terça-feira, 26 de novembro de 2013

Helicóptero de senador e deputado era usado para transportar pó, mas a culpa é do piloto

No último sábado, um helicóptero da empresa de propriedade do deputado estadual Gustavo Perrella, filho do senador Zezé Perrella, foi apreendido com quase 500 quilos de cocaína em uma operação da Polícia Militar de Afonso Cláudio (ES). Ambos são políticos mineiros, mais precisamente do PDT, aquele partido que Brizola criou e que serviu, no Paraná, para abrigar gente como Jaime Lerner, enquanto no Rio de Janeiro alimentou gente como Cesar Maia e sua tropa. 

Como costuma acontecer nesses casos, os Perrella estão pondo a culpa no piloto, que teria furtado a aeronave para fazer o transporte da droga. Pode até ser, pois tudo é possível neste mundo louco, mas eu e você vamos concordar que é algo improvável. O mais provável, porém, é que não se prove nada contra os políticos e o piloto acabe assinando o BO, quem sabe mesmo para livrar os patrões, pois ir contra eles provavelmente não é saudável e ficar do lado deles, ainda que na jaula, pode ser muito útil nesses casos. 

Não parece plausível, porém, supor que os verdadeiros donos do helicóptero não tenham nada a ver com a história. Pode ser, repito, mas não é plausível. Em outros termos: é possível, mas não é provável e a culpa pode ter sido mesmo do piloto, mas com certeza será e não haverá muita discussão sobre o assunto. 

Como informações complementares, temos: 1) a cocaína iria, segundo informações, para a Europa; 2) Perrella, o pai, o senador, foi presidente do Cruzeiro (clube de futebol de Minas, atual campeão do Brasileirão, com antecipação de várias rodadas). 

Besteiras e incertezas à parte, cabe aproveitar o ocorrido para uma conversa séria sobre o assunto.

Bandidos bons nem sempre são bandidos mortos
Ao invés de correr atrás dos verdadeiros traficantes, a policia
escolhe o caminho mais fácil, inferniza e mata pessoas pobres,
os chama de bandidos e protege os verdadeiros bandidos. 

O fato pode ser indício daquilo que todo mundo sabe: a movimentação pesada das drogas parece estar nas mãos de gente muito boa, muito boa mesmo, se é que você me entende. A certeza que fica é que favela não tem aeroporto e favelado não tem avião, logo a droga que é vendida pelos “bandidos” favelados vem de algum lugar e com algum meio de transporte privado e seguro, assim como as armas. E quem tem meios de transporte privados e seguros são pessoas com bastante dinheiro. 

Enquanto isso, o pessoal das favelas leva a culpa pelos males do mundo e tem que encarar a polícia e as milícias, todos com sangue nos olhos e cobiça acima da média. Para completar, o jornalismo canalha ainda os trata como bandidos natos e hereditários, como se o fato de serem pobres, geralmente negros e morarem em comunidades chamadas pejorativamente de favelas fosse o suficiente para lhes selar o destino fatal, pois costumam acabar crivados de balas, "decorando o chão". 

Falando nesse assunto, há uma história bem mal contada que envolve os xerifes do mundo, os Estados Unidos da América, os plantadores de papoulas do Paquistão e uma certa companhia aérea de propriedade do governo estadunidense, se não me engano, uma tal US America, já falecida. Parece haver ligação entre esse fato e um pesado descarregamento de heroína na Europa aí pela metade do século passado e, mais recentemente, há quem cochiche por aí contando que tropas dos EUA estiveram protegendo plantadores de papoulas no Afeganistão. 

Muito se conta, nada se prova.

Quem ganha?

Em todos esses casos, nada se provará. A culpa será sempre do piloto ou de qualquer outro subalterno. Isso se ocorrer algum acidente e se descobrir que há drogas em veículos oficiais. Se um acidente como esse não ocorrer, eu e você jamais saberemos de nada a respeito. 

A verdade é que essa dura realidade nos induz a pensar que bandido pobre é claramente uma vítima nesses casos, embora não se possa deixar de dizer que é algoz em inúmeras ocasiões. Mas, isso não é contraditório. A contradição maior é que os verdadeiros negociantes de drogas dizem combatê-las, costumam levantar os punhos ameaçadores pregando a perseguição aos traficantes e financiam o crime muitas vezes cometendo-o à sombra da lei. Pior: não raro se dizem cristãos e frequentam até mesmo templos e/ou igrejas. 

Cabe lembrar ainda que como o dinheiro ganho no comércio de drogas não é pouco, há banqueiros que o lavam e que, assim, têm o maior interesse na proibição das drogas, pois é dos negócios envolvendo mercadorias ilegais que vem boa parte de seus exorbitantes lucros. 

E se Deus estiver mesmo vendo tudo?

Você, que lê diariamente no jornal que a polícia matou traficantes em uma favela, deve saber que ao fazer isso a polícia, assim como a imprensa, está protegendo quem realmente ganha com o tráfico de drogas e de armas. Se você acredita neles, está sendo cúmplice. 

Ok, você provavelmente não será punido pela justiça dos homens por isso. Mas, e se for sério o tal alerta: “Deus está vendo?”. Aí, como é que fica? 

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