quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A vida é uma corrente, às vezes um moinho, disse o profeta e se calou para um rolezinho

Noutro dia, estava andando a esmo pelas ruas quando encontrei um profeta. Ele me saudou como fazem os profetas, com um breve sinal com a mão direita. 

Sem que eu lhe perguntasse nada, começou a falar. 

E eu, humildemente, ouvi o que o profeta tinha a dizer. 

Segue, abaixo, a íntegra da fala do bom homem, que não usava barba, nem bigode, não tinha os cabelos longos ou curtos, mas apresentava sobre a cabeça uma touca como essas que usam os bebês sem cabeça citados por Caetano Veloso em uma antiga música. 

Portanto, não se iluda com a imagem ao lado. É meramente ilustrativa. 

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Carros, automóveis, camionetes, caminhões e motocicletas são muito mais importantes
que gente, ora! E os donos desses veículos diversos valem algo, pois têm algum
tipo de riqueza acumulada, o que os confere o status de passíveis de ser explorados.
O pessoal do rolezinho, para o pessoal do shopping, não é explorável. E não há
praticamente nada que eles possam fazer para ascender ao mundo dos exploráveis.

Assim falou o profeta...
Seria engraçado, se não fosse um tanto trágico

O pessoal do rolezinho não pode entrar nos shoppings, esse pessoal é pobre e, não raramente, vive em habitações ditas pobres, muitas vezes barracos em favelas. 

Aí, acontece uma coisa engraçada. Quer dizer, não é engraçada, muito menos para o pessoal mais pobre, o dos rolezinhos, de modo geral. 

O caso é que o pessoal que proíbe a entrada no shopping pega e manda, quando quer, entrar na favela e tirar o pessoal de lá, assim, na maior, na porrada se for preciso, ou até mesmo aleijando e matando, não importa. E sabe para o quê? Para fazer estacionamentos. 




A imagem dispensa legenda
Morra como cidadão para fazer nascer o consumidor que há em você

Carros, automóveis, camionetes, caminhões e motocicletas são muito mais importantes que gente, ora! E os donos desses veículos diversos valem algo, pois têm algum tipo de riqueza acumulada, o que os confere o status de passíveis de ser explorados. O pessoal do rolezinho, para o pessoal do shopping, não é explorável. E não há praticamente nada que eles possam fazer para ascender ao mundo dos exploráveis. 

No mundo contemporâneo, você só sobrevive se morrer como pessoa autônoma e mesmo como cidadão, para nascer no mundo do consumo, sendo batizado com Coca-Cola, num mar de etiquetas. E como eu considero o exposto no último parágrafo algo como a essência da estrutura lógica da sociedade do consumo, tenho que recusar aceitar o vínculo positivo entre consumo e cidadania. Mas, falemos disso mais adiante. 





Ora, cá para nós, há muito que é assim e o que o pessoal
do shopping está tentando fazer é garantir que
“tudo está no seu lugar, graças a Deus, graças a Deus”,
como cantava Benito de Paula, repetindo o “graças a Deus”
para se certificar que Deus estaria ouvindo e
manteria tudo segundo sua ordem e semelhança.
Tudo está no seu lugar

Quer dizer, o pessoal do rolezinho é duplamente prejudicado. Não pode ir aonde quer e tem que aturar as tropas do pessoal que proíbe entrar no shopping. Elas vêm pra cima com gana, com muito ódio e não querem saber de conversa. É humilhação, porrada livre, tiro de escopeta e até mesmo execução sumária com tiro pelas costas, se o dedo do polícia estiver coçando muito. 

A mensagem é: o pessoal do rolezinho (ou, resuma-se, os mais pobres, financeiramente falando) não tem que ter direito a porra nenhuma. Já tem a vida, já é muito, e tem muita gente que acha isso até demais. Ora, cá para nós, há muito que é assim e o que o pessoal do shopping está tentando fazer é garantir que “tudo está no seu lugar, graças a Deus, graças a Deus”, como cantava Benito de Paula, repetindo o “graças a Deus” para se certificar que Deus estaria ouvindo e manteria tudo em ordem. 

Tudo como deve ser, mas não para sempre

Para garantir o “tudo como deve ser”, foram planejadas e construídas máquinas de guerra, como as polícias militares (as PMs), aparelhos de ação letal cujo alvo usualmente é o corpo marcado dos negros, notadamente se forem pobres, mas cuidado que nada pode garantir que os demais estão em segurança. 

