terça-feira, 31 de dezembro de 2013

"O consentimento dos cidadãos, diante de quem os governa, corroeu-se" (Paul Mason)

Difícil contestar... O pior é que quem apanhava na
ditadura é, hoje, 
na "democracia", quem manda bater
Termina 2013, hoje mesmo, e há muito para pensar, se houver tempo para isso. Aqui entre nós, no Brasil, vivemos um ano de manifestações legítimas e ilegítimas, mescladas em um só pacote. Gente exercendo a tal da cidadania e cobrando a participação no espaço democrático sempre prometida, mas nunca exercida ou, pelo menos, nunca incentivada pelo poder que se diz democrático. Democrático uma ova, mas sempre autoproclamado como tal. 

Se há tanta legitimidade nas demandas das ruas, por outro lado há muita estranheza. Parece claro que há pistas de que há, no mínimo, uma tentativa de controle da revolta e de canalização para determinados rumos. As manifestações do Rio de Janeiro, principalmente, sugerem que o poder instituído parece ter conseguido manipular alguns manifestantes e, é óbvio, boa parte dos atos de vandalismo praticados contra patrimônios que não bancos e outros ícones diretos e francos do Capitalismo, ou mesmo contra esses, foram praticados não pelo grupo anarquista dos black blocs, mas por agentes infiltrados, provavelmente os famigerados "P2" da mal afamada Polícia Militar carioca, a que mais mata no mundo*
Durante a Ocupação do Gezi Park, gente típica de classe média ergueu barricadas que mantiveram a polícia turca à distância por quatro noites. No interior do parque, organizaram uma versão-maquete da sociedade em que gostariam de viver. Estocaram montes de comida grátis, cantaram e beberam cerveja, em desafio ao governo conservador religioso.
Numa realidade cheia de informações e interpretações, muitas produzidas para desinformar e obnubilar a consciência, cabe, como cantava Walter Franco, manter a "mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo". 

O texto "Revoltas 2014: contra governos ou o capitalismo?", publicado abaixo, me parece lúcido e ajuda a pensar o que ocorreu. Sendo breve e preciso, seu autor, Paul Mason, sugere uma trilha para reflexão. As citações, postas aqui em vermelho, são do texto. 
Quando alguém me pergunta sobre onde o movimento vai eclodir de novo, respondo: “na mente das pessoas”.

Não fosse pelo conjunto da obra, vale muito a leitura pelo fato do autor referir claramente que o esvaziamento das manifestações se deu principalmente por precaução e mesmo medo da maior parte das pessoas diante da violência e do terrorismo estatal manifesto na ação da PM, uma tropa de dominação colonial com prazo de validade vencido, uma instituição cuja existência conflita com o conceito de Democracia. 

Embora isso seja evidente, alguns apologetas do governo petista insistiram no sofisma de que a insatisfação inicial de junho foi esvaziada pela boa situação do país. Só rindo... 
A repressão tornou-se tão intensa, mesmo nas democracias estáveis, que aqueles que se queixam hesitam mais, antes de embarcar em ações que podem resultar em prisão. Não há uma Convenção de Genebra sobre os conflitos contemporâneos entre tropas de choque e manifestantes. Por isso, os sinais de consentimento são, muitas vezes, falsos. O que parece ser ordem social é apenas a epiderme de uma desordem profunda.
Curiosamente, as manifestações de 2013 surgem após a extinção desse tipo de ação democrática durante a ditadura militar iniciada em 1964 e concluída em 1985. Mais curiosamente ainda, muitos dos que promoveram e apoiaram a repressão em 2013 estavam nas ruas protestando durante a ditadura. 

Mostraram, assim, ser da mesma laia dos ditadores. 

Boa leitura, bom 2014 e muita coragem para enfrentar o que vem por aí. 

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* Um vídeo captado em uma manifestação de, se não me engano, junho deste ano, mostra um "mascarado" atirando um molotov na polícia. Na sequência, de forma bem suspeita, um sujeito vestido como o "mascarado" aparece correndo em direção à tropa de choque e se identificando como colega. Fora isso, depoimentos de jornalistas que cobriram as manifestações e as decorrentes violências policiais, dão conta de que parece ter se seguido um rito preciso em todas as manifestações: 

1) atos pacíficos no início; 

2) quebra-quebra com a polícia totalmente ausente e/ou passiva; 

3) ultra violência policial geralmente contra manifestantes que não quebraram nada. 

Isso sem falar no estranho boato de fim do Bolsa Família, provavelmente disparado das próprias hostes governistas. 

Uma característica das manifestações democráticas de 2013:
atitudes imorais de uma polícia sem moral

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Revoltas 2014: contra governos ou o capitalismo?

Mídia, naturalmente, não enxerga. Mas movimentos expressam, no fundo, colapso das relações econômicas e políticas hegemônicas em todo o mundo

Por Paul Mason | Tradução: Antonio Martins - 30/12/2013

Foi como uma faixa de CD saltada, ou um vídeo que derrapa de repente para a cena seguinte. Eu filmava uma barricada em Istambul, tentando ficar fora do alcance das bombas de gás disparadas pela polícia, quando uma delas me atingiu na testa. O rombo que ela fez em meu capacete é hoje parte de uma apresentação em PowerPoint, para cursos de treinamento sobre a segurança de jornalistas.

