terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Shopping Vitória: sem função democrática, a PM mostra mais uma vez que é tropa colonial com prazo de validade vencido

Mais um vexame da PM incentivado pela pobreza de espírito das elites,
dos capachos das elites, da imprensa e, é claro, da estreiteza conceitual dos PMs,
que demonstram conhecer táticas e estratégias para impor medo,
mas desconhecem como fazer para merecer respeito
O registro do fato ocorrido no Shopping Vitória, na capital do Estado do Espírito Santo, vem a calhar. 

No Rio, neste mesmo momento, são recriados os "arrastões", episódios midiáticos que geraram a lastimável vitória de Cesar Maia nas eleições de 1992, no Rio de Janeiro. 

Cesar Maia foi o representante das elites retrógradas e promoveu na cidade uma perseguição às camadas mais pobres da população carioca. Uma caçada cruel e canalha aos vendedores ambulantes e a toda e qualquer iniciativa de participação cidadã dos moradores de comunidades pobres. Cesar Maia foi uma espécie de câncer da política carioca e, para mostrar como a cultura da cidade esteve doente, se elegeu três vezes e pôs, em 1996, um apaniguado seu na prefeitura, um sujeito com voz de bêbado conhecido como "Conde", que traiu o padrinho e tentou alçar voo próprio (derrapou no fim da pista e mergulhou no mar do esquecimento). 


Cesar Maia: bom quando se trata de criar ou
inventar fatos, péssimo como prefeito da cidade;
promoveu a exclusão e é o pai da atual perseguição
que as autoridades da cidade promovem contra
os mais pobres. Um câncer na política e
na cultura cariocas.
Não se pode esquecer que o incrivelmente ruim atual prefeito da cidade, de sobrenome Paes, foi "cria" de Maia. Porém, ao crescer, como bom corvo, arrancou os olhos daquele que o alimentou e se aliou a outra trágica personagem política carioca, Sergio Cabral. 

Não foi com Cesar Maia que a lógica da exclusão apareceu no Rio. É claro que não foi. Ela é antiga. Mas o incentivo de Maia à exclusão e o patrocínio que deu ao incremento da desigualdade foram determinantes para reforçar a lógica excludente. Curiosamente, esse sujeito foi cria de Brizola, que foi reconhecidamente um bom governante para os mais pobres. 

Em tempos em que a Polícia Militar está com o moral mais baixo do que nunca, em que a desmilitarização se apresenta como uma necessidade premente, políticos e mídia parecem animados em justificar a importância dessa tropa em guerra contra a população. 

O fato ocorrido em Vitória e a matéria, escrita por Douglas Belchior, vêm chamar a atenção para a gravidade da situação. Leia-a na sequência. 



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Meninos passaram por grande humilhação; a tropa colonial
com prazo de validade vencido em ação: mais um vexame
Shopping Vitória: corpos negros no lugar errado

2 DE DEZEMBRO DE 2013

Fila indiana, mãos na cabeça, corpos sem roupa. Dezenas de brasileiros humilhados por ousarem comparecer a um território de gente branca…

Por Douglas Belchior, em seu blog

Sábado, 30 de novembro, fim de tarde. Várias viaturas da Polícia Militar, Rotam e Batalhão de Missões Especiais cercaram o Shopping Vitória, na Enseada do Suá, no Espírito Santo. Missão: proteger lojistas e consumidores ameaçados por uma gente preta, pobre e funkeira que, “soube-se depois”, não ocuparam o shopping para consumir ou saquear, mas para se proteger da violência da tropa da PM que acabara de encerrar a força o baile Funk que acontecia no Pier ao lado.

Amedrontados, lojistas e consumidores chamaram a polícia e o que se viu foram cenas clássicas de racismo: Nenhum registro de violência, depredação ou qualquer tipo de crime.  Absolutamente nada além da presença física. Nada além do corpo negro, em quantidade e forma inaceitável para aquele lugar, território de gente branca, de fala contida, de roupa adequada.

E a fila indiana; e as mãos na cabeça; e o corpo sem roupa, como que a explicitar cicatrizes nas costas ou marcas de ferro-em-brasa, para que assim não se questione a captura.

