terça-feira, 20 de maio de 2014

Lugar de poesia é na calçada

O Poder Público olha para o umbigo quando há alguma demanda do cidadão. Isso quando não manda a polícia resolver o assunto. Eis um caso exemplar, o da prisão, com algemas e empurrões, do poeta que escreveu no muro ao qual a prefeitura de Curitiba nunca prestou atenção, que fica ali no já meio derrubado Bosque da Casa Gomm. 

O tal bosque foi devastado por interesses privados, mais precisamente dos proprietários de um shopping center - um quasímodo no qual a poesia não entra. Parece que os mesmos proprietários dessa monstruosidade querem acabar com o resto do bosque e da histórica casa que o margeia para fazer, ali, uma rua para que mais consumidores possam passar com seus carros rumo ao templo do consumo. 

Em resumo: nada de bosques, de árvores, flores, grama, abelhas, pássaros, história ou qualquer poesia. Tudo se resume ao dinheiro, ao consumo e à estupidez de quem resume tudo ao dinheiro e ao consumo. 

E assim rasteja a humanidade, em Curitiba, nos arredores e no resto do país. 

Poesia é coisa viva, o Poder Público precisa de sepultamento urgente

Poetas: peçam permissão à prefeitura de suas cidades se quiserem escrever poesia. Ah, mas só que quiserem escrevê-la em um muro, que deveria ser público como o poder público, mas é privado como costuma ser o poder público. 

Se não quiser fazer isso, até porque a atenção que lhe vai ser dispensada será provavelmente nula e a poesia vai ter que esperar os trâmites burocráticos e legais, guarde a poesia para si, ou a escreva num pedaço de papel e o feche numa gaveta. 

Mas, agindo assim, você vai provar que não é um poeta, é apenas um "fazedor" de versos covarde e mesquinho. Poderá vir a ser vereador, deputado, prefeito, governador ou senador. Poderá vir a ser até presidente. Mas, poeta, ah, isso você não é, nem jamais será. 

A poesia não espera, não pode nem deve esperar. Poesia é coisa viva e o Poder Público é inerte e imóvel, salvo quando se aproximam as eleições ou há interesses pessoais em jogo. Poesia é vida, o Poder Público está morto, mas ninguém se dignou a sepultá-lo ainda. 

E segue a poesia de Sergio Sampaio, um ícone imortal da música brasileira e referência, enquanto viveu, da resistência à estupidez do poder que se diz público: 

Para ouvir: http://letras.mus.br/sergio-sampaio/526072/
Cada Lugar Na Sua Coisa
Sérgio Sampaio

Um livro de poesia na gaveta não adianta nada
Lugar de poesia na calçada
Lugar de quadro é na exposição
Lugar de música é no rádio

Ator se vê no palco e na televisão
O peixe é no mar
Lugar de samba enredo é no asfalto
Lugar de samba enredo é no asfalto

Aonde vai o pé arrasta o salto,
Lugar de samba enredo é no asfato
Aonde a pé vai se gasta a sola
Lugar de samba enredo é na escola

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