Durante a Ocupação do Gezi Park, gente típica de classe média ergueu barricadas que mantiveram a polícia turca à distância por quatro noites. No interior do parque, organizaram uma versão-maquete da sociedade em que gostariam de viver. Estocaram montes de comida grátis, cantaram e beberam cerveja, em desafio ao governo conservador religioso.
Estas sociedades foram, supostamente, beneficiárias da globalização. Mas as classes médias sentiram-se batidas. Por isso, agora, o “garoto mascarado que frequenta academia e odeia a corrupção” somou-se ao “diplomado sem futuro”, na lista de arquétipos sociais por meio dos quais procuramos entender a revolta.
De dia, os gramados abrigavam estudantes fazendo suas tarefas. À noite, as ruas no entorno enchiam-se de jovens mascarados – e os fãs de futebol trocavam flâmulas, para sinalizar uma trégua, no ódio de cem anos entre os clubes de Istambul. Quando perguntava sobre suas profissões, sussurravam: “Arquiteto, despachante de cargas, engenheiro de software”.

Os acontecimentos do Gezi Park marcaram uma virada nas revoltas globais de nosso tempo. Embora não seja oficialmente parte dos BRICS, a Turquia tem a maior parte das características destes – alto crescimento, população jovem, um Estado repressor associado a corrupção e atos arbitrários. Depois de Gezi, não foi surpresa ver um milhão de pessoas nos movimentos de protesto do Brasil. Nem as 17 milhões que participaram das manifestações que derrubaram Mohamed Morsi, no Egito, nem os protestos da Ucrânia, que ainda estão em curso. Estas sociedades foram, supostamente, beneficiárias da globalização. Mas as classes médias sentiram-se batidas. Por isso, agora, o “garoto mascarado que frequenta academia e odeia a corrupção” somou-se ao “diplomado sem futuro”, na lista de arquétipos sociais por meio dos quais procuramos entender a revolta.
Chelsea Manning e Edward Snowden não são vistos como heróis do povo, na mídia ocidental. Mas no mundo informal, o da conversação online, eles são metáforas sobre “o que acontece”. Desafie a vigilância ilegal do Estado, jogue luzes sobre as atrocidades militares no Iraque e você se tornará candidato ao tipo de tortura mental praticada em Guantánamo.
Quem lê a última tentativa da revista Economist para entender onde ela vai eclodir em 2014 percebe como é árduo fazê-lo por meio do pensamento convencional. O cálculo tem como parâmetro a suposta presença de alta desigualdade, alta corrupção, crise econômica e colapso de confiança nas instituições. Por isso, a Nigéria (maior economia da África), Egito e Argentina estão no topo da lista de países onde há “risco muito alto” de conflito capaz de ameaçar a ordem política – enquanto Brasil, África do Sul e China figuram abaixo, como locais de “risco alto”. Embora seja um avanço em relação ao pensamento simplório que ligava as revoltas apenas à crise econômica pós-2008, ainda acho que falta algo. Quando alguém me pergunta sobre onde o movimento vai eclodir de novo, respondo: “na mente das pessoas”.

A repressão tornou-se tão intensa, mesmo nas democracias estáveis, que aqueles que se queixam hesitam mais, antes de embarcar em ações que podem resultar em prisão. Não há uma Convenção de Genebra sobre os conflitos contemporâneos entre tropas de choque e manifestantes. Por isso, os sinais de consentimento são, muitas vezes, falsos. O que parece ser ordem social é apenas a epiderme de uma desordem profunda. A China conhece este conceito. Na internet chinesa, fervilha descontentamento, ainda que todos, em público, reverenciem a linha oficial. Mas o mesmo ocorre no mundo “desenvolvido”. No passado, havia poucos motivos para temer movimentos que eram cheios de ideias, mas vazios de ação. Porém, agora vivemos numa economia da informação. As ideias críticas têm materialidade e a repressão parece impulsionar a crítica.
A relação entre capital e trabalho dobrou, com a urbanização do Sul global e a mercantilização dos antigos países socialistas. Mas não há uma rota que leve as maiorias a salários altos, ou a estilos de vida associados à prosperidade. Em consequência, prevê o Gartner, por volta de 2020 este cenário levará a “uma exigência de novos modelos econômicos, em muitas sociedades maduras”.
Chelsea Manning e Edward Snowden não são vistos como heróis do povo, na mídia ocidental. Mas no mundo informal, o da conversação online, eles são metáforas sobre “o que acontece”. Desafie a vigilância ilegal do Estado, jogue luzes sobre as atrocidades militares no Iraque e você se tornará candidato ao tipo de tortura mental praticada em Guantánamo. Nestas circunstâncias, as velhas “métricas” – pobreza, desigualdade, colapso da confiança – tornaram-se menos relevantes para prever as revoltas.

Apesar disso, o Grupo Gartner prevê, há alguns meses, que “um movimento do tipo Occupy, em escala maior, vai começar até o final de 2014”. Os analistas do Gartner estão mais próximos da realidade. A tecnologia da informação está reduzindo, “em escala sem precedentes”, a quantidade de trabalho presente nos bens e serviços. A relação entre capital e trabalho dobrou, com a urbanização do Sul global e a mercantilização dos antigos países socialistas. Mas não há uma rota que leve as maiorias a salários altos, ou a estilos de vida associados à prosperidade. Em consequência, prevê o Gartner, por volta de 2020 este cenário levará a “uma exigência de novos modelos econômicos, em muitas sociedades maduras”.

A articulação em redes das sociedades modernas torna imprecisas as previsões de revolta que têm por foco países específicos. Na realidade, há uma entidade política que importa. Hoje, ela é mais desigual do que nunca. Seu modelo econômico central está destruído. O consentimento dos cidadãos, diante de quem os governa, corroeu-se. Esta entidade é o mundo.

http://outraspalavras.net/capa/revoltas-2014-contra-governos-ou-contra-o-capitalismo/ 

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