Os colonizadores, os descendentes de “boa estirpe”, os que têm pedigree e tiveram herança, lutam para garantir e, se possível multiplicar, os valores (materiais e imateriais) recebidos como herança de outros que também tentaram costumeiramente deixar as coisas como elas devem ser e usaram recursos muitos semelhantes aos usados hoje. 

Tropas de dominação colonial sempre foram comuns e continuam sendo no Brasil, vide a citada PM, bem como a cooptação de agentes para divulgar, entre as tropas inimigas, a propaganda que diz que é melhor se render e apanhar de vez em quando, sendo subserviente, do que levar uma bala na cabeça na primeira oportunidade. 



Quem aceita a lei, pode fazê-lo por preguiça (ou por outro motivo, nobre ou não) e não
tomar conhecimento dela a não ser como algo ao qual precisa dar conta em determinado
momento para que não lhe encham o saco. Não é o caso de quem a nega e a transgride
proposital, costumeiramente e se orgulha disso. Quem faz isso está prestigiando a lei,
transformando em norte de sua vida. Convenhamos que é prova de muito amor.
Ama a lei todo aquele que a transgride

É mais ou menos isso que faz o pessoal que rouba para “botar um Nike no pé”. Na prática, a maior parte dos contraventores está mancomunada com o poder e vende sua imagem (a do poder) como a única possível. É isso que o bandido que se orgulha de ir contra a lei faz: confirma a lei, sua inevitabilidade, aceitando-a ou não aceitando-a. Ao não aceitá-la, lhe agrega valor, pois confessa que por ela é comandado, mesmo ou principalmente ao negá-la e transgredi-la. 

Quem aceita a lei, pode fazê-lo por preguiça (ou por outro motivo, nobre ou não) e não tomar conhecimento dela a não ser como algo ao qual precisa dar conta em determinado momento para que não lhe encham o saco. Não é o caso de quem a nega e a transgride proposital e costumeiramente e ainda se orgulha disso. Esse, ou essa, a está prestigiando, a transformando em norte de sua vida. Convenhamos que é prova de muito amor.



Pois é. Você pensava que moinho servia só para enfeitar a
paisagem, ser pintado em quadros famosos e servir de
referência icônica dos países baixos, não é? Não, observe o
nome: "moinho" vem de moer. Por isso Cartola canta:
"O mundo é um moinho/ vai triturar teus sonhos tão mesquinhos/
Vai reduzir as ilusões a pó (...)". Isso serve bem para o pessoal
anti-rolezinho. Se você é um deles, bote as barbas de molho.
A corrente, o moinho e a ditadura de uma tal Modernidade

Mas, como uma corrente irresistível, tem se desenvolvido, perenemente e de forma progressiva, um moinho de triturar as certezas. E é aí que começam os problemas do pessoal do shopping, o que manda reprimir porque quer tudo no seu lugar, “como deve ser”. 

Alguém pode muito bem dizer, teorizando, que isso tudo é apenas uma característica de um tempo histórico chamado de Modernidade, que já perdeu, aliás, os limites e parece ousado o suficiente para abarcar toda a história. Nele, tudo o que é deverá deixar de ser por conta da importância que a contradição e a destrutividade têm no seu construto lógico. Sem conflitos de todos os tamanhos, micropolíticos na maioria, a macropolítica contemporânea não anda, não se move. 

Há uns 3 mil anos, sei lá, Heráclito de Éfeso já dizia que tudo é conflito.
Muito antes de quase tudo, o filósofo teve a genial "sacada":
você jamais mergulha no mesmo rio duas vezes, pois as águas fluem.
A reação às ideias de Heráclito foi radical e desesperada, ao ponto de
Zenão de Eleia ter inventado uma fábula na qual Aquiles, o herói grego,
chega a perder uma corrida de velocidade contra uma tartaruga.
Heráclito falava da instabilidade; Zenão, Parmênides e outros
queriam somente falar da estabilidade, custe o que custar.

Nada é como é e tudo se move no conflito

E, assim, mais cedo ou mais tarde, os shoppings serão abertos para rolezinhos e mais o que os pobres quiserem lá fazer. Eles já se dizem ascendidos às classes médias, pois têm renda garantida e podem desfrutar, ainda que de forma humilde, da sociedade de consumo, logo, cuidado shoppings, o tempo não para. 

