quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Facebook é apenas mais um recurso de controle subjetivo

Subjetividade tem sido patrocinada e
política comercial de identidade de
marca é estratégia fulcral no processo
Leio texto intitulado “10 razones para abandonar Facebook en 2014”. Se também quiser ler, clique aqui

Na verdade, não é um texto, mas, como dito no título, um arrazoado em 10 tópicos tratando dos motivos pelos quais o Facebook seria uma grande roubada. 

As razões seriam principalmente a exposição desmedida à qual os clientes do Facebook estão submetidos e ao conhecimento acumulado do sítio acerca da vida de seus clientes. Ou seja, falamos de ameaças sérias à intimidade e à privacidade. 

Mas, o quê? Olhe em torno e observe como se forma a identidade no mundo contemporâneo. O Facebook não é muito mais pernicioso do que um bar ou um salão de beleza. Na prática, o indivíduo contemporâneo forma sua identidade pela identificação, isto é, pela adesão a padrões de comportamento que são propostos para além das individualidades ou grupalidades e vêm de outro plano que se poderia dizer localizado acima de nossos esforços para obter uma identidade. São ideias prontas e papeis predeterminados que só vêm confirmar a já antiga tese de Felix Guattari de que a individualidade é sempre “de massa”. 

Encontros para perder a si próprio

No mundo da multidão, os indivíduos precisam se encontrar muito para poder ter acesso a discursos que lhes dizem quem são e reforçar, assim, esse discurso para dentro (formando a identidade identificada) e para fora (confirmando a lógica discursiva estruturante da identidade identificada). Quem conhece a lógica especular da teoria lacaniana sobre a formação da identidade pode entender bem do que se fala. 



Na cultura de massa contemporânea, os indivíduos se encontram basicamente para saber quem são, ou, por outro ângulo, para não saber quem efetivamente são ou quem poderiam ser se buscassem a singularidade. 

A estrutura é a seguinte:

1. o sujeito se sujeita a um discurso que o transcende, a cultura, que, por sua vez, está dominada por discursos que a aprisionam em padrões; 

2. esse discurso cultural é compartilhado como se fosse “naturalmente” nascido entre pares, criado por estes em negociações emocionais e racionais, mas, claramente, o discurso cultural não é jamais natural e não nasce espontaneamente: tem patrocínio;

3. a fala cultural dessa natureza cria o que os psicanalistas chamam de “falso-self”, ou seja, uma estrutura egóica que funciona como um telhado sem vigas que o sustentem, o que leva o sujeito à obrigação de construir perenemente frágeis suportes referidos a falas e imagens oferecidas pelo sistema cultural de agenciamento de subjetividades, uma atividade geradora de “pessoas-massa”. 

De certo modo, então, os indivíduos contemporâneos se encontram bastante para se perder a si próprios.

"Alterdireção" e subjetividade de massa


Um mundo no qual "curtir" é a regra (um "fun system",
segundo Baudrillard) e a impressão dos outros sobre
nós é mais importante do que qualquer princípio ou valor
David Riesman sugeriu, aí pela metade do século XX, que vivemos em uma época “alterdirigida”, isto é, na qual a opinião do outro sobre mim é determinante para formar minha identidade. Parece que estava certo e o Facebook é apenas um recurso criado por, pela e para essa lógica “alterdiretiva”. 

Talvez o fato de que no Facebook tudo é documentado, como acontece costumeiramente na internet, seja a grande novidade. Talvez aí esteja a gravidade do mundo que nasce com esse aprimoramento do controle de massa que a internet traz. Gravidade em dois sentidos: em um, grave no sentido de algo que deve ocupar nossa atenção, pois pode ter efeitos deletérios em nossas relações conosco mesmos e, é claro, nas relações sociais que deixam de ser sociais para se resumir a solilóquios cruzados; em outro, gravidade no sentido do que ata e amarra a um planeta e, por associação metafórica, a um sistema de representações que já se torna planetário. 

Não adianta, assim, simplesmente deixar o Facebook. Este é emblemático de uma forma subjetiva de massa que se desenvolve há mais de um século e, apesar de representar um avanço no controle da subjetividade, é apenas mais um recurso a serviço desse controle. Outros, com certeza, virão. 

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