quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Direita e esquerda: uma breve proposta de definição e diferenciação, com ajuda de um bom exemplo brasileiro

Para definir direita e esquerda vale saber o que Norberto Bobbio diz, ele que pensou sobre essa definição. Aproximadamente, “Direita” é a tendência política que trabalha no sentido da desigualdade, objetivando a concentração da riqueza; “Esquerda” é aquela outra que trabalha no sentido da igualdade, objetivando a distribuição da riqueza. 

Leia um trecho do texto de Bobbio, que ilustra melhor o que ele próprio quer dizer: 


“A diferença entre direita e esquerda não se manifesta sob forma de tensão entre uma igualdade de direita e uma igualdade de esquerda, mas com base no diverso modo em que é concebida respectivamente pela direita e pela esquerda, a relação entre igualdade e desigualdade. (…) a pessoa de esquerda é aquela que considera mais o que os homens têm em comum do que os divide, e de que a pessoa de direita, ao contrário, dá maior relevância política ao que diferencia um homem do outro do que os une, a diferença entre direita e esquerda revela-se no fato de que, para a pessoa de esquerda a igualdade é a regra e a desigualdade, a exceção. Disso se segue que, para essa pessoa, qualquer forma de desigualdade precisa ser de um modo justificada, ao passo que, para a pessoa de direita, vale exatamente o contrário, ou seja, que a desigualdade é regra e que, se alguma relação de igualdade deve ser acolhida, ela precisa ser devidamente justificada”.


Isso, muitos dizem, em termos econômicos restritos, mas não apenas. 
Norberto Bobbio

Há os que entendem que a definição passa pela oposição estatização x privatização. A esquerda seria estatizante e a direita privatizante. Acho pobre essa definição, pois localiza muito pontualmente a diferença numa estratégia político-econômica. Porém, acho que não deve ser descartada, pois muitas vezes essa diferença marca posições importantes e esclarecedoras. Muitas vezes, não sempre. 

Meu filho, Alexandre Cabral, me disse que uma boa definição (um tanto simpática à esquerda) está relacionada ao fato de que a direita se propõe a aproveitar (e reforçar) o que há de pior em nós (daí o dito liberal: “Vícios privados, benefícios públicos”, presente na Fábula das Abelhas, de Mandeville, que trata do assunto, além do acirramento da competição em si, com os fins justificando os meios no melhor estilo maquiavélico), enquanto a esquerda reconhece esse “pior”, mas tenta fazer com que possamos superar isso, isto é, aposta na melhoria de nossos “vícios” nefastos. Essa mesma noção parece estar em Bobbio e foi expressa pelo poeta Ferreira Gullar em uma entrevista. 

Nesse sentido, é possível dizer que a direita – o capitalismo – reforça nossa “ferocidade”, nossa “animalidade”. A esquerda, por sua vez, caminharia no sentido de domar e melhor aproveitar isso para o bem comum. Há, evidentemente, quem discorde radicalmente disso. 

Burrice e alienação x riqueza conceitual e participação

Eu, de minha parte, gosto da definição que remete à articulação social. A direita tenta concentrar não apenas a riqueza, mas, para garantir isso, investe na burrice generalizada, desarticulando a sociedade em termos de conceituação crítica e consequentemente diminuindo a participação efetiva das pessoas nos seus destinos, pessoal e coletivamente. A esquerda tenta agir no sentido oposto, investindo na qualidade da percepção crítica da população, municiando-a com conceitos suficientes para uma avaliação do que ocorre e, assim, potencializando a participação das pessoas tanto nos seus destinos individuais como coletivos. 

É preciso lembrar, porém, que não basta falar sobre isso ou discursar afirmando se fazer isso, quando a práxis – a prática objetiva, as ações efetivas – não caminha nessa direção. De certo modo, o modo de lidar com a relação entre discurso e práxis é também diferenciadora, pois, no caso, não há nada mais desarticulador do que, por exemplo, um partido ou governo que afirma promover a igualdade ou a articulação social e, na prática, age no sentido oposto. Um caso exemplar é o governo petista brasileiro, como vou expor brevemente em seguida.

Senhores financistas e escravos

No caso do Brasil, em termos de governos, tanto o PSDB, quanto o PT seguem a mesma cartilha e a diferença entre os dois é apenas estratégica. Neoliberalismo é uma proposta político-econômica “de direita”, pois trabalha com o princípio dos “vícios privados, benefícios públicos” e claramente propõe a desigualdade na distribuição de riquezas, além, parece claro, de tentar imbecilizar o mais que pode o conjunto das pessoas. 

De certo modo, a proposição liberal, ou neoliberal, conforme o tempo histórico, aposta na burrice e na alienação. O “consumismo” típico da sociedade contemporânea parece confirmar isso. Não há o incentivo ao pensamento, à conceituação crítica, pelo contrário. A proposta é que se viva de sensações e supostas paixões, comprando conceitos prontos incorporados a produtos e, assim, agindo de forma alienada. O liberal ou neoliberal, na sua prática, se parece bastante com um senhor de escravos. O trabalhador assalariado, principalmente, é o escravo que trabalha para ele. 

Em realidade, essa definição parece muito válida para os financistas, para os que promovem e vivem da mentalidade financeira. O empresário não é necessariamente um senhor de escravos. Muitas vezes não é e acaba por ser, não raro, também escravizado pelos financistas.

Apenas sindicalistas querendo melhorar de vida
Florestan Fernandes, que foi deputado
pelo PT, logo sabia do que falava

O PT, enganosamente, se costuma dizer “de esquerda”, se baseando principalmente nas “bolsas”. No entanto, as bolsas são uma forma de distribuição bastante limitada, pontual e de curto alcance no tempo e no espaço. Na prática, o PT tem privilegiado os ricos – vide a dívida pública que deve estar chegando a quase R$ 3 trilhões e que significa que a maior parte dos impostos arrecadados vai para os ricos e ultra-ricos, os banqueiros e suas gangues. A camada média, basicamente de assalariados, é quem paga a conta, o que significa que não está havendo distribuição de renda nenhuma, pelo contrário: há uma concentração. Mesmo se considerarmos a ascensão dos mais pobres, estes têm entrado no jogo como consumidores, se endividando, logo pagando juros e mais juros para quem? Não para os assalariados ou para o governo. Pagam para os banqueiros, é claro, aumentando ainda mais a concentração. 

Nesse sentido, me parece claro que o PT é de direita, tanto ou mais que o PSDB. Aliás, como dizia o Brizola, o PT é a UDN (o antigo partido de direita no Brasil, golpista em essência) de tamancos (ou de macacão). Ou, melhor ainda a definição crítica de um ex-membro do partido, já falecido, Florestan Fernandes: “Eles (petistas) não são de esquerda; são sindicalistas querendo melhorar de vida”. 

Em suma, nem tudo que parece é, ou, mais precisamente, é frequente as aparências enganarem. E mais: cuidado que, pelo menos para os cabalistas, tudo (ou quase tudo) neste mundo é especular. 

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