segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Parasitismo: 92% das cidades brasileiras gastam o excedente da riqueza que apenas 8% produzem

Esplanada dos Ministérios, Brasilia/DF
A Capital Federal parece ser a recordista no parasitismo das cidades produtoras brasileiras.
Seus gastos são astronômicos, mas é das cidades que menos gera riquezas. 
Alguém acorda domingo de manhã e lê no jornal que “8% das cidades do país financiam todas as outras”. O que pensa? Não sei, mas provavelmente se interessará em saber se vive numa das 8% que sustentam ou se tem a felicidade de viver nas 92% que são sustentadas. Em outros termos, se é “produtor” ou “gastador”. 

Não fui eu que acordei cedo domingo para ler jornal, mas imagino que não é um bom modo de começar um domingo. Eu, por exemplo, moro em uma cidade do seleto grupo dos 8%, ou seja, das cidades que arrecadam mais do que gastam e, assim, financiam todas as outras, que não arrecadam o suficiente para pagar suas contas. Moro numa delas e nasci em outra. Moro em Curitiba e nasci no Rio de Janeiro, logo sempre contribuí para o sossego nas contas de quase cinco mil municípios deficitários. Bom saber. 

No total das 5292 municípios abarcados por um levantamento do jornal O Estado de São Paulo, o popular Estadão, somente 417 arrecadam o suficiente para cobrir suas despesas e o dinheiro que sobra nestes municípios cobre o que falta nos demais 4875. As informações dadas pelo jornal estão fundamentadas em pesquisa do Produto Interno Bruto (PIB) dos Municípios de 2011, divulgado pelo IBGE em dezembro último. 

Não sei bem se isso é comum, se é natural ou normal, ou se acontece em boa parte dos países. Mas que é, no mínimo, curioso, ah isso é. 



Muito se fala dos parasitas do mundo animal,
mas os piores estão entre os humanos
Brasília: não produz, mas é campeã de gastos

Pior é descobrir ou constatar o óbvio: Brasília, a Capital Federal, é, segundo o estudo, uma espécie de cidade parasita. Só ela, que praticamente não produz qualquer riqueza, gasta anualmente algo em torno de R$ 60 bilhões. Então, a produção é aproximadamente zero, mas o gasto é quase 60 bilhões de vezes maior. 

Nada contra Brasília ou seu povo, pelo contrário. Mas, há quem diga que o senhor Juscelino Kubitschek nos fez o favor de gerar uma cidade no meio do nada que claramente, desde sua fundação, canaliza boa parte das recursos nacionais para si própria, ou, mais precisamente, para uma casta, uma espécie de nobreza contemporânea. Nobreza pós-moderna, talvez, já que tudo hoje é pós-moderno. Há quem diga e os números da pesquisa divulgada pelo Estadão parecem confirmar. 

Curiosamente, é nessa cidade onde o nível de vida é o mais alto do país. E, sabe por quê? Segundo uma vendedora de cartões de crédito, lá todo mundo ganha bem. Não é exatamente isso, pois há muita gente ganhando bem mal, lá mesmo. Mas os maiores salários pagos com dinheiro público certamente estão lá e são salários altos pagos para muita gente. Dizem, por exemplo, que alguns ministros ganham bem acima do teto por conta de manobras malandrinhas para burlar a legislação. E esse pessoal já tem o salário bem altinho, talvez não precisasse de mais. 

Só este governo que atualmente nos governa gasta quase R$ 100 bilhões para sustentar sua máquina, em boa parte sediada em Brasília, onde estão os maiores salários. 



O parasitismo é a regra no mundinho da política. O
marketeiro parasita o candidato, que parasita
a opinião pública e se passa por amigo da
maioria para parasitar a maioria em favor
de si próprio e de seu grupo seleto de amigos.

Se você conseguir um cargo de "aspone",
pode também se tornar um parasita e curtir
a vida enquanto outros trabalham para você. 
Tudo é racional no capitalismo, menos ele próprio

Não, não é suficiente lançar torpedos morais ou fazer recriminações sibilinas ou, quem sabe ainda, tecer belos discursos éticos em posts do Facebook sobre o fato. O que é preciso é pensar nesse modelo nefasto seguido por nós. É essencialmente injusto, produtor de desigualdades, escravizador e emburrecedor, embora se autoproclame fundado na “inteligência”. Na verdade, cabe mais uma vez repetir a condenação de Gilles Deleuze ao capitalismo: nele tudo é racional, menos ele próprio. 

Algo certamente está errado. Se pudermos pensar nisso, quem sabe não precisaremos passar a vida apontando pequenos defeitos aparentemente monstruosos em uma estrutura que parece, ela mesma, tão defeituosa que tem a aparência de um monstro e que, a continuar do jeito que está, jamais será diferente. Ou será, aqui e ali, mas continuará fiel a suas monstruosidades. 

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Mas, o que é um parasita?

Segundo informações colhidas por aí, o termo descende, como tantos outros termos de nossa língua, do latim parasitus. Mas o latim já tinha colhido no idioma grego a palavra, que vem de παράσιτος (parásitos) e designa aquele que “come na mesa de outrem", no caso alguém que “fila a boia” de alguém. 

Mas, cuidado, há os parasitas que causam poucos problemas àquele que exploram, mas há os que podem causar até mesmo a morte do organismo parasitado. No primeiro caso, a natureza nos exemplifica com os piolhos, que não matam ninguém, mas causam muita coceira. No segundo estão os vírus. Há ainda os parasitas episódicos, como os cucos, que somente são parasitas durante um tempo. É o caso dos seres humanos até uma determinada idade, quando vivem sustentados econômica e emocionalmente por outros seres humanos chamados “genitores”, os populares “pais”. Alguns seres humanos permanecem nessa situação por toda a vida, mesmo que vivam 100 anos, e compartilham o mesmo status dos piolhos, podendo, em casos extremos, chegar a ser tão maléficos quanto os vírus. 


Parasitismo estrutural

De certo modo, porém, a sociedade capitalista sempre admite e trabalha gentilmente com a noção de parasitismo, embora não use corriqueiramente esse termo nefasto e de más referências. O trabalhador, por exemplo, é, segundo a teoria Marxista, parasitado por seu patrão, que dele extrai o seu lucro através do que Marx chamou “Mais Valia”, ou seja, o valor excedente que resulta da equação resultante da venda do produto por um preço superior ao valor do custo de produção, valor que não é pago ao trabalhador. 

Também os meios de comunicação de massa, as chamadas mídias (fulcrais para o sucesso capitalista), parecem poder se enquadrar no conceito de parasitas, pois usualmente se alimentam dos fatos para floreá-los de emoções e sentimentos, não necessariamente ligados a esses fatos e fazem isso para melhor vender-se ao público, que, assim, não apenas consome os produtos resultantes da elaboração subjetiva dos fatos (jornais, revistas, sítios da internet etc.), sustentando financeiramente o sistema, como também se torna predominantemente certificador da lógica sob a qual as mídias trabalham, a lógica que o Capital vende e patrocina, ou seja, que serve aos ricos e super-ricos, os maiores e mais vorazes parasitas conhecidos. 

Por um lado, o parasitismo gera um círculo vicioso cruel para o hospedeiro, que mesmo que não pereça, sobreviverá sempre sob o peso do parasita que sustenta. Por outro, essa situação é claramente degradante para o parasita. No entanto, a maior parte dos parasitas conhecidos parece feliz sendo como é... 

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