segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Merda sagrada: sobre o homo sacer

Campos de concentração e prisões são os modelos através dos
quais se pode bem entender a ordem sociopolítica
que gera, abriga e explora o homo sacer
Giorgio Agamben é um italiano que tem se destacado por seus pensamentos acerca da sociedade contemporânea. É um pensador que parece seguir a trilha dos escritos biopolíticos cujo caminho foi aberto pela obra de Michel Foucault. Seus temas preferidos são relativos ao “estado de exceção” sob o qual nós, em nossa sociedade, vivemos, e seu conceito de “homo sacer”. 

“Homo sacer” é um conceito do Direito Romano no qual uma pessoa que comete algum tipo de crime é banida e perde todos os direitos relativos à cidadania, podendo ser morta por qualquer outra pessoa sem consequências criminais para esta, mas, por outro lado, não pode ser sacrificado em uma cerimônia ritual. É, assim, “homem sagrado”, a definição literal de “Homo Sacer”. Essa “sagração” parece, na ótica de Agamben, um tipo de maldição compartilhada de algum modo por todos na sociedade ocidental: suas vidas não valem nada e, sob certo aspecto, podem ser eliminadas a qualquer momento por quem quer que seja, mas são sagradas e não podem simplesmente ser eliminadas pelo Estado, apesar de teoricamente fúteis e inúteis. 

O sujeito é mantido vivo, como se o seu maior castigo fosse esse. Não tem qualquer direito, mas não pode ser oficialmente morto. Assim, o Estado lhe reconhece a vida, mas não o direito a ela, o que constitui um Estado de Exceção constante e permanente. 


As prisões existem para nos fazer esquecer de que
vivemos em uma sociedade prisional, disse Jean Baudrillard
A crise sem fim

Agamben lembra ainda que há décadas perdura uma suposta “situação de crise”, uma forma de controle e dominação. Segundo ele, tanto o conceito de “crise” como o de “economia” não são, mais conceitos, mas “palavras de ordem” que impõem medidas políticas de modo que as pessoas não as contestem. Para Agamben, falar em crise equivale a dizer: “você deve obedecer!” e o termo “crise” designa o modo como usualmente tem se organizado o capitalismo contemporâneo. Trata-se, assim, de uma organização nada racional, mas Deleuze já havia chamado a atenção para o caráter essencialmente irracional do capitalismo, um sistema no qual tudo é racional, menos ele próprio. 

Em tese, somos todos classificáveis no conceito de homo sacer. Estamos incluídos na ordem jurídica sob o foco de nossa exclusão, ou seja, da possibilidade de sermos mortos e aparentemente apenas com referência a essa possibilidade. Não há consideração pelo indivíduo a não ser como sujeito incluído na ordem da exclusão, o que gera um estado de dupla mensagem tradicionalmente reconhecida como esquizofrenizante, isto é, geradora de um estado similar ao conhecido como “esquizofrenia”, a mais grave das doenças psíquicas, o que pode confirmar que efetivamente o poder político contemporâneo (quem sabe se possa usar o conceito de “Império”, de Hardt e Negri) quer que estejamos perenemente em momentos críticos nos quais nossa capacidade de pensar é reduzida e as respostas às demandas são dadas como emergências, logo dizem respeito mais a ações mecânicas, geralmente reativas, do que a respostas pensadas. 

Lembre-se que em situações de emergência, você se encontra costumeiramente indefeso, alienado e incapacitado de pensar. Nesses momentos, você precisa que alguém lhe forneça o sentido e o rumo a tomar, rapidamente. Em resumo, você não se orienta, nessas condições, por pensamentos, mas por ideias prontas, pré-moldadas. Esse é o modelo básico de funcionamento da maior parte dos enredos políticos contemporâneos, tanto no plano micro como no macro. 


Lógica do consumo produz espaço virtual no qual
o homo sacer é vítima e, ao mesmo tempo,
espectador de sua própria desgraça
Ataque ao pensar, alienação e insegurança

Todo o processo está relacionado a algo próximo ao que o psicanalista Wilfred Bion referia como um ataque ao pensar e que, como tal, representa uma forma de tentar destruir a capacidade da pessoa em compreender a realidade e se articular em relação a ela, diferenciando-se como ente capaz de entender o que se passa dentro e fora de si. Não, o homo sacer não pensa, é pensado e, desse modo, vive em permanente crise na medida em que não tem acesso fácil a um discurso que lhe permita ordenar a si próprio e a realidade. O homo sacer é, então, uma espécie de alienado ao qual se confere a vida sem consciência de si em troca da sobrevivência em um mundo completamente inseguro.

A percepção da completa insegurança do homem no mundo é resultado da administração que o poder faz do homo sacer. Na prática, o cidadão contemporâneo experimenta a sensação de ser ameaçado por tudo e por todos, vivendo sob o comando de uma máquina geradora de constantes angústias e ansiedades, desenhada por Barry Glassner em um livro chamado “A cultura do medo”, utilizado por Michael Moore em um de seus filmes. As ameaças vêm de todos os lados e a confiança passa a ser entendida, diz a letra do rap do Racionais MCs, como “uma mulher ingrata que te beija e te abraça, te rouba e te mata”. Assim sendo, como costuma acontece em casos de medo coletivo, aumenta a insegurança, o ódio mútuo e se multiplicam as agressões. 


A sagração da merda

De certo modo, o sujeito contemporâneo é um animal acuado diante de uma sociedade que lhe reconhece apenas como excluído. Como tal, essa mesma sociedade não lhe garante mais do que uma “vida nua”, ou seja, padronizada pelo sentido conferido pelo poder político ao indivíduo que não tem qualquer valor, ou, indo um pouco mais longe, que não tem valores, mas um preço. É, na prática, uma vida voltada prioritariamente para a sobrevivência, para evitar a dor e perseguir o prazer da forma mais simples, como na vida dos organismos mais arcaicos, como os vermes. 

O modelo usado é o dos campos de concentração e o homo sacer é um presidiário nato, aparentemente controlado por um mecanismo panóptico. E não vamos esquecer que Jean Baudrillard disse uma vez que as prisões existem para nos fazer esquecer de que nossa sociedade é essencialmente prisional. Isso quer dizer que o homo sacer lotou os campos de concentração, assim como está no presídio de Guantánamo, mas também nas ruas e nos shoppings, nos bares e boates. 

O homo sacer parece ser aquele que pede licença até para respirar, embora não esteja descartada a hipótese de que viva discursando sobre seus direitos todo o tempo. É, nos termos usados costumeiramente nas ruas, o tal “cocô do cavalo do bandido”, “aquele (ou aquela) merda” que não tem qualquer importância em um determinado contexto ou conjuntura e ao qual o poder político faz questão de repetir isso o tempo todo, lembrando-lhe de sua condição indigna. De certo modo, o homo sacer, o homem contemporâneo, é uma merda, mas uma merda sagrada. Afinal, sua vida tem lá seu valor e precisa ser preservada, ao menos como força de trabalho e fonte de renda para alguém. 

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