terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Da série “jornalismo fiel do dono”: relatório do Banco Mundial sobre o SUS é distorcido em matéria da Folha

Para o jornalismo do patrocinador, o SUS é como um
mendigo desgraçado, sem dinheiro, com postos de
saúde sujos e sem equipamento. Saúde Pública? Sinônimo
de problema, pensam os  capachos do poder econômico.
 
Um sujeito chamado Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade de Campinas) leu matéria jornalística sobre o Sistema Único de Saúde, o SUS, e entendeu que ali havia algo errado. Na matéria da Folha de São Paulo, cuja manchete era explícita (“Ineficiência marca gestão do SUS, diz Banco Mundial”), o SUS simplesmente tinha sido bombardeado por um relatório do Banco Mundial. Teria sido destroçado, posto abaixo de zero, absolutamente esfacelado. Na matéria, o relatório reduzia o SUS a nitrato de merda. Na matéria. 

Antes de prosseguir, o detalhe: o jornalista informa que o relatório é inédito e obtido “com exclusividade pela Folha”. Sei. 

Segundo o professor Fagnani deixa entrever, na matéria o SUS poderia, hoje mesmo, ser enterrado sem direito a choro e chorumelas, na primeira vala rasa do cemitério de indigentes mais próximo. Não serviria para mais nada além de, quem sabe, enriquecer alguns malandros. Dos 23 anos de vida do SUS, nada restaria além de ruínas. 


No endereço http://jornalggn.com.br/noticia/banco-mundial-e-sus-o-que-voce-so-ve-na-midia você pode ler o texto de Fagnani, que diz o seguinte: 
A curta matéria [da Folha de São Paulo] da suposta avaliação do Banco Mundial sobre vinte anos do SUS é atravessada de “informações” sobre desorganização crônica, financiamento insuficiente, deficiências estruturais, falta de racionalidade do gasto, baixa eficiência da rede hospitalar, subutilização de leitos e salas cirúrgicas, taxa média de ocupação reduzida, superlotação de hospitais de referência, internações que poderiam ser feitas em ambulatórios, falta de investimentos em capacitação, criação de protocolos e regulação de demanda, entre outras.
Um horror. Pelo exposto, a saúde pública brasileira não faz nada direito, não consegue acertar uma e certamente os profissionais que nela trabalham são de uma incompetência exemplar para o resto do mundo, principalmente para os que ainda fantasiam que o Estado deve oferecer assistência e atendimento de saúde sem cobranças, além dos impostos pagos, é claro. 

Na imprensa, elogio ao SUS só embrulhado com muita ironia
Esse SUS não serve para nada mesmo...

Alguém que lesse a matéria bem poderia formular este pensamento: “Mas, afinal, o que esses políticos andam fazendo que não fecham esse tal SUS e espalham logo clínicas da iniciativa privada em todo canto? Mas, não aprendem que esse tal SUS não tem jeito? Nada do que é público funciona no Brasil!”

Foi exatamente por entender que a matéria induzia o leitor a pensamentos desse tipo que Fagnani resolveu, como faria São Tomé, ver com os próprios olhos o tal relatório do Banco Mundial. E qual não foi o seu assombro quando percebeu que o que estava escrito na matéria, todos aqueles problemas terríveis e insolúveis não eram o destaque do relatório. Havia muito mais coisas ali, algumas surpreendentes. 

Surpresa!

O mais espantoso, porém, é que ao contrário do imaginado, o Banco Mundial se rasga em elogios ao SUS, conforme trecho do texto do relatório, transcrito pelo próprio professor: 
Nos últimos 20 anos, o Brasil tem obtido melhorias impressionantes nas condições de saúde, com reduções dramáticas mortalidade infantil e o aumento na expectativa de vida. Igualmente importante, as disparidades geográficas e socioeconômicas tornaram-se muito menos pronunciadas. Existem boas razões para se acreditar que o SUS teve importante papel nessas mudanças. A rápida expansão da atenção básica contribuiu para a mudança nos padrões de utilização dos serviços de saúde com uma participação crescente de atendimentos que ocorrem nos centros de saúde e em outras instalações de cuidados primários. Houve também um crescimento global na utilização de serviços de saúde e uma redução na proporção de famílias que tinham problemas de acesso aos cuidados de saúde por razões financeiras. Em suma, as reformas do SUS têm alcançado pelo menos parcialmente as metas de acesso universal e equitativo aos cuidados de saúde (tradução rápida de Fagnani).
Para muita gente, porém, não passa do direito de aproveitar uma boa oportunidade de negócio.
Curiosamente trágico é saber que um alto funcionário do Ministério do Planejamento faleceu,
há dois anos, por não ter um cheque para pagar a caução exigida por um hospital privado.
O fato é que se tivesse se dirigido diretamente para uma emergência do SUS,
provavelmente a gravidade de seu caso seria detectada já na recepção.
Foi para a privada e nem sequer entrou no hospital: morreu no estacionamento.
Não, não pode ser o mesmo relatório. Mas é, sim é o mesmo relatório. E todas aquelas críticas mortais, não estão no relatório? Sim, estão, mas, segundo Fagnani, como “desafios a serem enfrentados no futuro”, visando o aperfeiçoamento do SUS:
Nesse caso, o órgão privilegia cinco pontos, a saber: ampliar o acesso aos cuidados de saúde; melhorar a eficiência e a qualidade dos serviços de saúde; redefinir os papéis e relações entre os diferentes níveis de governo; elevar o nível e a eficácia dos gastos do governo; e, melhorar os mecanismos de informações e monitoramento para o “apoio contínuo da reforma do sistema de saúde” brasileiro.
Fagnani lamenta apenas que os tópicos críticos apontados pelo Banco Mundial existam em boa parte por conta do próprio Banco Mundial, por iniciativa do grupo seleto que controla não apenas essa instituição financeira, bem como a outras, como o Fundo Monetário Internacional, o famigerado FMI. É que esse grupo de milionários é contrário à promoção da saúde pública, pois o lucro está no sistema de doenças, não no de saúde. 

Pior para os fatos

Resumindo, nesse relatório alvissareiro para os trabalhadores do SUS, há muito mais para comemorar do que para lamentar. Já com relação ao jornalismo da Folha...  

Um jornalismo desse tipo não parece, certamente, um serviço de utilidade pública, muito pelo contrário. Por isso está homenageado aqui como mais um exemplo de “jornalismo fiel ao dono”. É o jornalismo que tem como lema o seguinte adágio: 

“Fatos? Para quê? Se os fatos mostram o contrário do que o patrocinador deseja, pior para os fatos”. 

E assim rasteja a humanidade com seu jornalismo cara-de-pau.

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