segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Problemas de Curitiba se repetem na Virada/Corrente Cultural

Evento reuniu milhares de pessoas
Problemas apresentados são, na verdade, clássicos e recorrentes

O amigo Bernardo Pilotto faz análise do evento “Virada Cultural/Corrente Cultural”, acontecido em Curitiba há duas semanas. Segundo ele, ocorreram problemas estruturais, alguns graves, outros menos, que já se repetem ano após ano. 

Destaco três tópicos, analisados abaixo: 1. a dupla mensagem do "se beber não dirija", mas não há ônibus; 2. a famigerada dificuldade do policial militar entender que precisa aprender a lidar com cidadãos; 3. as drogas lícitas, no caso a cerveja. 


Se beber, ande a pé ou pegue um táxi

A “dupla mensagem” do “se beber, não dirija”, quando não havia (nem há) qualquer incentivo para que se utilizasse o transporte coletivo da cidade. Não havia horários extras, principalmente tarde da noite, quando a frota vai para as garagens descansar e o povo ficou a ver navios nos pontos de ônibus.

Transporte coletivo de qualidade é um mito de Curitiba, que a realidade e o passar do tempo vão se encarregando de jogar por terra. Na prática, esse tipo de transporte curitibano, enaltecido ao extremo quando Jaime Lerner o usava para promover o próprio nome e carreira política, não é tão bom quanto parece, ainda mais se levando em conta que sempre foi extremamente idealizado.
O ângulo pouco divulgado do transporte coletivo
de Curitiba: qualidade é mais mitológica do que real

Essa publicidade do “se beber, não dirija” é mais uma estratégia usada pelo poder público da cidade para enlouquecer o cidadão. Outra é a de jogar lixo na lixeira, principalmente bitucas de cigarro. Você, não raro, como tem que andar um quarteirão inteiro para achar uma lixeira, queima os dedos ou acumula lixo nos bolsos. 

Em resumo, é claro que é essencial não dirigir depois de tomar um porre. Mas, cadê os ônibus? Da mesma forma: é evidente que se deve jogar lixo na lixeira, qualquer tipo de lixo, mas cadê as lixeiras?


Uma tropa militar contra o cidadão

Outro problema constatado e que já se torna um problema grave cuja solução é urgente, mas delicada, é o total despreparo dos soldados da Polícia Militar para lidar com gente, ou, como se pode também dizer, com cidadãos. A barbárie costuma ser a marca dos componentes dessa instituição militar.
Um aparato bélico especialmente para
reprimir e mesmo matar.
Um golpe mortal no conceito de cidadania.

Também, o que se pode esperar de uma tropa militar para agir cotidianamente em questões internas? Parece claro que se há um exército, há inimigos a serem controlados e mesmo eliminados, como acontece nas guerras. E somos nós os inimigos, não se iluda. Se você ou eu formos “abatidos em combate” contra os agentes militares, eles serão ouvidos e julgados em um tribunal militar. Logo, teríamos sido mortos em uma guerra e somos supostos inimigos. O resultado disso é que os policiais militares não costumam ser facilmente punidos por seus crimes, que incluem desde os maus tratos básicos até o assassinato a sangue-frio, que recebe diversas vezes o apelido de “auto de resistência”.

Felizmente para a maioria ou infelizmente para alguns, a Polícia Militar não pode existir a não ser como tropa de ação em casos muito pontuais. Ora, já existe a Polícia do Exército para isso e uma polícia que está presente no cotidiano precisa ser bem educada e saber lidar com gente, não com inimigos de guerra.

Drogas

Outro problema apontado por Pilotto é a perseguição a vendedores ambulantes, esses que vendem drogas lícitas em eventos como esse. No caso, a cerveja esteve em falta, o comércio não abriu e o preço da “latinha” estava alto, com preços de até R$ 10.

Bem, não bebo cerveja e não entendo como alguém pode fazê-lo. Mas, compreendo que, sob o ponto de vista da integração popular e mesmo de uma noção equitativa de distribuição de renda, não é bom perseguir vendedores ambulantes. Eles estão tentando ganhar a vida como todo e qualquer comerciante.
A verdade é que a venda de drogas sempre
é um bom negócio para alguém.
Aparentemente, para quem as vende.
Mas, nem sempre.

E, ora, vender drogas, lícitas ou ilícitas, costuma proporcionar boa lucratividade a quem o faz. Não é à toa que há drogas ilícitas. Não, não é apenas ou exatamente porque são maléficas para a saúde ou o bom convívio social. Fosse assim, o álcool seria também um “fora-da-lei”. A proibição tem a função econômica precípua de proporcionar ganhos maiores a quem opera nesse ramo ilegal. E não são os pobres aqueles que obtêm os bons lucros. Eles são apenas a bucha do canhão, a carne que é exposta para ser sangrada, as costas que levam as chicotadas, o peito que recebe as balas da Polícia Militar. Trata-se de uma injustiça e, pior, de uma barbaridade.

Não é nada estúpido pensar que a nossa sociedade, que fala tão mal de vândalos e bárbaros, deve ser compreendida como uma das mais bárbaras e vândalas de toda a história humana. É mais um daqueles casos em que o sujeito culpa o espelho por sua má aparência.

PS: O grande evento reuniu dois eventos que existiam separadamente: a Virada Cultural do governo do Estado e a Corrente Cultural da prefeitura. Assim, também foi interessante perceber que ora se usava um nome, ora outro. Para mim, que não sabia de nada disso, foi uma confusão: não sabia se estava na "virada" ou na "corrente". Mas, no fim das contas, isso não foi importante. 

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