sábado, 26 de outubro de 2013

Lição das “Jornadas de Junho”: ou democracia se faz nas ruas ou não se faz

Leio análise publicada no sítio Outras Palavras sobre as manifestações de junho (que continuam, em diferentes escalas, em diversas cidades, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, tradicionalmente as locomotivas das ideias, modas e costumes no Brasil). 

O autor, Luís Fernando Vitagliano, tece uma hábil teia de ideias e comentários, focando diferentes interpretações sobre o que ele chama charmosamente de “Jornadas de Junho”, nome que deve ter sido escolhido para batizar o conjunto de manifestações, tão vazio quanto “Primavera Árabe”. Nomes que não dizem tudo e não dizem nada. 

Em destaque, as interpretações dadas, como a de Marilena Chauí, intelectual que parece estar claramente desfocada e classifica todo o ocorrido como manifestações fascistas. Há a de Lula, também, que, é claro, oportunisticamente, como praticamente tudo o que o ex-sindicalista e ex-presidente fez na vida, puxa a brasa para a sardinha do próprio, dizendo que é pela melhoria das condições de vida da população que houve as tais “Jornadas de Junho”. As pessoas ascenderam socialmente e ficaram mais exigentes, diz Lula. Uma interpretação bem mais inteligente que a de Chauí, sem dúvida. 

O autor, ele mesmo, tem sua consciente proposta de interpretação. E talvez esse seja o problema. 

Ele tenta pensar as condições históricas dos acontecimentos, mas me parece parar num ponto fundamental: manifestações como essas são essencialmente democráticas, ao contrário do que diz a turma do PT, com exceção de Lula, que é muito mais esperto do que todo o conjunto de políticos de seu partido. E, me parece, esse é o ponto a ser destacado, sejam lá quais tenham sido as motivações, até porque foram inúmeras, bem ao estilo descrito por Michael Hardt e Antonio Negri como uma “Multidão”. Unida em inúmeros pontos, mas essencialmente multifacetada em seus propósitos. 



No entanto, no plano conjuntural, há uma boa questão posta no texto, propícia para reflexão: 

Talvez o próprio projeto de ampliar benefícios sociais sem alterar a estrutura de renda esteja no seu limite. É possível que manter a trajetória iniciada há dez anos não seja mais praticável, sem produzir fissuras nas estruturas que reproduzem desigualdade e privilégios. Isso, naturalmente, despertará reações no chamado ‘andar de cima’. 

Para que sejam efetivos, os avanços sociais deverão atingir diretamente os privilégios das classes dominantes. Haverá vontade e força suficiente para tanto? Caso contrário, como isso comprometerá o projeto político que chegou ao governo há dez anos?

Um dos tópicos cujo debate parece estar se prenunciando como fundamental é exatamente esse do esgotamento do modelo “bolsa”, adotado pelo governo do PT e da insatisfação de uma parte da população que arca com essa despesa, com a cobrança de pesados impostos. O fato é que não parece haver mais como sustentar esse e outros projetos governistas, simplesmente porque não foram corrigidos problemas no campo da produção, pelo contrário. Não há recursos e a sociedade está sendo espoliada para que o governo levante esses recursos. E, por quê? 
O carioca "O Globo" foi pego no contrapé quando se expôs, pela internet,
a diferente forma como trata manifestantes 
"do primeiro mundo" que incendeiam carros,
chamados de "manifestantes", e "do terceiro mundo",
chamados de "vândalos". 

Simplesmente porque o governo petista não tem coragem e, assim, não tem interesse, em mexer na tributação injusta. Ainda mais agora, quando se aproxima uma eleição difícil. Vai manter o andar de baixo com as bolsas (que deveriam ter o financiamento a partir de taxação, sim, mas não tão pesadamente no assalariado), o andar de cima com caviar e os medianos, a odiada “classe média” que tanto desgosta Chauí e outras sociólogas, pagando a conta. 

O fato é que parece que o modelo petista está no limite e as manifestações de junho podem ter apontado isso, tanto como os sinais dados pela comunidade financeira internacional, que, através de alguns veículos de comunicação, mandam mensagens que falam exatamente do fracasso desse modelo, que, dada a insatisfação interna perceptivelmente crescente, consegue o fenômeno de desagradar a gregos e troianos. 

Democracia liberal não é democracia

No entanto, em termos gerais, com relação ao tema “Jornadas de Junho”, proponho que em vez de cairmos sempre na velha tentativa um tanto tosca de controlar e dominar a realidade propondo que tudo tem uma explicação plausível e necessária, a partir da ótica da conquista do poder de um ou outro grupo, tentemos aproveitar o que fatos e acontecimentos como as manifestações têm de melhor, sem ficar querendo esgotar esses acontecimentos com explicações tendenciosas, como a de Lula, Chauí e sua gangue, ou simplórias, como as que enxergam ali manifestações espontâneas de movimentos internacionais, como a “Primavera Árabe” ou os movimentos antiglobalização. 

O fato é que as manifestações de junho e também as dos tempos seguintes abriram campo para um registro importante: ou a democracia se faz nas ruas ou não se faz e a tal democracia liberal não é, na prática, democracia, pode ser entendida como algo que o mestre Baudrillard chamaria de um simulacro, um total e absoluto simulacro de democracia. As manifestações gigantes como as ocorridas nas ruas de praticamente todo o Brasil, em junho, me parecem dizer, ao ponto de congregar um sem número de grupos, tribos e tendências políticas, que há uma insatisfação generalizada com a lógica da representação política em todos os níveis. 

Por que não limpar os ouvidos?

Um movimento gigante como esse precisa ser ouvido e não interpretado ao sabor desta ou daquela ideologia ou foco partidário. É um movimento, uma manifestação de anseio democrático e é tratada pela intelectualidade como fascista ou, pelos governistas, como um mero fruto dos acertos de seu governo. 
Antes de ficarmos debatendo quem ou o que ganhou, ganha ou ganhará com os protestos, vale mais prestigiar os protestos, entendê-los no que têm de mais significativamente benéfico para a democracia: a manifestação direta e incisiva do cidadão nos destinos de sua vida, de sua comunidade, de sua cidade, de sua pátria. E, essencialmente, o aprendizado do ouvir, do considerar o contraditório e discernir para a ação. 

Por isso eu disse que o autor Luís Fernando Vitagliano incorreu em um problema. Creio que ao tentar lançar mão da mesma lógica sociológica de Chauí & Cia., perde a oportunidade de compreender que as manifestações em si foram extremamente positivas sob o ponto de vista democrático, que, afinal, tem que estar em questão nesses casos. 

Ganhe quem ganhar momentaneamente, se abrirmos e prestigiarmos o debate e o espaço democrático, acabamos todos sendo beneficiados por um longo prazo. 

Se estamos numa democracia, como se diz, que tal levar isso a sério? 

E, assim sendo, não posso concluir sem deixar claro que, sob esse ponto de vista, os governos, tantos os estaduais como também o federal, estão mostrando que odeiam essa tal democracia. 

Querem-nos calados. Por isso, me parece importante ratificar que o que está em jogo, no fim das contas é a proposta positiva de democracia, a que convida o cidadão para a ágora, não a democracia dos políticos profissionais e do comércio varejista de consciências, a democracia negativa liberal, dessa não precisamos e temos que romper urgentemente com ela. É isso ou o recrudescimento da barbárie. 

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