sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Os números dizem que teria sido melhor não falar sobre números hoje

Não dá. Tem dia que seria melhor ter ficado na cama, com todas as implicações que isso traz. Não, nada de mais, não creio que hoje seja uma data pior que as outras, que irá acontecer algo necessariamente trágico. Mas, tenho medo, é claro. 

Ainda mais que o dia começa lendo notícias para mim e me dizendo que no ano passado mais funcionários federais foram defenestrados, expulsos, pelo Governo Federal. Sou funcionário federal. Está certo que nunca me envolvi em falcatrua, ainda bem (embora tenha sido convidado uma vez ou outra), então só lamento pelos que acharam que havia um atalho e caíram no poço. 

O que chama a atenção em matérias jornalísticas como essa é o modo como são feitas. Nelas, os números parecem imantados de uma magia que talvez só o mago Pitágoras* poderá explicar para nós, simples mortais para os quais números são bonitinhos, mas parecem pequenos diabinhos querendo nos passar a perna. Creio que exatamente por isso, pela magia, os jornalistas põem tantos números, muitas vezes tão impactantes e tão insignificantes, em suas matérias. Ao mesmo tempo em que saciam a fascinação, nos dão pequenos golpes emocionais** associando números que provavelmente não batem em boa parte dos casos ou, se batem, provavelmente representam realidades inexpressivas***. 


Você fica observando os números, que vêm com aquele símbolo de porcentagem (%) e até esquece da vida. É tão obsedante quanto uma droga e proporciona o breve, mas confortável, bem estar de deixar de pensar no que tem que ser feito na realidade. Aconselho que experimente e, principalmente se não for bom em matemática, que faça contas com base nos números fornecidos. Se for bom, não faça isso que quebrará o encanto. 

A curiosidade na matéria que fala dos servidores defenestrados é um breve parágrafo com os tipos e formas de se livrar de servidores públicos e, mais interessante: a dona Rosemary Nóvoa de Noronha, que foi chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, foi exonerada e depois destituída. O problema da matéria, aí, é que não há uma definição precisa das características de cada ato administrativo. O que tem de diferente entre exoneração e destituição, isso não fica claro. Mas, quando se fala da tal moça, nada é mais importante do que a fofoca de que ela era, ou é, muito íntima do ex-presidente Lula. Dizem que a esposa do homem cospe marimbondos quando ouve falar dela. 

Só na tarraqueta

A notícia que leio em seguida fala que os planos de saúde brasileiros estão ficando cada vez mais caros e caros e caros desde 2004, exatamente nos anos depois que o suposto amante da dona Rosemary assumiu o poder. 

A matéria era muito cheia de números. Já estava um pouco sob o efeito dos números da outra matéria e resolvi pular esta. Ainda mais que os números pareciam mostrar o quanto somos achacados por planos de saúde e para mim, não deveríamos pagar esses planos e sim exigir que o SUS fosse levado a sério pelos governos. Mas, a realidade é outra e os planos se apresentam, há muito, como uma dupla taxação que sofremos. Somos obrigados a bancar um excelente plano de saúde pública, o SUS, mas temos que pagar um extra, por fora, para sermos atendidos com presteza. Acho que é por isso que somos sobretaxados. 

Mais: o SUS, repito, tem uma estrutura admirável, é um projeto viável e eficiente de atendimento à saúde da população. Mas, os governantes não parecem interessados nisso. Não por maldade individual, de um ou outro. É a regra. Certas instituições despertam o que há de pior no ser humano e a instituição política parece ser uma delas. 


Senta para ouvir esta

Aí, para fechar, leio matéria que diz o seguinte: passar o dia sentado é ruim para a saúde. Ora, tudo é ruim para a saúde nas matérias jornalísticas. Desde sentar até tomar veneno, passando pelo hábito de fumar e de comer e beber qualquer coisa, que nem mais os vegetais e verduras se salvam, pois estão cheios de agrotóxicos, dizem os jornalistas. Tudo que pode entrar no rol dos vilões da saúde a imprensa põe. 

Agora, certo, ficar sentado o dia todo não é inteligente nem muito menos reconfortante. Se você é um escravo como eu, fica sentado oito horas diante de uma mesa ou computador, mais uma meia hora almoçando, outra meia hora sentado para fazer a digestão. Aí, se tiver carro, anda um bocadinho até o estacionamento e entra no carro, senta e dirige. Chega em casa, senta diante da TV, porque precisa descansar e espairecer e tal. Ali fica até o jantar ou ceia, quando também senta. Invariavelmente senta na frente do computador para ver mensagens e, depois, de tanto ficar sentado, você, exausto, se joga na cama e dorme, ainda bem que deitado. 

Realmente, passar o dia todo sentado não é divertido nem certamente benéfico para a saúde. Mesmo quando se sai, e hoje é sexta-feira, o que se faz? Senta-se no bar, no teatro, no cinema, no sofá da casa de alguém e assim senta a humanidade. 