O que incomoda um pouco é pensar que os pobres do rolezinho de hoje serão provavelmente os que mandarão fechar shoppings (ou outros espaços) no futuro, para que outros diferentes deles não possam desfrutar do mundo supostamente criado e mantido por eles, os repressores. 
Assim caminha a humanidade, não é? Deixarão de ser pobres, como boa parte dos que chamam a polícia para reprimir o rolezinho deixaram de ser ou assistiram seus pais deixar de ser. 

Aí, se transformarão em algo considerado quasimodesco pela ciência: os novos ricos. Também conhecidos como "emergentes" ou "arrivistas". Se você não sabe o que é, olhe no espelho ou em volta. Se ainda tiver dúvidas, recorra a um dicionário. 

Tese, antítese e síntese, como fugir disso? 

Pois é, a vida se passa dentro de um castelo de cartas marcadas. Quem as marcou o fez
para ganhar. Qualquer semelhança com a práxis dos liberais e neoliberais, não é mera
coincidência. Se o Estado não se mete na economia, eles ganham; se não ganham, o
Estado se mete a favor deles. O jogo se chama: eu ganho, você perde, sempre.

Jogo marcado, vitória certa

Caminhamos estranhos percursos, que trazem sempre boas e más experiências, bons e maus ensinamentos e aprendizados. 

O tal moinho da modernidade põe em confronto a segurança das certezas tradicionais. O jogo envolve dois times: 

1) o que joga com os olhos voltados para o passado, com a tática baseada na segurança do “é pelo motivo de que é e só pode ser”;

2) o que projeta suas apostas para o futuro, objetivando a destruição do passado que lhe é (ou foi) desfavorável e limpando o terreno para a construção daquilo que essa gente chama de “novo” – mas, que deixará de ser pouco depois de ser criado e construído. 

As condições climáticas, o estado do campo, a torcida e, não raro, o juiz, todos estão do lado do futuro, no fim das contas, embora nem sempre isso seja flagrante. 

E quando isso acontece, há a certeza da vitória. A vitória mais garantida é aquela que nasce feita. 

O profeta não disse, mas eu digo: a diferença entre os
antigos escravizados e o cidadão contemporâneo é
que aqueles lutavam pela liberdade acima de todas as
coisas, enquanto estes lutam para ser escravizados. 

Libertação pelo consumo

Assim se ganha o jogo e o rolezinho de hoje é o prenúncio de mais uma derrota para o pessoal que se julga claramente dono do mundo, do mundo que acredita ser seu (pois, segundo suas convicções, é preciso juntar tudo o que existe ao rol das coisas que acredita ser suas) e entende que o pessoal do rolezinho não deveria existir. 

Nada que parece sólido será poupado de sua dissipação. Ou entendemos isso, ou nada entendemos.

É fato que essa gente “rolezeira” existe, sim, e, pior, está em ascensão. Na verdade, sob certo ponto de vista, está mesmo na moda. 

Se, por um lado, isso significa um avanço inequívoco, por outro, desperta uma maldição, que é bem representada pela estratégia de investimento social adotada pelo governo brasileiro: a libertação se dará pelo consumo, não pela cidadania. 

E não é à toa que o embate se dá no templo do consumo.

O pior de tudo é que antigamente, se alguém quisesse
que você fizesse propaganda de algo, teria que lhe
pagar para que você desfilasse com um cartaz e/ou
com uma etiqueta de uma marca qualquer.
Hoje, em nossos tempos cheios de conversa sobre
cidadania e o escambau, é você quem paga para
usar a etiqueta de uma marca. Você faz propaganda
e ainda paga por isso. Muitas vezes muito caro.

Misturar consumo e cidadania? Ora, não obrigado, mas se não tem outro jeito...

Embora muitos vejam com muito bons olhos a relação entre consumo e cidadania, sugerindo que esta terá que se adaptar ao canal proposto pela estrutura capitalista do consumo, eu me declaro cético, pelo menos levando em conta a experiência que tive até hoje e observando os parâmetros do conhecimento acumulado (não exatamente por mim, que embora já velho e gasto, não tenho suficiente tempo de vida para ter visto o suficiente). 

