segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Comida-lixo gera obesidade e impotência política

A conversa sobre o homo sacer (ver texto sobre o conceito em http://luizgeremias.blogspot.com.br/2013/12/merda-sagrada-sobre-o-homo-sacer.html) pode ir mais longe do que se pensa. Uma simples manchete pode nos fazer lembrar da triste realidade na qual vivemos e, mais grave, nos fazer pensar sobre a herança que estamos deixando para nossos filhos. A manchete diz que “14% das crianças de Curitiba são obesas”, e está publicada no jornal curitibano Gazeta do Povo.

O obeso é um ícone do homo sacer. Não necessariamente, é claro. Historicamente, há certamente gordos que não podem ser classificados dessa forma, assim como, com certeza, há gordos saudáveis por aí em nossos dias. Mas, dada a alimentação que cada vez mais tem se tornado padrão em nossa sociedade, composta basicamente daquilo que chamamos genericamente de “comida-lixo”, como hambúrgueres, refrigerantes, doces e massas diversas, o gordo e gorda de hoje podem ser apontados como excelentes exemplos desse exemplar político ignóbil conhecido por homo sacer, graças à definição conceitual de Giorgio Agamben. 

No caso, a sacralidade do homo sacer está dada resumidamente por sua condição obesa. Por mais que não valha nada, o obeso serve para consumir a comida-lixo, ou seja, se entupir de porcarias, e ainda pagar por isso (não raro pagar bem caro). Em outros termos, sua vida não vale nada e está sendo agredida e posta em risco constantemente pelas empresas de lixo alimentar, logo o poder político anuncia que nada faz para garanti-la, mantendo-a por motivos puramente de interesse econômico. Sua vida pode ser tirada (e o está sendo) por qualquer um, mas é sagrada na medida em que é mantida pelos interesses referidos. Isso é o homo sacer, ou, pelo menos, se parece muito com a definição de Agamben. 

O triste é observar que estamos fazendo isso com as crianças, que já crescem treinadas para seu destino tragicamente “sagrado”, que, na prática, pode ser decodificado como condição fundamental da impotência e alienação política que caracteriza o cidadão contemporâneo. 

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