segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Na sociedade do consumo e do prazer, somos cadáveres obcecados por sexo

"(...) Gente sem moral normalmente se considera mais livre,
mas a maioria carece da capacidade de sentir,
de amar. Então, viram swingers, num troca-troca
incessante de parceiro. Morto fodendo morto.
Nenhum senso de humor, nada de brincadeira no jogo deles
– cadáver fodendo cadáver. (...)" - Bukowski.
Segue, no fim do texto, um interessantíssimo trecho de texto de Charles Bukowski no livro “Mulheres”. 

Ninguém pode dizer que Bukowski tenha sido um puritano, pelo contrário. Ele gostava de sexo, parece que bastante. No entanto, o trecho selecionado descreve um certo “nojo” das práticas sexuais mecânicas que encontramos não apenas nos locais citados (Los Angeles, Hollywood, Bel Air, Malibu, Laguna Beach), mas em todo lugar nas últimas décadas, marcadas pela tal “revolução dos costumes”, “revolução sexual” ou outra definição semelhante. 

Na prática, o proibido anda supostamente desaparecido. Você pode tudo. Se você tem algum desejo, tem que realizá-lo. “Tem que” realizá-lo. Não “pode” simplesmente realizá-lo. Não. A realização é obrigatória, a satisfação idem. 

Dizem, então, que não há proibições, que os cerceamentos proibitivos caíram, foram derrubados como o foi a Bastilha e o muro de Berlim. Tolice. Se a realização dos desejos é obrigatória, incisivamente recomendada, a proibição só mudou de lado e, provavelmente, agora se torna mais forte, pois tudo o que se disfarça ganha força extra. 

Na prática, quando os jovens franceses de 1968 diziam que "é proibido proibir", estavam lançando uma maldição contra si próprios e contra as gerações subsequentes.  


Estamos falando da filosofia do “fun-system”, citada por Jean Baudrillard no livro “A sociedade de consumo” ou a inversão do imperativo categórico kantiano, conforme lembra Slavoj Zizek: do dito “você pode fazer porque deve” passa-se para “você deve fazer porque pode”. 

Trata-se do imperativo do prazer e se você quer dominar alguém não o faça pela força, mas pelo gozo. Se fizer direito, ainda segundo Zizek, pode conseguir transformar uma pessoa em um robotic puppet, um boneco animado, repetidor de frases e ideias alheias que, ironicamente, aparenta ser absolutamente individualizado. Não somente aparenta, como acredita piamente nas aparências. 

O indivíduo contemporâneo é, via de regra, um cadáver com nome, endereço, estilo e gostos estritamente pessoais. Um morto que fala, chora e ri, ainda que essas coisas não costumem significar muito para ele a não ser como atos mecânicos inseridos em uma ficção de personalidade. 

Segue, finalmente, o trecho de Bukowski:


“ (... ) O sexo tinha sido legal, divertido. Não conseguia me lembrar de outra história tão civilizada. Nenhum de nós ficou fazendo exigências; mesmo assim, não faltou carinho nem sentimento. Não foi na base da carne morta se acoplando a carne morta. Eu detestava esse tipo de swing sexual característico de Los Angeles, Hollywood, Bel Air, Malibu, Laguna Beach. Estranhos no primeiro encontro, estranhos na despedida – um verdadeiro ginásio olímpico de corpos anônimos masturbando-se mutuamente. Gente sem moral normalmente se considera mais livre, mas a maioria carece da capacidade de sentir, de amar. Então, viram swingers, num troca-troca incessante de parceiro. Morto fodendo morto. Nenhum senso de humor, nada de brincadeira no jogo deles – cadáver fodendo cadáver. As morais são restritivas, mas são fundadas na experiência humana através dos séculos. Certas morais servem para encarcerar as pessoas nas fábricas, igrejas e submetê-las ao Estado. Outras fazem sentido. É como um pomar repleto de frutos envenenados e bons frutos. O negócio é saber qual apanhar pra comer, qual evitar.”

Charles Bukowski, no livro “Mulheres”

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