quarta-feira, 7 de maio de 2014

Os vermes financeiros e as nuvens negras sobre o Planalto

Todos os brasileiros presenciaram a transformação cosmética da ex-ministra Dilma
na presidenta Dilma. Há quem diga, porém, que a cosmética não ficou apenas
no "visual" da líder, mas alcançou as contas públicas e os atos do governo.
Na imagem, Dilma, antes da maquiagem presidencial. As aparências mudam
e geralmente enganam, mas não por muito tempo. 
O Financial Times (FT) é um veículo "bem informado" e o que publica pode expressar o que um determinado grupo avalia sobre economia e política. Um grupo forte, perceba-se. Um grupo que lida com o negócio legal mais lucrativo já inventado: o mercado financeiro. Um grupo que comanda aquilo que Armínio Fraga definiu como "o conjunto de todos os consumidores do mundo", ou algo muito próximo disso, quando era presidente do Banco Central de FHC (ele é o possível futuro ministro da Fazenda, caso os tucanos voltem ao poder com Aécio Neves). O problema é que Fraga não disse que esse tal "conjunto de consumidores" é manipulado por uma casta (1)

O grupo que tem expressão no FT parece descontente com a gestão de Dilma Rousseff. Não exatamente pelo governo estar pondo em prática programas sociais assistencialistas, como a Bolsa Família. A despesa com esses programas é, na prática, pequena em relação ao montante operado - as bolsas custam alguns bilhões, aproximadamente 25, ou, com o anunciado reajuste de 10%, R$ 27 bilhões e trocados. Só para comparar, o dinheiro enviado para banqueiros só em 2014 passará de R$ 1 trilhão. Não dá, assim, para comparar: é covardia. 


Uma possível definição para o Mercado Financeiro: organismo que vive em
associação com outro do qual retira os meios para a sua sobrevivência, normalmente
prejudicando o organismo hospedeiro, um processo conhecido por parasitismo.
Se o organismo hospedeiro morre, o parasita morre também. Logo, todo
parasita precisa cuidar para que o organismo parasitado não sucumba. 
O Mercado Financeiro não é mais que um grande verme

Minha hipótese é que o tal Mercado Financeiro opera como um grande parasita e, como todo verme, precisa que o organismo que o alimenta permaneça vivo e, isso é indispensável, "com saúde". Saúde para oferecer a ele, parasita, é claro. A gestão do PT no campo da Economia parece estar se esgotando e, se produziu um bem-estar em muita gente (merece elogios por isso), o fez de modo não sustentável. Uma economia precisa de combustível próprio para queimar e se movimentar. Esse combustível vem principalmente da produção industrial e tecnológica, mais que da produção de matérias primas, parece óbvio. Mas, os governos de FHC, de Lula e de Dilma, numa sequência, se encarregaram de destruir a capacidade produtiva nacional. 

A gasolina do sistema econômico nacional passou a ser produzida por dois processos altamente degradáveis: o consumo de mercadorias e serviços e os "investimentos" que chegam pela via que o senador Roberto Requião (PR) costumava chamar de "capital motel", pois entra e sai rapidamente do país, "entra de noite, sai pela manhã", segundo ele, se me lembro bem. 

Se você ainda não entendeu, explico melhor, ou digo em português claro: a economia do Brasil foi destruída na década de 1990, continuou a ser na primeira década do século XXI e vai rumo ao crash, sem sinal de que alguém freará antes da colisão. Serviu para enriquecer banqueiros, alguns empresários chegados aos que ocupam o poder, os que ocupam o poder (veja-se, por exemplo, os jetons dos ministros que fazem parte dos conselhos disto ou daquilo das estatais, só para ter uma noção rápida). Só que tudo tem limite e os sinais de que o limite está próximo vão aparecendo na guinada privatista do governo Dilma e, talvez principalmente, no desagrado do Mercado Financeiro, esse grande verme, em relação à saúde da economia brasileira. 

O desagrado dos financistas está manifesto nas páginas do FT e também da The Economist, uma revista de nacionalidade inglesa, como também é o FT. No último dia 30 de abril, aliás, a revista publicou matéria falando da desgraça que parece rondar Dilma e o PT neste ano. Há uma matéria do carioca Jornal do Brasil sobre isso (link: http://www.jb.com.br/pais/noticias/2014/05/02/the-economist-a-fragil-lideranca-de-dilma/ - link da matéria original: http://www.economist.com/blogs/americasview/2014/04/brazils-election?zid=309&ah=80dcf288b8561b012f603b9fd9577f0e). 

O FT também fala com desgosto da presidenta na matéria "Brazil’s Olympian World Cup blues" (link: http://www.ft.com/intl/cms/s/0/593b0a12-d1fc-11e3-8ff4-00144feabdc0.html?siteedition=intl#axzz30xLnWYRQ). Chega a dizer que se Dilma projetava a aura da eficiência da alemã Angela Merkel, sua performance pode ser melhor comparada à dos irmãos Marx. Isso parece significar chamá-la de algo assim como uma palhaça ou uma imbecil. Feio e agressivo o início do texto do FT. 

Pior: no mesmo dia, o mesmo jornal publicava outra matéria sobre a política brasileira, mais precisamente sobre as eleições presidenciais. Nela, fala até com certa simpatia de Eduardo Campos, um dos rivais de Dilma na corrida presidencial (link: http://www.ft.com/intl/cms/s/0/4834ba90-cba5-11e3-a934-00144feabdc0.html?siteedition=intl#axzz30xLnWYRQ)


Nuvens negras sobre o Planalto

O sinal pode ser que está se fechando um ciclo e vei aí outro. Pode ser, como dizem por aí, que tanto Campos como Aécio vão finalmente "dar independência" ao BC e tomar outras medidas "liberalizantes", o que agrada sobremaneira ao time que escreve no Financial Times e também aos que os leem. Pode ser, faz sentido. 

O Mercado é poderoso e se conta que até mesmo a Dilma e seus companheiros já sinalizam com a intensificação de medidas para agradá-lo mais ainda, além das que já tomaram durante estes doze anos - já se fala até em redução dos custos da produção via salários, veja só (isso porque o partido que ocupa o Planalto se intitula "dos trabalhadores"). As privatizações de Dilma (o pré-sal e o aumento da participação estrangeira no Banco do Brasil) podem ser um sinal disso e as "palhaçadas" citada pelo jornal podem ser lidas como o fracasso do grupo do poder que tenta atender a Deus e ao diabo com os mesmos movimentos de prestidigitador. 

Repito que há muita gente boa por aí dizendo que o modelo econômico está esgotado, pois fundado basicamente no consumo e que não será fácil uma recuperação sem mexer estruturalmente na economia. Aí que podem começar novos problemas... ou soluções temporárias, quem sabe, até a outra eleição... 

Uma coisa parece certa: há nuvens negras sobre o Planalto e o FT não só divulga isso, como ajuda a reuni-las ali... 

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(1) Uma personagem do romance "Arlequim", de Morris West, tem uma definição melhor para o tal "Mercado": segundo ela, trata-se de uma quadrilha que não é chamada de "quadrilha", mas, pomposamente, de "Mercado". 

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