A narrativa de Mirts Sants, ativista do movimento negro do Espírito Santos nos leva até a cena:


“Em Vitória, a Polícia Militar invadiu um pier onde estava sendo realizado um baile funk, alegando que estaria havendo briga entre grupos. Umas dezenas de jovens fugiram, amedrontados, e se refugiaram num shopping próximo. 
Foi a vez, entretanto, de os frequentadores do shopping entrarem em pânico, vendo seu ‘fetiche de segurança’ ameaçado por “indesejáveis, vestidos como num baile funk, de tez escura e fragilizando o limite das vitrines que separam os consumidores de seus desejos”. Resultado: chamaram a PM, acusando os jovens de quererem fazer um arrastão.
A Polícia chegou rapidamente e saiu prendendo todo e qualquer jovem que se enquadrasse no ‘padrão funk’. Fez com que descessem em fila indiana e depois os expôs à execração pública, sentados no chão com as mãos na cabeça. E isso tudo apesar de negar que tenha havido qualquer arrastão, “exceto na versão alarmista dos frequentadores”.


Covardia do Estado contra os mais pobres é
revoltante no Brasil;  a "maioria silenciosa"
reclama da violência, mas não percebe o
quanto suas instituições a provocam;
a imprensa, costumeiramente,
apoia o massacre
Se chegou a haver algo parecido com uma tentativa de ‘arrastão’ ao que parece é impossível saber. Para alguns dentre os presentes, a negativa da PM teve como motivo “preservar a reputação do shopping como templo de segurança”. Se assim foi, a foto acima, com os jovens sentados no chão sob vigilância, e o vídeo abaixo, mostrando-os sendo forçados a descer em fila indiana sob a mira da Polícia, se tornam ainda mais graves como exemplos de arbítrio, violência e desrespeito aos direitos humanos.  E isso só se torna pior quando acontece ainda sob os aplausos dos ‘consumidores’…”

O suposto disparo, a dita “confusão” e o inevitável corre-corre só houve após a chegada da polícia no baile Funk.

O secretário de Segurança Pública do Estado, André Garcia, mente. Afirma não ter havido abuso. “Havia um tumulto e algumas pessoas relataram furtos na praça de alimentação. A polícia agiu corretamente. A intenção era identificar quem invadiu o shopping”, diz ele.
Tudo indica que a PM não instrui os soldados
para lidar com pessoas; eles agem como
se sua função fosse simplesmente amedrontar
e, não raro, espancar animais perigosos;
cidadania é conceito que aparentemente
tem estado excluído do cotidiano
da corporação policial militar

Invasão? Muitos relatos afirmam que os jovens se “abrigaram” no shopping para se proteger! Testemunhas disseram que as pessoas se assustaram foi com a presença e a forma de atuação da polícia dentro do shopping.

E mente ao dizer que “a polícia entrou no shopping após receber informações de que pessoas armadas estariam no local”, algo que não foi constatado pelas revistas feitas no interior do estabelecimento. Os únicos armados, caro secretário, eram seus homens.

Lojistas e consumidores relataram agressões aos ‘suspeitos’: ” Vi um policial dando um soco, de baixo para cima, em um garoto”; “o clima ficou mais tenso ao serem vistos policiais entrando armados no shopping”; “Parte dos que estavam sendo revistados era menores de idade. Vi um garoto sendo jogado no chão por um policial”.

A própria assessoria de comunicação do Shopping Vitória descartou a ocorrência de um arrastão no interior do estabelecimento e afirmou que nenhuma loja foi roubada ou danificada;

Mas ao final, o Secretário assume sua tarefa racista: “Quando se encontra uma atitude suspeita, a abordagem é uma ação normal. A polícia está autorizada a fazer isso. A população tem que entender”, disse ele a um jornal, afirmando que o critério para uma abordagem depende das circunstâncias, perfil das pessoas e quais queixas são apresentadas.

Sim, e é verdade, “Sr. Secretário”: circunstâncias, perfis e queixas, que sempre tem como principal objeto de provocação o corpo negro. Alguma novidade?

REAÇÃO

Lula Rocha, importante militante do movimento negro do Espírito Santo, em conjunto com diversos outros ativistas e organizações do movimento negro e movimentos sociais da capital prometem reagir e organizar um mega baile funk ao ar livre em frente o Shopping Vitória.

Criminalizado como um dia fora a capoeira, o futebol, o samba a MPB e o RAP, o funk moderno é tão contraditório em seu conteúdo quanto o é resistência em sua forma e estética. E se está servindo também para fazer aflorar o racismo enraizado na alma das elites hipócritas – muito mais vinculadas aos valores da luxuria e ostentação que a turma do funk, declaro pra geral: Sou funkeiro também!

http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/shopping-vitoria-corpos-negros-no-lugar-errado/ 

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