segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Movimento pelo bosque da Casa Gomm dá, em Curitiba, aula prática sobre o que significa o conceito de cidadania

Movimentos cidadãos se multiplicam e apoiam. Na foto, mensagem do pessoal
de Curitiba em apoio aos que lutam pela criação do Parque Augusta, em São Paulo.
Olhe as imagens. É uma boa ilustração para qualquer verbete enciclopédico acerca do conceito de “Cidadania”. Trata-se de excelente reportagem fotográfica de um acontecimento indispensável como exemplo de compromisso cidadão. Para ver todas as imagens e se informar sobe a iniciativa desse pessoal guerreiro, clique aqui.

Anotações breves sobre o conceito de cidadania

“Cidadania” significa algo como você exercer os seus direitos civis. Direitos civis, nós bem sabemos (embora os possamos definir de diferentes formas em diferentes palavras e contextos), é algo que gira em torno daquilo que define alguém como participante de uma comunidade, seja esta concreta ou real, quando se fala do grupo de pessoas que habita determinado local, ou imaginária, no caso da Nação.
O pessoal que aparece nas fotos tenta garantir um espaço de utilidade pública, peitando o poder do Capital, que quer ali uma nova rua com grande movimentação de veículos dirigidos, em boa parte, por obsessivos e vorazes compradores de junk food e outros venenos para o corpo e para a alma.
As mentalidades liberais muitas vezes puxam para si a autoria da conceituação de cidadania, provavelmente nos tentando fazer crer que o liberalismo político e econômico tem sua formação, identidade e fundamentação em berço grego. Aí falam em “poder pessoal”, como se o cidadão pudesse ser definido centrado na sua pessoalidade, ou seja, como se o sentido da existência dos direitos civis fosse salvaguardar a autonomia do indivíduo, o que não é exatamente uma tolice, mas uma proposta que induz a pensar tolamente, ou seja, faz parte do rol de discursos que designam os seus autores como muito espertos e os que acreditam neles como tolos.


Crianças participaram ativamente do processo de plantio da horta no
terreno fronteiriço ao bosque, que já sofreu bastante degradação
por conta da ganância dos proprietários do shopping vizinho
O conceito de cidadania remete ao coletivo, à vontade coletiva de um grupo que constitui uma comunidade, seja ela concreta ou virtual, como no caso das identidades formuladas em torno de um grupo de interesse comum não formado por vizinhos, mas por pessoas que gostam ou desgostam de algo ou alguém*.

A cidadania parece ser, como as imagens aqui divulgadas mostram, uma presença física e/ou em espírito em determinado tempo em um espaço, real ou virtual, no qual se configura uma proposta em prol do bem comum. Cidadania não é exatamente um indivíduo reunido a outros para conseguir vantagens para si próprio, mas indivíduos protegendo e garantindo a qualidade de vida do grupo, através do investimento em causas de interesse comum que tragam não exatamente vantagens a indivíduos, mas satisfação a todos.

União é a tônica e faz participantes descobrirem que
democracia não é simplesmente voto ou defesa de interesses
individuais: é participação coletiva em prol do bem comum
Recuperando a capacidade de influir no destino de todos

Esse é o espírito dos antigos atenienses, os criadores da democracia e que a criaram positiva, convidando o cidadão a dar sua contribuição na compreensão dos destinos da comunidade e, consequentemente, moldando os tijolos que serão usados na construção desse destino. Pode ser bem entendida a riqueza dessa proposta quando a confrontamos com a democracia liberal, que não convida a nada a não ser à prostração política da defesa infantil e egoísta da importância do próprio umbigo com a proposta da garantia dos direitos de ser indivíduo, quando na prática o indivíduo que conhecemos não passa de uma criação da cultura de massa.

Caberia ao Ministério da Saúde alertar que a Democracia Liberal, graças à omissão do cidadão, acarreta a proliferação de aves de rapina, ratos e percevejos nos gabinetes políticos. A democracia precisa ser positiva ou não existe, é ditadura com disfarce e, para mim, os defensores do bosque da Casa Gomm estão rasgando a máscara da ditadura liberal, a ditadura do pastiche e do dinheiro.

Em São Paulo, a luta é pelo Parque Augusta
Peitando o Capital e rejeitando junk food

O pessoal que aparece nas fotos se esforça para mostrar isso e, na prática, tenta garantir um espaço de utilidade pública, peitando o poder do Capital, que bem gostaria de ali abrir uma nova rua com grande movimentação de veículos dirigidos, em boa parte, por obsessivos e vorazes compradores de junk food e outros venenos para o corpo e para a alma. 

