terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Vixi! Chamaram o Lula de dedo-de-seta

Líder petista teria colaborado com o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), entidade do aparelho de Estado repressivo criada em 1924, mas muito utilizada durante a ditadura militar brasileira, que durou de 1964 a 1985. Livro de Tuma Junior fornece munição pesada para esquentar a disputa eleitoral. 

Um livro de um sujeito chamado Romeu Tuma Junior, que por acaso foi ex-secretário nacional de Justiça nomeado por Lula, virou a atração de fim de ano. Com certeza, vai vender que nem água no meio do deserto, ainda mais que vem aí o Natal e nada como presentear alguém com um livro-bomba. Não chegou às livrarias, mas já tem fila esperando e político botando as barbas de molho, quase literalmente. 

O nome do livro é “Assassinato de Reputações - Um Crime de Estado” e trata do lado ruim do governo petista, por isso está sendo exaltado e promovido pela Veja, na figura do intelectual orgânico de proa do antipetismo, Reinaldo Azevedo. E a tucanada já avisou que quer Tuma Junior lá no Congresso Nacional contando detalhes sobre o publicado. 

Talvez, porém, o que haja de mais contundente no livro, embora não surpreendente, é que atinge o ex-presidente e líder do PT com um torpedo avassalador: Lula, sob o codinome de “Barba”, teria sido informante da repressão na época da ditadura. Isso mesmo, um cagoete, um detestável X9 que pode ter feito companheiros serem levados para as celas e salas de tortura. 


Será ele o "Barba"?
Golpe

É uma obra moldada para o sucesso, lançada no fim do ano, na véspera do início da pancadaria eleitoral e com promessa de revelações bombásticas feitas por uma figura pública que não pode ser chamada assim de insignificante. Não dá para simplesmente dizer: não vale a pena falar sobre esse assunto porque o informante é desqualificável. Não é. 

Não sei bem se, como os petistas dizem, o livro é um golpe matreiro e mentiroso contra Lula e o PT. Mas, com certeza, neste momento, se pode dizer que é um excelente e oportuno golpe comercial. Havendo posteriores investigações sobre as denúncias, poderemos saber se é uma armação.


Romeu Tuma Junior
Figurões na mira

O cardápio de denúncias contra o governo inclui o nunca esclarecido assassinato de Celso Daniel, o prefeito petista de Santo André (SP), a criação de dossiês, o uso político partidário da Polícia Federal, contas secretas nas Ilhas Cayman e, é claro, minúcias sobre o mensalão. 

Um dos que estão na mira é Gilberto Carvalho, atual secretário-geral da Presidência, mas que estava na prefeitura de Santo André na época em que apagaram Celso Daniel. Carvalho não gostou da brincadeira e já disse que está de mal, nunca mais fala com Tuminha (apelido de Tuma Junior) e vai processá-lo por calúnia e difamação. 

Mas o figurão que deve estar se sentindo mais ameaçado é exatamente Luiz Inácio “Lula” da Silva, ex-presidente da República por dois mandatos, líder carismático e espertíssimo do PT e referência nacional da “esquerda” e da solidariedade com os fracos e oprimidos. Seu governo, via Bolsa Família, ajudou muita gente a viver melhor, isso é inegável, embora seja questionável o esquema que lhe torna possível, mais vantajoso para grandes capitalistas do que para os beneficiários do programa. A lógica é a das migalhas para o andar de baixo, financiadas pelos impostos dos andares intermediários, que também pagam o caviar do pessoal da cobertura. 

Na prática, parece óbvio que os banqueiros mandam e determinam até a roupa de baixo que o primeiro escalão deve usar. 


José Nêumanne Pinto também escreveu
livro contando o que sabe de Lula. 
O “Barba”

Lula, segundo Tuma Junior, foi informante de Romeu Tuma, pai de Tuminha, que era o chefão do DOPS no fim dos anos 1970. Na época, o “Barba” era um líder sindical e, segundo o autor da denúncia, convivia “intimamente” (no bom sentido) com seu pai, tendo, até, dormido algumas vezes no sofá da sala do ex-delegado.  

O fato é que, logo após a eleição de Lula para a Presidência, em 2002, estava numa lanchonete árabe no Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Do meu lado, havia um sujeito com olhar de policial, jeito de policial e que me disse que tinha sido policial e que tinha trabalhado na repressão aos contestadores do regime durante a ditadura. A um momento, ele me disse que Lula tinha sido uma criação de Golbery do Couto e Silva, o Maquiavel dos governos militares brasileiros. 

Segundo o tal sujeito, e também para Tuminha e para o antipetista Azevedo, a ditadura via com muita simpatia a ascensão do sindicalista barbudo. Havia os líderes pré-1964, como Brizola e Miguel Arraes, que precisavam ser esvaziados e combatidos, se possível lhes tirando o status de referências dos movimentos populares. Lula conseguiu fazer isso com o seu Partido dos Trabalhadores. Querendo ou não querendo, foi útil à direita, como parece continuar sendo hoje. 


Golbery: "criador" de Lula?
Munição pesada

Eu estava vivo, atuante e pensante na época, posso atestar que parecia, naquele tempo, óbvio que Lula tinha uma espécie de aliança com o governo militar. Bem se podia prever que a relação incestuosa existia e que havia muita perversão nela, mas não se podia afirmar nada com certeza. O testemunho de Tuminha, agora, vem trazer novas luzes ao caso. Vamos ver o quanto de poeira que o livro vai levantar e o volume de merda que vai para os ventiladores. 

E agora? Lula, é claro, não irá se explicar. É esperto demais para isso. A tropa de choque petista já dispara seus canhões contra Tuminha, que perdeu o posto de secretário nacional de Justiça por conta de ligações perigosas com a máfia chinesa paulistana. Isso aconteceu em 2010. 

Ok, se o delegado era um mafioso e perdeu o cargo por isso, deve ter sido investigado, processado e sabe-se lá mais o quê. Esse negócio de desmerecer denúncias que podem muito bem ser concernentes por conta de máculas no passado do denunciante é ridículo. Se não ouvirmos os bandidos, jamais saberemos o que a bandidagem faz e, do mesmo modo, se não ouvirmos os inimigos, jamais saberemos quem os inimigos dos inimigos são. 

O livro de Tuminha parece fornecer munição pesada para a oposição em 2014.

Vamos investigar, mas...

No fim das contas, fico com Requião, o atual senador paranaense, governador por três mandatos no Paraná. Ele garante que apoia o pedido de investigações sobre o caso, feito pelo senador do mesmo estado, Álvaro Dias. Mas, impõe uma condição: que as investigações se estendam à revista Veja, que, segundo ele, também se dedica a "assassinar reputações". Boa ideia. 

Para saber mais sobre o posicionamento de Requião, acesse o link http://www.robertorequiao.com.br/requiao-apoia-alvaro-dias-mas-propoe-investigar-tambem-a-revista-veja/

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