Senta que lá vêm os números

Ah, e a matéria do “sentar” também tem seus números mágicos, observe: 
“Pesquisas mostram que as pessoas têm passado entre 50% e 70% de seu tempo sentadas. A inatividade muscular por esse período pode aumentar em 54% as chances de um infarto e 73% a probabilidade de desenvolver uma síndrome metabólica”.
Fantásticos, os números são realmente mágicos. Mas, o que será exatamente aumentar em 54% as chances de um infarto? Por que 54% e não 50%, ou 47%, ou 66%? E isso para quem? Para o pesquisador que reuniu esses números? Para um amigo dele, para a mulher com quem ele casou ou para uma pessoa que ele não conhece e mora no Afeganistão? 

Como disse, os números, se bem usados, podem até inebriar. Mas, convém evitar exageros, pois depois de ler duas matérias com tantos números, você perde um pouco a sensibilidade e passa a ingerir números sem prescrição, em altas doses. 

Calma, isso não mata, mas não é assim tão agradável, principalmente porque os números são mágicos e passam a controlar você, se meter me tudo, em pensamentos, emoções e desejos. Aí, você começará a pensar, se mulher, que ficou 87% mais gorda no último ano, ou, se homem, imaginará que sua capacidade física vem decrescendo 23% a cada ano que passa. 

Números são bons, mas em excesso destoem a alegria de viver, pode ter certeza. 

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Notas 

* Pitágoras é um dos sábios da antiguidade mais injustiçados pela mídia historiográfica. Não está, veja só, escalado no ranking dos sete sábios da antiguidade, uma confraria virtual criada por alguns historiadores para designar quem foram os craques do pensamento na Antiguidade, uma espécie de premiação de “time do ano”, só que não é do ano, abarca muitos e muitos anos, quem sabe uns mil, talvez mais, talvez menos, quem sabe? Tudo que é muito, muito antigo é muito, muito incerto, naturalmente. 


Pitágoras nasceu em Samos, na Grécia, mas viveu mais tempo viajando do que lá e mais para a metade da vida se estabeleceu em Crótona, uma ilha italiana com aqueles rochedos de filme, onde parece que comandou um templo. Nasceu aí por 580 a.C. e desencarnou aí por 497 a.C. 

Na prática, se sabe muito pouco sobre Pitágoras, apesar de ter por aí livros que dizem muita coisa. Tudo indica que o sábio queria o mesmo que um dia um presidente militar brasileiro que gostava de cavalos pediu publicamente: que o esquecessem. Ele não deixou muitos rastros e curiosamente os que se disseram seus seguidores foram ridicularizados como estúpidos exóticos. Há quem chegue a dizer que ser pitagórico, na antiguidade, era algo como ser um usuário de maconha, hoje, isto é, todo mundo achava muito legal o que o pitagórico dizia, mas dava aquela risadinha e saía dizendo, “que viagem, hein!”. 

Pitágoras acreditava na reencarnação e conta-se que um dia implorou por um cãozinho que estava sendo selvagemente surrado por um homem. Os ecologistas e protetores de animais juram que foi por amor ao bichinho e até comparam o ato ao de Nietzsche, que enlouqueceu abraçado a um cavalo surrado por seu dono. Mas, dizem, o que levou Pitágoras a interceder, veemente, em favor do cão foi ter reconhecido, nos latidos, a alma de um amigo seu. Bem, isso pode ter sido uma gracinha, também, não é? Nunca se sabe e não há mesa espírita com força suficiente para trazer o sábio de tão antigamente até hoje para inquirir. Ou há? 

Um detalhe que talvez possa agradar às mulheres, principalmente às mais identificadas com a ideologia feminista, é que Pitágoras gostava muito de mulheres, não precisamente do jeito que você está pensando. Foi Temistocleia, uma mulher, sim uma mulher, que ensinou as coisas para Pitágoras. Não essas coisas, sacanagens etc., não é isso. Temistocleia era uma profetisa do Templo de Delfos, sabia muito sobre filosofia e matemática e Pitágoras gostou tanto que inventou a palavra “filosofia” para designar o que desde então é chamado filosofia. Bem, isso é o que contam, mas pode não ser verdade. Mas, tenha certeza de uma coisa: philos ou philia quer dizer amor ou amizade e sophia significa sabedoria. Filosofia é "amor à sabedoria". 

** Esses golpes, se bem dados, garantem a continuidade da leitura.

*** Imagine uma autoestrada dessas onde passam muitos carros, caminhões, motocicletas e o diabo. Agora imagine que aconteceu, num ano, por exemplo, em 2012, uma morte por acidente nessa mesma estrada. Se no ano seguinte, em 2013, aconteceram duas, isso significa que houve um acréscimo de 100% no número de mortes ocorridas nessa estrada fictícia. E não se iluda: se houver como tornar isso notícia, sem cair no ridículo, qualquer editor de telejornal vai pôr no ar a estatística. Dobrar o número de acidentes é espetacular e a imprensa gosta. Se puder, vai divulgar e repercutir. 

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