Para mim, o consumo (sua lógica estruturante) é o oposto do que conheço como cidadania, ou seja, tudo o que tem raízes na participação política e no interesse pela coletividade, acima do bem individual. 

No entanto, minha vontade e minhas crenças e interpretações não valem muito, porque não podem mudar o curso da história e são frutos claros de instantâneos de momentos, conjunturas. 

No curso de nossa história recente, essas coisas incongruentes estão cada vez mais misturadas, ao menos nas falas. E me parece até mesmo fascinante perceber que como a lógica estruturante do capital consegue unir produção e destruição num mesmo ato contínuo, não encontra tanta dificuldade assim para unir harmoniosamente supostos opostos como o consumo e a cidadania. 

Parece exatamente ser esse o motor que põe em movimento a máquina de pensar do Capital. Aliás, mais precisamente, parece ser exatamente esse motor que põe em movimento a máquina de repensar pensamentos do Capital, ou, em muitos casos, de “despensar” pensamentos. 

Nada é o que parece ser, esse é o problema de um mundo em que nos orientamos por identidades e identificações especulares. 

Não combata, se alie, eis a lição

Como já se disse, o capitalismo é o sistema dos conflitos, o sistema da transgressão e da rebeldia. Nele, nada é sólido e, ora, Marx e Engels já disseram isso, não é novidade. 

O que, porém, boa parte de nós não entendeu é que até mesmo quem o combate o fortalece e, em alguns casos, principalmente quem o combate. 

Há os que aprenderam a lição, ou acham que entenderam. Uma médica escreve num sítio jornalístico no qual havia algum texto escrito sobre o Partido dos Trabalhadores, o PT, atual inquilino do Palácio do Planalto, sede do governo brasileiros: 

“O PT foi a melhor coisa que aconteceu no Brasil. Sou filiada desde 1993 e morava em um sobradinho alugado. Depois da eleição do Lula, consegui um cargo comissionado no governo Federal e pude, no horário de serviço, terminar minha faculdade de medicina. Moro no Morumbi agora e acho que a elite putrefata das décadas anteriores altamente perniciosa para o Brasil. Viva os trabalhadores que, como eu, conseguiram subir na vida. Viva o PT.”

Ela confirma o que disse um dos fundadores do partido, que bem conhecia com quem estava lidando: 

“Não se iluda, meu filho. Eles (membros do PT) não são de esquerda. São sindicalistas que querem melhorar de vida. Mas isso já é um avanço”, disse o pai e deputado constituinte, Florestan Fernandes, ao filho Florestan Fernandes Jr.

Mas, perceba, os antigos sindicalistas que queriam, e conseguiram, mudar de vida, hoje se calam e, claramente, consentem com a repressão ao pessoal do rolezinho, assim como são aliados do grande capital e apoiam governantes com gravíssimas suspeitas de usuais práticas de corrupção, além de outros com indicações bem mais nítidas e cristalinas de maus atos na vida pública. 

Acusada de ser corrupta, a carne foi autuada em flagrante. 

Corrupção inevitável?

Eles talvez pretendam confirmar o adágio que aponta a criatura humana naturalmente desprezível, sentenciado por São Paulo, quando dizia que a carne é corrupta. Só não deveriam esquecer do elogio feito pelos mesmo filósofo cristão ao espírito. 

Talvez estejam a serviço dos que entendem que não devemos ter valores, mas preço. 

Em todo caso, é possível que estejam hoje “por cima”, mas o moinho do tempo se encarregará de triturá-los, bem como suas certezas tão certas em relação ao que são e ao que fazem. Do exato modo, ou bem semelhante, como hoje trituram os que lhes oferecem algum tipo de resistência. 
Amém!

Ninguém para a corrente, ninguém sobrevive ao moinho

Pois é mister saber que a corrente precisa fluir e que o moinho não tem olhos nem coração. Tritura o que encontra em seu caminho e quem o aciona hoje será sua vítima num futuro não muito distante. 

Assim disse o profeta e assim se calou, alguns segundos depois... 

Eu, que nada digo e tudo escrevo, me mantive em silêncio. E assim me mantenho ao registrar as palavras do profeta. 

Nihil esse quod unquam fuerit, in saecula saeculorum, amen*. 

* Nada há de ser o que sempre foi, pelos séculos e séculos, amém.

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