplicação de uma lógica sociopática.
Recentemente, me surpreendi ao tomar ciência de um argumento que busca defender uma certa lógica política atribuída (pelo próprio autor do argumento) ao grupo que ocupa o Palácio do Planalto. Vou tentar expô-lo da forma mais fiel possível e, parece inevitável, criticá-la em alguns tópicos.

Veja que para alguns defensores do governo, a política não é apenas um jogo, mas ainda um jogo caro, tão caro que pode ser comparado à Fórmula 1, uma realmente dispendiosa modalidade “esportiva” na qual as máquinas superam os homens, que são cada vez mais meros auxiliares operacionais do jogo. O ex-presidente Collor, aliás, teria dito, aí pelo ano de 1991 ou 1992, algum tempo antes de ter seu mandato encerrado por pressão política e popular, que a política seria uma “máquina de moer gente”. É uma boa pincelada para complementar a imagem da política “Fórmula 1”.

Diz o argumento, ainda, que ninguém vence por ser bonito ou por ser honesto, por ter bom coração ou boas intenções. Essa lógica tem sentido, é claro, mas um de seus sentidos é muito arriscado: quem a afirma pode estar, na verdade, dizendo que quanto mais feio, desonesto, maldoso ou mal-intencionado for o sujeito, mais sorte vai ter na política. De modo que dizer isso é quase fazer uma confissão e dirigir essas “acusações” àqueles que supostamente estariam sendo defendidos com a argumentação. 


Segundo o argumento analisado, a política não seria apenas um jogo,
mas ainda um jogo caro, tão caro que pode ser comparado à Fórmula 1,
uma realmente dispendiosa modalidade “esportiva” na qual as
máquinas superam em muito aos homens, que são cada vez
mais meros auxiliares operacionais do jogo,
quando não se transformam em defuntos ilustres.
Talvez a intenção inicial do argumentador tenha sido dizer que é preciso mais do que beleza, honestidade, bom coração ou boas intenções para vencer na política. Talvez. Mas, ninguém garante que tenha sido essa a intenção. E há quem diga que pelas frestas das boas intenções não raro se escapam as chamas do inferno. 

Ainda mais que o tal argumentador usa como contraponto a imagem de Cristo, uma referência de pureza, segundo ele mesmo, que não parece existir na vida política. 

Além de ser um jogo caro, é um jogo bruto e feito para “fortes”. 

Bem, pode ser bruto, pois há muito envolvido, pelo menos para quem se atreve a tecer esse tipo de argumento. A ótica é, porém, específica de gente que é bruta ou embrutecida, que confunde brutalidade com força e vice-versa. (1)

E mais: o povo não participa do jogo, é apenas massa de manobra, segundo o argumentador. E, segundo ele, então, a melhoria da vida do tal povo depende da boa vontade dos políticos que jogam o jogo para beneficiar “essa gente ingênua”. Sim, porque há os políticos que não têm boa vontade e jogam contra o povo, para manter, segundo o sujeito, o status quo. 

Ora, se antes o argumento incluía Cristo como uma imagem improvável de pureza política, a crença parece ser a de que só os políticos puros, ou de coração puro, ou bem intencionados, sei lá, estariam do lado do povo. 

Seguindo o argumento, o protagonista do romance Clockwork Orange, Alex, seria algo
como o tipo ideal para espelhar como deve pensar e agir o político contemporâneo,
sem purezas desnecessárias (que, para o argumentador, quando existem são falsas).
Clockwork Orange (Laranja Mecânica) é um belo romance de Anthony Burgess,
levado ao cinema de forma magistral por Stanley Kubrick.
Mas, como foi dito que o sucesso na política não está relacionado à pureza (muito pelo contrário), abre-se a perspectiva de pensar que, então, as manifestações em defesa do povo são guiadas pelo interesse no sucesso e que esse interesse não inclui, tudo indica, necessariamente virtudes, sendo assim permitido pensar que as virtudes só entram nessa modalidade de prática política como adereços a desviar a atenção das verdadeiras intenções. São algo como belos paramentos que os interessados devem usar para ocultar suas obscenidades. 


E por aí segue o argumento, mas acho que já basta esta descrição para bem entendê-lo. 

Uma ética especial?

O argumentador não está errado ou doido, ele expõe uma conversa conhecida e relativa à "ética específica" da política. 

É o que os políticos dizem sempre, de forma oportuna ou oportunista, conforme a interpretação: que há peculiaridades específicas no que tange à relação entre os meios e os fins na política, coisas que vêm de Maquiavel, que foram faladas acho que por Max Weber e que disse, em suas memórias, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso: 

O homem público não pode se contentar com a pureza de suas intenções e a obediência ao formalismo às leis: em última análise, ele será julgado pelos resultados que conseguir. A política, em um regime democrático, exige alianças, acordos, trocas de favores e benefícios, e nem sempre podemos escolher nossos aliados 

Note bem: foi Fernando II, FHC, o homem da “herança maldita” que disse isso, mas hoje muitos defensores do governo petista usam o mesmo argumento para sustentar e justificar o apoio ao grupo do Planalto e a defesa do governo. FHC precedeu ao PT no poder federal e deixou prontas as bases sobre as quais os petistas ergueram seus governos, o que permite a qualquer um, inclusive a mim, entendê-lo como o mestre inspirador dos governos petistas, embora os petistas tenham governado por doze anos atirando pedras perenemente no mestre, numa reação claramente psicótica de negação das próprias origens.  

Ética sem ética

Para mim, essa história da ética específica da política não é lá muito ética. Tendo a entender que a barreira entre essa mentalidade e a total e franca sociopatia é da espessura de uma casca de um ovo. 

Vamos conhecer a definição de sociopatia? Esta foi retirada, após busca rápida, do verbete da Wikipedia: 

“Transtorno de personalidade caracterizado por um desprezo das obrigações sociais e falta de empatia para com os outros. Há um desvio considerável entre o comportamento e as normas sociais estabelecidas. O comportamento não é facilmente modificado pelas experiências adversas, inclusive pelas punições. Existe uma baixa tolerância à frustração e um baixo limiar de descarga da agressividade, inclusive da violência. Existe uma tendência a culpar os outros ou a fornecer racionalizações plausíveis para explicar um comportamento que leva o sujeito a entrar em conflito com a sociedade”. 

Sem palavras: a cena é triste, o barato é doido e o processo é lento... 

E essa conversa toda, esse argumento um tanto sem-vergonha, não parece ser exatamente fruto de uma mentalidade ligada ao "realismo socialista", mas de uma aceitação acrítica de uma bandidagem política que esses mesmos caras costumam acusar de ser capitalística. 

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(1) Trata-se de um argumento masculino, viril, parece claro, para o qual sair na porrada é quase o sentido da vida. Mas, dizem por aí que esse pessoal que gosta muito de brigar, que curte uma luta, parece gostar da porrada porque esta possibilita um contato mais próximo com alguém do mesmo sexo. É o que dizem por aí, não me comprometa ou responsabilize por isso. E isso pode querer dizer exatamente o oposto do esperado de quem usa argumentos masculinos e viris. Talvez, talvez, não sei bem. Mas me surpreende o tesão com o qual alguns homens mergulham em sôfregos combates agarradinhos uns com os outros. Nada contra, nada contra, só acho meio suspeito. 

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