segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Quem te viu, quem te vê

Pode ser que poucos lembrem, pode ser que muitos tenham esquecido. Mas, pelos idos de 1986 ou 1987, no tempo da Assembleia Nacional Constituinte, aquela que desenhou e formalizou a Constituição Brasileira apresentada em 1988, houve um dito que ficou famoso. Foi ele o “É dando que se recebe”, cunhado pelo deputado federal Roberto Cardoso Alves, inspirado no famoso dito cristão atribuído a São Francisco de Assis. 

Ontem

À época, havia um partido que compunha a oposição ao governo e ao regime, cujos deputados constituintes se destacaram, entre outros feitos, por ir radicalmente contra não apenas o dito de Cardoso Alves, como principalmente contra a filosofia que orientava essa mentalidade. Esse partido era o Partido dos Trabalhadores, o PT. 

Dar para receber significava se vender, se corromper. O deputado Cardoso Alves fazia parte de um grupo político que costumava ser chamado de “Centrão” e cuja particularidade era a venalidade ou o “fisiologismo”, conforme se dizia à época. E o termo “fisiologismo” é definido exatamente por ser a razão (ou desrazão) política que se resume à busca de favorecimentos em troca de ações. 

Naquela época, os maiores críticos ao fisiologismo “franciscano” foram exatamente os deputados ditos “progressistas”, cujo grupo era composto em grande parte por filiados ao mesmo PT. 

O tempo passa e, infelizmente, costuma desfazer convicções e contrariar certezas. O PT chegou ao poder em 2003, através de seu líder, Luiz Inácio “Lula” da Silva, que foi deputado na Assembleia Constituinte e um dos mais contundentes críticos do fisiologismo. 



Hoje

Os cínicos apostam costumeiramente na falácia de toda e qualquer boa intenção. Para eles, as boas intenções só servem para povoar os infernos. E, em se tratando de política brasileira, parecem ter total razão, 

Diferentemente de seu brilhante passado pleno de discursos de lisura e atitudes éticas, o PT de hoje, o que ocupa o poder há quase 12 anos, é claramente tão fisiológico quanto o “Centrão” da Constituinte. 

Veja que o jornal curitibano Gazeta do Povo noticia que a presidente da República, Dilma Rousseff, eleita pelo PT e indicada por Lula, está condicionando o repasse de verbas a municípios ao cumprimento de um “favor” das prefeituras: a exibição da marca “Brasil – país rico é país sem pobreza”, que resume a estratégia do governo para se perpetuar no poder. Em resumo: toma lá as verbas, dá cá o apoio à reeleição. 

Leia o lead (primeiro parágrafo) da matéria do jornal:

O dinheiro repassado pelo governo federal aos municípios mantém uma série de serviços públicos em funcionamento há décadas. Mas agora essa parceria está escancarada, em uma grande ação de marketing que será colocada à prova na eleição presidencial de 2014. Com programas como Minha Casa Minha Vida, Caminho da Escola, Mais Educação, Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e Mais Médicos espalhados por quase todas as cidades brasileiras, a marca “Brasil – país rico é país sem pobreza” se tornou onipresente. E faz parte da estratégia para reeleger a presidente Dilma Rousseff, que terá como mote o slogan de que o PT “fez, faz e fará” o Brasil avançar.

Outro detalhe curioso de tudo isso é que, nos tempos de antanho, também o PT foi defensor e até pioneiro na adoção da descentralização das decisões políticas, inclusive com a adoção de um tal “Orçamento Participativo”, modelo adotado pelas prefeituras ligadas ao partido. Essa proposta foi adotada na cidade de Porto Alegre, em 1989, na gestão do petista Olívio Dutra. 

Se antigamente era assim, em nossos dias a coisa virou pelo avesso. 

Duas caras

A mesma matéria afirma que acabou essa história de descentralização administrativa e política na gestão do PT. Segundo um sociólogo chamado Rudá Ricci, houve uma radical centralização do poder desde que Lula chegou ao poder: 

Os anos 90 foram marcados pelos plebiscitos, referendos e orçamentos participativos. Perdemos isso, principalmente com o ‘lulismo’, que preferiu aprofundar a dependência que os municípios têm do governo federal.

Já para outro cientista político, Geraldo Tadeu Monteiro, que é diretor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), isso é natural. Segundo ele, todos os governos tiveram que se preocupar com o marketing por conta de uma estratégia de sobrevivência. 

Bem, mas ninguém disse que isso não é natural, não é? Só fica claro que um partido que nos convenceu de seu caráter com um discurso, bastou chegar ao poder para mostrar que tudo era só discurso. Em outras palavras, só papo furado. 

O problema disso tudo é que fica a mensagem de que na vida é fundamental ter duas caras, mentir, enganar. 

De certo modo, a prática petista no governo é uma apologia à dissimulação e ao cinismo. 

É o "quem te viu, quem te vê" posto às claras para admiração pública. 

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