quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

2 Poemas - Augusto dos Anjos & Miguel Torga


Contrastes

A antítese do novo e do obsoleto,
O Amor e a Paz, o ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

As alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!


Angusto dos Anjos, autor de um único livro, "Eu"





Viagem

É o vento que me leva. 

O vento lusitano. 

É este sopro humano 
Universal 
Que enfuna a inquietação de Portugal. 

É esta fúria de loucura mansa 
Que tudo alcança 
Sem alcançar. 

Que vai de céu em céu, 
De mar em mar, 
Até nunca chegar. 

E esta tentação de me encontrar 
Mais rico de amargura 
Nas pausas da ventura 
De me procurar... 

Miguel Torga, in 'Diário XII'

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