sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Noções preliminares sobre o que significa a tal “Ascenção social” (partes 1, 2, 3, 4, 5, n)

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O termo “ascensão social” é usado genericamente nas sociologias como designador de uma elevação de um indivíduo ou grupo dentro de uma determinada sociedade. É como se essa tal sociedade fosse assim como um edifício. O indivíduo ou grupo (geralmente esse grupo é familiar) começa morando no térreo, mas, um dia, se ganha uma graninha extra, se consegue um emprego, se passa num concurso público e alguns andares vão sendo galgados. O sujeito ou sujeitos, assim, bem se diz, “melhoram de vida” ou, como outros preferem, “elevam sua qualidade de vida”, ou, como ainda outros adoram, “refinam o seu padrão de consumo”. Nos andares mais altos do prédio estão as coisas mais refinadas e as pessoas mais “elevadas”. 

Sim, ascender socialmente equivale, numa linguagem hierática, a se purificar, se elevar, a se tornar melhor. Há quem já tenha me dito que o modelo da purificação atribuído a Alain Kardec é explicitamente o modelo da purificação social por meio da ascensão espiritual ou vice-versa trocando os termos. Quando você chega lá no topo, está purificado, se integra a Deus e pronto, vida eterna feliz e plenamente satisfatória. Quem sabe até haja as tais virgens das quais os muçulmanos tanto falam, mas não convém misturar as coisas. 

O negócio é que a propaganda produzida e veiculada para que acreditemos que a vida lá em cima é convincente, engenhosa e muito intensa e, assim, fatalmente acreditamos nisso. Há pesquisas sempre sendo realizadas, é bom saber. Tanto o nível de convencimento, quanto a credibilidade das mensagens que realmente interessam para manter tudo como está estão em alta. Eles, os publicitários e aqueles que os pagam, estão no caminho certo, os que acreditam neles é que estão no caminho errado. 


“Ascender” significa, em português claro, nada menos que ascender (se não houver o “s” depois do “a” e antes do “c”, não se iluda, trata-se de outra coisa) 

Na prática, ascender socialmente significa diversas coisas, principalmente porque é um termo um tanto vago e que não informa exatamente o que significa ascender nem a que social se refere. Pelo mundo, há muitas realidades, uma enorme diversidade de diversidades, isso se a cultura de massa não interferir demais. 

Os chamados “novos ricos” costumam ser acusados de gastanças absurdas e irreais. Segundo seus venenosos detratores, gastos irresponsáveis e inúteis. Ora, como assim?
Não sei exatamente o que significa ascender socialmente para um jovem de 14 anos de Praga, nem para uma moça de 21 dessa mesma cidade ou mesmo para um ancião de 94 anos que mora em Roma. Mas, sei que ascender é subir, ir para cima, logo, não importa onde for, sempre que você falar em ascender haverá essa conotação. 


Esqueça todas as besteiras que você já ouviu sobre "falar com Deus".
Se você quiser realmente falar com o Chefão, precisa descolar muita
grana e consumir, consumir, consumir. Deve comprar tudo
e de tudo, principalmente o que não é necessário. Isso causará boa
impressão e te elevará aos olhos dos outros filhos do manda-chuvas.
Eles farão tudo para te impedir, mas você vencerá depois que
deixar a sua colaboração para nosso templo ali na secretaria. 
O que quero dizer é que não importa o que seja ou onde esteja o “lá em cima”, ele sempre estará acima de você e, para o alcançar, embora ele não seja jamais alcançável plenamente, você vai precisar cumprir certas regras e seguir certos caminhos que significam, para o grupo que compartilha das regras que você cumprir, ter o melhor, sofisticar, refinar, enfim, se elevar, tanto social quanto espiritualmente, pois que apenas os espíritos que se elevam conseguem também elevar os corpos junto. 

Em resumo, basta que alguém desenhe ou pinte um céu bem bonito e promissor, ensolarado para uns, tempestuoso para outros (há os que cultuam o dark side, você sabe), de preferência com um espelho no centro e, pronto, lá se vai todo o rebanho rumo ao pasto celestial*. Na verdade, enquanto vão caminhando para lá, não percebem, mas estão sendo encaminhados ao matadouro. Há os que vão para um lugar chamado cadeia, que é onde se guardam as mais pobres que querem cortar caminhos ou os mais ricos que não pagaram propina a quem deveriam ter pago. 

A maior elevação, a que provoca maior êxtase, é experimentada pelo indivíduo que deixa a miséria do desemprego e passa a ser um miserável explorado pela sociedade capitalista. É a esse herói que eu e o governo brasileiro temos dedicado nosso tempo. Eu, o analisando nos últimos 30 minutos, o governo o bancando e, em alguns casos, o parasitando na última década
Ascender não é simples e algumas regras são fundamentais e necessárias

Quando você desenha o paraíso do topo das camadas sociais (la crème de la crème, para os franceses, the number one, para os estadunidenses), desenha, no mesmo instante, um território e, ainda no mesmo movimento, sugere um percurso para chegar até lá, com um mapa inteiramente grátis e, mais importante, um folder muito bem diagramado com um rol de metas a atingir e regras a ser seguidas. 

