quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Divagando no tempo perdido sobre uma casa de madeira que tombou em Curitiba (Não, não foi tombada: tombou) (1)

Mais uma casa de madeira tomba em Curitiba e o pessoal saudosista lamenta. Ok, é chato mesmo. Eu, que nasci em Copacabana (RJ), vi aquele bairro se transformar no que é hoje e lamento muitas das mudanças ocorridas. No tempo de minha infância, havia até casinhas ali na Duvivier, a rua do Beco das Garrafas, local no qual surgiu a Bossa Nova e que se transformou, na sequência, em beco da sacanagem, salpicado de pequenas boates de strip-tease. 

Chama a atenção, porém, um detalhe: alguém escreve sobre a casa derrubada e argumenta que o proprietário tinha direito de derrubar, que é patrimônio seu, supervalorizado e coisa e tal. É, está certo, a gente compreende. Mas, é curioso que pensemos sempre nesse tal patrimônio, na propriedade privada (dizem que o nome se origina do fato que, ao ter uma propriedade só sua, você “priva” todos os outros humanos – salvo exceções, do uso dessa propriedade). 

Longe de mim dizer que a comunidade ou a sociedade deveria ir lá e impedir o tombamento da propriedade do fulano. Os que disseram isso foram taxados de comunistas em outros tempos e perseguidos. Hoje, no entanto, são governo, faturaram uma boa grana com essa perseguição e ainda mandam perseguir todo aquele que levanta a voz para criticá-los. 


É meu!

O que quero dizer é que essa mentalidade de que é “meu” e faço o que quiser com o que é meu não é civilizada. Por motivos óbvios: civilização tem relação com valores culturais, sociais e técnicos/tecnológicos, não é? Com “tem relação”, quero dizer que tem a ver com adquirir e conservar esses valores. 

O cara derruba a casa para o quê? Se for para faturar e construir um edifício (é uma área valorizada, dizem), não tem civilização aí, tem interesse econômico, grana, desejo de aumentar a conta bancária ou coisas parecidas. Tem barbárie, o que é tão diferente de civilização que chega a ser o oposto. 


O "Palácio dos Loucos", como era chamado o
Hospício da Praia Vermelha, hoje campus da UFRJ,
tombado por Leonel Brizola quando governador 
Mais barbárie que civilização

Aí, alguém diz: “Ah, mas a casinha de madeira está cheia de histórias... Ah, mas os lambrequins... Ah, mas o patrimônio cultural...”. Tudo bem, mas se o caso é dinheiro, não tem nada disso aí. E se há esse poder do dinheiro, que passa por cima de tudo, então isso é coisa de bárbaros, quem sabe trogloditas. Mas, não se assuste, são eles que estão mandando. 

Em suma, o sujeito entende que houve a demolição por conta do patrimônio individual, certo, põe esse tal patrimônio individual acima do coletivo, não se revolta. Ok, em algumas rodas isso pode ser chamado de “sensatez”, sem dúvida. Mas, não parece um bom cordeiro pronto para o abate? Não estará confirmando o que Nelson Rodrigues disse, num momento de inspiração? Ele disse: 
“O grande acontecimento do Século (XX) foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”. 
Não é idiotice defender a barbárie como se fosse algo naturalmente civilizatório? 

Talvez não seja e eu estou redondamente enganado. 


A falecida Praia da Saudade, onde hoje está o Iate Clube,
um espaço público privatizado: era de todos,
agora é de poucos, que privam a todos de seu usufruto
Antigamente, os escravizados lutavam por liberdade

Não, não sou socialista, só ando observando as contradições da realidade na qual vivemos, notadamente das falas e discursos. Tem gente por aí defendendo a liberdade, certo. Aí, você chega perto e percebe que essa gente usa algemas e se orgulha disso. Por conta dessas percepções que entendi uma coisa: a diferença entre os escravizados de antigamente e os escravizados de hoje é que aqueles lutavam pela liberdade. 

Em suma, não acho que deveríamos necessariamente ir até o terreno do cara e impedir a derrubada da casa. Só não vou dizer que acho muito legal e normal isso por conta de ser patrimônio individual. 

Sei bem o que o sujeito que disse isso quis expressar sensatez (nada contra ele), mas parece que sendo sensatos assim, tanto tempo e de tantas maneiras servis, acabamos dando espaço demais para a insensatez. 

=======================================

(1) Essa história de casa tombar me lembra uma história vivida e bem engraçada. Pelo menos achei engraçada no momento em que aconteceu. Como não sei se você vai achar o mesmo, ponho a historinha aqui, no fim, para lhe dar claramente a alternativa de não querer saber de nada disso. 

Era uma vez, um dia, um domingo na praia, sol, mar, essas coisas. Tudo isso ali em frente ao Copacabana Palace, quer dizer, em frente à Rodolfo Dantas, uma rua ali de Copa. Estava eu sentado numa cadeira não sei de quem lendo um jornal, o Jornal do Brasil, o popular JB. O jornal eu sei de quem era, pois o dono do jornal me acusou de tê-lo roubado durante anos. Claro que fazendo comédia, mas o fato é que, se bem me lembro, tentei devolvê-lo, mas o mesmo que me acusa havia desaparecido da praia. Segundo ele, tinha ido atrás de mim procurar o jornal. Deixemos isso para lá.

Mas eu lia o jornal e havia uma manchete dizendo que o governo do Estado iria tombar o prédio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, aquele que foi um monumental hospício nos tempos do Império, tão belo que, defronte à falecida Praia da Saudade, era referência arquitetônica a ser notada pelos que adentravam o Rio de Janeiro pelo mar*

O Darcy Ribeiro, vice do Brizola naquele tempo, aí por 1983**, havia discursado muito acerca da importância da preservação do patrimônio histórico carioca, pois havíamos passado por um tempo de destruição do passado, de “Brasil Novo”, durante a ditadura militar. O que se destruiu de prédios antigos naquele tempo não foi brincadeira.

Bem, o jornal dizia em manchete que o governo iria tombar o prédio da UFRJ. Aí, uma amiga chamada Ieda me pergunta: “Mas, Luiz, o Darcy Ribeiro não se elegeu dizendo que ia preservar o patrimônio público e coisa e tal? Como é que o governo vai tombar o prédio da Federal, agora?”. 

Rapidamente, entendi o problema com o termo “tombar”, realmente dúbio nesses casos. Expliquei a ela o que significava “tombar” no caso e ficou tudo bem. Mas rendeu muita gargalhada, ironicamente dela, que ao perceber a confusão, riu muito. 

* A Praia da Saudade hoje é um clube de gente bem rica, acho que se chama Iate Clube do Rio de Janeiro, mas não quero nem saber. Mais um exemplo de espaço público privatizado, como tantos.

** Leonel Brizola foi governador do Rio de 1983 a 1986 e, depois, mais uma vez, acho que em 1991, ficando até 1994, quando deixou o cargo para concorrer à Presidência da República e Nilo Batista, o seu vice naquele segundo mandado, assumiu. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário