terça-feira, 20 de maio de 2014

A lei e a ordem contra a democracia, a cidadania e a poesia


Parece que o poder público só vai no Parque Gomm para amordaçar e algemar poetas.
Há quem diga que é a primeira vez que a prefeitura da cidade vai ao local falar com os
cidadãos que lutam pela criação do parque. Mas, não foi falar, foi calar.
Cidadãos tentam fazer valer a tal conversa de democracia e cidadania, mas esbarram no Estado totalitário e terrorista. 

Desde 2013, parte da sociedade brasileira anda em pé de guerra. Luta-se, fundamentalmente, para que valha a tal conversa de que o Brasil é uma Nação democrática e que cada um deve se sentir cidadão aqui. Na prática, isso não acontece, é apenas conversa, logo muitas pessoas se tocaram disso e, como por encanto, resolveram tirar a limpo essa história. 

Multidões foram para as ruas reclamar da vida que levam e solicitar (ou exigir) aos governos que façam aquilo que devem fazer em vez de ficar fazendo negócios com fins econômicos ou eleitorais. Parece claro a 99,99% dos brasileiros que sai governo, entra governo, a situação pouco muda, pois a cultura política nacional está entregue a lobistas e patrocinada pelo dinheiro, pelo capital financeiro improdutivo. 


O muro da discórdia com a mensagem que irrita filósofos
e defensores da lei, da ordem e do poder econômico. 
“Político é ladrão” é uma frase ouvida a cada cinco minutos no Brasil há pelo menos vinte e cinco anos, certamente mais. Na época da ditadura, se dizia menos, porque era proibido dizer certas coisas. Mas, o fato é que data de muito tempo a sensação de que a coisa não tá nada boa, mas fazer o quê? E ninguém se mexia. 

No entanto, em junho de 2013, por algum motivo, aparentemente por conta das mobilizações organizadas por grupos de cidadãos que lutavam por melhor transporte público, muita gente se mexeu. Milhões nas ruas de todo lugar, mais de milhão no Rio e em São Paulo, milhares nos lugares menores, centenas onde morava pouca gente. Como mágica, o povo brasileiro renasceu e partiu para cima pedindo democracia e cidadania. 

“Mas, o Brasil não é um país democrático? Os governantes não são eleitos por voto e legislam, executam etc.?”, pergunta um idiota da objetividade, um daqueles entes simplórios que Nelson Rodrigues descreveu. 


Os perigosos frequentadores do Parque Gomm
durante feira de troca de brinquedos.
Cinco viaturas da Guarda Municipal de
Curitiba contra adultos pacíficos e crianças.
A lei e a ordem contra a poesia.
“Sim, claro!”, é preciso responder a ele. “É uma democracia. Tem esse nome, sim". Mas, o idiota da objetividade não vai entender que as coisas têm nome, mas nem sempre os nomes correspondem às coisas. 

A prova de que a tal democracia brasileira é uma piada de mau gosto para a maioria e muito divertida para uma minoria é que a minoria mandou a polícia para as ruas com disposição para quebrar os dentes de quem se dignava a gritar. A reação veio no acirramento da violência de ambas as partes, mas, em especial, do aparato policial do Estado brasileiro. 

Em inúmeras ocasiões, os homens e mulheres designados para manter a ordem e combater o crime agiram como desordeiros e criminosos; alguns, como autênticos bandidos de farda. Enquanto isso, governadores, secretários de Segurança, ministros e outros tipos afins apoiavam a repressão e davam um tiro na testa da tal conversa sobre a democracia brasileira. Mostraram que ela existe, mas do mesmo modo que Papai Noel: só acredita quem é acima de tudo ingênuo. 

De modo curioso, é possível dizer que os políticos existem, no Brasil, para mostrar o quanto é inútil a política. 

Contra a poesia

Agora, em Curitiba, um grupo que luta pela preservação de um espaço público de lazer, um bosque já desmatado em sua maior extensão graças a interesses empresariais, recebeu a visita inesperada de viaturas da Guarda Municipal da cidade, que passaram por cima de grama, flores, mudas plantadas e derrubaram até uma pequena araucária, a árvore símbolo do Paraná. Sim, isso mesmo, viaturas com sirenes ligadas e policiais com armas nas mãos invadiram o Parque Gomm, em Curitiba. Ali, havia adultos que assistiam a uma apresentação teatral e crianças que brincavam na terra e ouviam historinhas. 

De um lado, as viaturas policiais com os policiais armados até os dentes. Do outro, adultos que assistiam a uma apresentação teatral e crianças que brincavam na terra e ouviam historinhas. 


Milhões de cidadãos democratas e poetas nas ruas.
Os governos balançam quando isso acontece. 
E para quê? Por conta de quê? Por conta de uma poesia escrita em um muro. O poeta que a pintou foi algemado e preso.

Bem que se costuma dizer que os poetas são perigosos. Platão, já queria, há dois mil e quinhentos anos, os expulsar de sua República. Hoje, são as cidades, pequenas repúblicas feudais, que não querem os poetas. Eles devem ser algemados e presos para que a paz social seja mantida. 

Alguém me diz que o poeta cometeu um crime: pichou um muro e que a polícia age segundo a lei e procedeu corretamente, pois pichar muro é contra a lei. Respondo que sim, que é claro que isso é verdade e digo que, na prática, tanto a lei, quanto a polícia que a faz cumprir, parecem existir fundamentalmente para tentar nos convencer e provar o quanto a poesia é perigosa. 

É preciso algemá-la, antes que cometa danos à lei e à ordem. 

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