Aqui no Brasil, com inspiração numa mensagem desesperada de um ex-presidente da República*, em cadeia nacional, na qual ele implorava de joelhos para que as pessoas não parassem de consumir, de comprar e de se endividar, é possível traçar as seguintes orientações aos que querem entrar nas estatísticas do governo como ex-miseráveis:


Pense bem, você não pode ir ao encontro de Deus a pé ou de bicicleta.
Também não fica bem chegar no estacionamento do paraíso com essa
lata velha que você chama de carro e que Collor chamou de carroça, não é?
- A ascensão social se dá pela compra de eletrodomésticos, de objetos, de produtos diversos. 

Você deve comprar o que precisa, mas não exagere, pois há que sobrar tempo para comprar aquilo que algum dia você poderá precisar e, certamente, é fundamental comprar costumeiramente coisas das quais você nunca precisou, não precisa hoje, nem precisará amanhã. São elas que marcam a sua sofisticação, o seu refinamento e a sua elevação social e, é claro, espiritual. Se alguém chamar isso de “esbanjar”, chame o hospício ou, se a pessoa insistir, a polícia, não sem antes gritar por socorro. 

Comprar uma casa é bom, mas comprar um belo carro é melhor. Se você não tiver onde dormir, porém, compre uma casa ou um apartamento antes, ou use o dinheiro com o qual você ia comprar o carro para alugar um imóvel. Dormir no carro é possível uma ou duas noites, depois não dá. Depois, se você for casado e ainda tiver filhos, vai faltar espaço. 


Quando chegar a hora do apocalipse, uma boa TV de tela plana
garantirá diversão para toda a família. Você se sentirá como se
estivesse ali no meio do fuzuê previsto por São João no seu best seller
bíblico. Estará na beira do gramado, com narração de Galvão Bueno. 
- A ascensão social se dá pela melhoria da qualidade dos produtos comprados e dos serviços contratados. 

Você começa comprando produtos adulterados, vendidos no camelô, mas, com sua ascensão, se houver, você se verá, em breve, de acordo com seu esforço, comprando produtos de marca em lojas de subúrbio. Se prestar para alguma coisa na vida, poderá comprar na 25 de maio, em São Paulo, ou no Saara, no Rio. E se for realmente um vencedor ou vencedora, irá a Nova Iorque ou Paris, não sem antes algumas escalas nas lojas de Ipanema, do Barra Shopping ou daquele shopping curitibano no qual uma bolsa de gosto duvidoso custa vinte mil reais. 

Por que cito locais e não produtos específicos? Respondo. É para que você que quer se aventurar nesse fascinante jogo da ascensão social saiba de uma vez. O mundo é um moinho e vai triturar teus sonhos tão mesquinhos de que há assim tanta diferença entre um produto de camelô da Avenida Paulista e um produto de uma loja ali próxima à Champs-Élysées**. É tudo muito a mesma coisa, com raras exceções. As diferenças, na prática, é que alguns produtos são feitos por trabalhadores mal pagos na Tailândia, outros são feitos por subempregados chineses e há os produzidos por brasileiros que ainda recebem uma graninha do Bolsa Família para ajudar nas despesas. 

A senha para a qualidade do produto está essencialmente na marca. A marca é tudo e marca tudo. Se você usa boas marcas, está marcado pelo sucesso e pronto. Não discuta isso que é perda de tempo***.

- O sujeito mais elevado socialmente é aquele que tem 15 TVs, 25 computadores, 6 carros, não se sabe em que garage ou se estacionados pelas ruas. 

Os números, é claro, são fictícios, bem como a situação de estacionamento. Servem apenas para ilustração. Mas, como tudo é matemática e o Universo se decompõe em números, como o mago Pitágoras já dizia, você bem pode deduzir que conforme crescem os números também cresce a elevação e a importância social. 

Eis a chave do sucesso. Você precisa se endividar, precisa muito. Se não se endividar, não terá estímulo para prosseguir. O mundo gira e se uma borboleta bate as asas na Indonésia e há ondas no mar de Copacabana, é porque tudo tem relação, é holístico, um todo sagrado
Compre e compre e compre. Esse é o primeiro mandamento para a ascensão. O segundo é: compre seletivamente, se possível, gaste mais em menos coisas, pois assim estará mostrando que se contenta com pouco, que é quase um franciscano com sandálias de ouro e que tem um inequívoco compromisso com o futuro do planeta e das gerações vindouras. Responsabilidade social, cara! 


Se você seguir as instruções à risca isto tudo será seu.
Vizinhança tranquila e boas oportunidades de negócios o tempo todo.
Tudo por um precinho módico: sua alma. O pagamento
pode ser feito à vista ou em suaves prestações
durante toda uma existência. Se preferir, há
planos que incluem toda a eternidade.
Demora um pouco, mas um dia você acaba de pagar.
- Ascender socialmente é, além de adquirir produtos também adquirir dívidas. 