Em lugar de hambúrgueres e refrigerantes, eles plantam legumes e verduras. Em lugar das crianças burras que passam diante da TV ou de aparelhos diversos seus melhores momentos, eles incentivam as suas crianças a aprender as lições da natureza. Em lugar de desfilar em corredores refrigerados e perfumados artificialmente, eles se ajoelham e sentam na terra que lhes pertence por direito, pois mesmo os liberais reconhecem que antes dos direitos civis estão os direitos naturais.

Em outras palavras, antes de sermos parte de uma comunidade, com direitos e obrigações de nós para ela e dela para conosco, somos humanos, somos parte de um todo que muito chegam a designar como “a” divindade e estamos irmanados não por razões, argumentos ou crenças, mas pelo simples fato de habitar um corpo.

Em parte, entendo que esse pessoal também se manifesta a favor da positividade democrática e não acredita na historinha de que o que vale mesmo no mundo é o interesse do indivíduo. Apostam na comunidade e, ao agir, transmitem uma mensagem educativa clara, uma espécie de Paideia.

No fundo, o shopping acusado de ter
destruído boa parte do bosque e que,
se pudesse, há quem diga
que destruiria o que restou.

E isso parece bem provável.
Cultura é sinônimo de dignidade e nobreza, não de corrupção

Paideia é a estratégia, fundada na educação, usada na antiga Grécia para gerar a cultura. E a cultura, para os inventores da democracia, deveria ser algo digno e nobre, bom para todos e libertador. E a cultura tinha seu sentido de existência como definição de um legado que uma geração deixa para outra.

Já a mídia de massa de nossos dias tenta nos convencer de que cultura é meramente o consumo de produtos que trazem o rótulo de “culturais”.

O pessoal que está aí nas fotos dá um bom exemplo de como a cidadania é fundamental, realçando nesta as cores da participação coletiva nos destinos da cidade. Da mesma forma, se percebem cada vez mais, aqui e ali, atos e fatos que comprovam que a ideia está espalhada:

- Também na cidade de Curitiba, a adoção de uma praça pública por parte da Escola Terra Firme, no bairro Hugo Lange, é apontada como bom exemplo de ação cidadã e de estratégia pedagógica para orientar crianças e adolescentes no sentido da consciência ambiental e do real sentido do termo “cidadania”.

- Em São Paulo, como na luta dos cidadãos do Parque Augusta.

- No Rio de Janeiro, nas manifestações de rua, as maiores e mais reprimidas do país, que enfrentaram nada menos que a polícia que mais mata em todo o mundo, certamente a polícia menos cidadã do planeta, simplesmente porque identifica no cidadão o seu inimigo.

E por aí seguem os movimentos sociais,

A crença é que o contato com a terra e demais elementos naturais,
pode favorecer que as crianças cresçam menos voltadas para a
sofisticação da artificialidade que caracteriza sociedade de consumo
Más ações fazem barulho, boas ações fazem eco

A classe política começa a ser pautada por essa gente e vai pondo as barbas de molho, pois predominantemente se encontra comprometida como as mentiras da democracia liberal, a democracia negativa, a que não convida à participação, muito pelo contrário. A classe política, com raras exceções, tem defendido os interesses de uma minoria e massacrado todos os demais. Nas mídias sociais as denúncias e a insatisfação em relação a isso vêm crescendo com estardalhaço.


Parabéns a esse pessoal que tem se reunido em torno de boas ações que conseguem produzir tanto eco. Graças a vocês a realidade vai se tornando menos cruel para os que creem num mundo melhor. E, que me desculpem os céticos, mas imaginar e crer num mundo melhor não é somente possível, como necessário. 


*  Há quem sugira que isso não é comunidade e sim "grupo de interesse", se ancorando em boas razões teóricas e conceituais.

Um comentário:

  1. Olá Geremias. Estou escrevendo um livro sobre Curitiba e seus movimentos cidadãos e seu texto foi o MELHOR que encontrei na rede. Você me autoriza a usá-lo integralmente, com o devido crédito? Caso deseje ter mais informação sobre mim, meus fones são (41)3058-5353 e 9145-5655. Estou em viagem ao exterior na 2a feira e fico fora 50 dias. Mas, daí, vc me acha no meu email particular eliel.rosa.2011@gmail.com. Aguardo seu contato e agradeço por sua atenção!

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