Eis a chave do sucesso. Você precisa se endividar, precisa muito. Se não se endividar, não terá estímulo para prosseguir. O mundo gira e se uma borboleta bate as asas na Indonésia e há ondas no mar de Copacabana, é porque tudo tem relação, é holístico, um todo sagrado, essas coisas. Logo, você precisa dos outros, precisa dever algo aos outros e os outros precisam retribuir isso devendo algo a você, num troca-troca surubático inesgotável. O mundo econômico é como um 69 que nunca termina, a não ser quando chega mais alguém e dois se unem para faturar em cima de um ou de uma, conforme os gostos****. 

- É, além de tudo isso, cultuar o esbanjamento, como uma justíssima vingança simbólica dirigida aos tempos em que os verbos racionalizar e racionar eram conjugados com muita frequência. 

A maior elevação, a que provoca maior êxtase, é experimentada pelo indivíduo que deixa a miséria do desemprego e passa a ser um miserável explorado pela sociedade capitalista. É a esse herói que eu e o governo brasileiro temos dedicado nosso tempo. Eu, o analisando nos últimos 30 minutos, o governo o bancando e, em alguns casos, o parasitando na última década. 

Você deve comprar o que precisa, mas não exagere, pois há que sobrar tempo para comprar aquilo que algum dia você poderá precisar e, certamente, é fundamental comprar costumeiramente coisas das quais você nunca precisou, não precisa hoje, nem precisará amanhã
Esse sujeito, quando consegue ter uma graninha, logo pensa em rasgá-la, pois que a relação que estabeleceu com o dinheiro durante boa parte da vida foi de ataque-fuga. Mas, é claro, se for são não rasga a bufunfa, pois que é inteligente o suficiente para saber que gastá-la é melhor. Mas, quando a voracidade é grande, podem acontecer casos em que no ímpeto do gasto, as mãos trêmulas rasguem algumas notas. Mas, isso qualquer fita durex resolve. 

É difícil para o ascendido da miserável condição de miserável ter uma relação tranquila com o dinheiro. Nunca é fácil. O dinheiro vem, mas custa a vir e quando chega já vai saindo, ou às vezes mesmo já chega pela metade ou nem chega, apenas os vestígios de que um dia existiu e que se reproduziu gerando mutações perigosas, as dívidas, que como se pode observar, são fundamentais e necessárias, mas que em grandes doses podem, inclusive, matar. 

Os chamados “novos ricos” costumam ser acusados de gastanças absurdas e irreais. Segundo seus venenosos detratores, gastos irresponsáveis e inúteis. Ora, como assim? Dar uma festa de aniversário que custe, digamos, uns cem mil reais para seu cachorrinho é algo que pode ser incluído nesse rol? Francamente. É porque você não conhece a gracinha que é aquele poodle e não sabe que um cachorro também é um ser humano como nós****. 

Agora você está concluindo este curso básico sobre como ascender socialmente. Espero que você aproveite as lições aqui transmitidas para ascender socialmente. 


Notas

* É claro que não é simples assim. Por isso são contratadas agências de publicidade, com diretores de arte sensíveis e redatores furiosamente criativos para fazer o desenho de forma consistente, eficaz e efetiva, ora!

** Você sabe quem. Se não sabe, deduza ou pesquise sobre o assunto. Se não quiser fazer nada disso, siga a leitura. 

*** Tá, você não sabe o que é “Champs-Élysées”, não é? Com certeza, ficou se perguntando que merda de palavrão é esse e até, quem sabe, me tirando por uma bicha insolente que fica falando difícil e citando lugares dos quais você só ouviu falar na TV ou em contos de fadas. Nada disso. Não sou bicha, embora um seja pouco insolente muitas vezes e bastante insolente algumas vezes. E, como sou bem legal, lhe explico que falava lá em cima da Avenue des Champs-Élysées, entendeu? É uma das mais famosas ruas de todo o universo habitado pelos humanos, não sabia? Pois é, fique sabendo, vá até o Google e pesquise que isso tá tudo lá. Ah, as árvores da Avenue des Champs-Élysées não são mangueiras ou bananeiras, essas coisas que pobre planta. São castanheiros-da-índia, ok? Castanheiros-da-índia! Coisa chique, você nem imagina do que se trata. 

**** Bem, confesso, há certo exagero nisso, mas apenas um exagerozinho de nada. Tem imitação que é imitação e pronto, mas há produto legal, cheio de si e de marca fodona que deixa a desejar. Venhamos e convenhamos que isso é verdade verdadeira. 

***** Ainda não tinha percebido que falávamos o tempo todo de economia? Ora, não se aperreie: a frase “É a economia, seu estúpido” foi dita a um candidato a presidente dos Estados Unidos. Se um sujeito elevado como ele pode ouvi-la, você também pode. Não, a imagem pornográfica é apenas ilustrativa. 

****** Se um ministro de Estado um dia disse semelhante disparate, isso passou a partir de então a ser algo possível e, em alguns casos, de caráter imexível. 

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