terça-feira, 24 de setembro de 2013

A corrupção não é um problema da nossa sociedade, é sua diretriz básica

Na prática, jornalista se sai bem, ou pelo menos assim se espera, fazendo reportagem, ou seja, reportando fatos, o que inclui repetir falas e versões. Ainda assim, muitos não se saem muito bem, pois “compram” uma versão e a “vendem” como a verdade do fato, como se os fatos só tivessem uma versão. 

Sou jornalista de formação, de segunda formação, pois cursei Psicologia em primeiro lugar e trabalhei mais de dez anos nessa área. Peço, porém, aos colegas jornalistas que me perdoem, mas quando pego um texto de um deles para ler já espero a superficialidade como característica fundamental: ideias prontas, sem articulação, geralmente repetições de outras falas, discursos colados com a fita crepe das frases feitas. 

Repito: isso até fica bem ou passa despercebido em matérias factuais, mas quando se trata de construir um pensamento... é aí que o calo aperta. 
De modo que acredito ser uma total perda de tempo falar de corrupção como algo acidental e/ou excepcional ou pontual, quando a sociedade ocidental, como um todo, se funda na corrupção, notadamente na práxis abraçada pelos governos brasileiros nos últimos 20 anos. 
Leio matéria sobre um jornalista chamado Oscar Pilagallo, que escreveu livro sobre o tema “Corrupção”. Fico logo prevenido e imaginando que nem devo ler o livro, pois lerei, mais uma vez, uma abordagem superficial, com ideias prontas, repetições de falas de outrem e de frases feitas. Bem, antes de julgar preconceituosamente ou pré-conceituosamente (o preconceito é um pré-conceito), resolvo ler entrevista do jornalista ao jornal Gazeta do Povo, de Curitiba. 
Não se iluda, no tempo deles, ninguém podia saber
nada sobre corrupção, pois a censura não deixaria

Pontos positivos

Em primeiro lugar, Pilagallo começa exibindo uma percepção sagaz da relação sobre a corrupção no país, na medida em que aponta para o fato de que não há necessariamente um aumento da corrupção em nossos tempos, mas uma maior percepção de sua existência. Usa como exemplo e referência o tempo da ditadura militar, no qual os veículos de divulgação da existência de corrupção estavam censurados ou mesmo inexistiam. 

Essa enunciação é fundamental, pois há muitos que se iludem e pensam que não se falava tanto em corrupção no tempo da ditadura militar porque não havia tanta corrupção. O fato é que havia censura e os milicos e seus apaniguados faziam o que bem entendiam no Estado. Logo, é impossível medir os níveis de corrupção em um tempo e outro. 

Espelhos 

O mais interessante do livro, aparentemente, está na afirmação de que as pessoas criticam os políticos corruptos, mas são tão corruptas quanto os criticados. Isso é ótimo, mas esse tema requer, em minha percepção, certa “profundidade”, ou, para usar um termo caro a alguns teóricos, certa “complexidade”. Dizer apenas que as pessoas têm os mesmos defeitos que criticam nos outros não é tão original assim, ou seja, não é nenhuma novidade e até mesmo se pode dizer que é dispensável dizer isso, de tão óbvio. 

Simplesmente, se ficamos nessa afirmativa, somos presas da mentalidade usualmente tacanha do “certo” e do “errado”, do “bem” e do “mal”. Isso corresponde a ficarmos perdidos em um dilema especular, ou seja, no qual não se sabe bem o que está diante do espelho ou refletido nele. 
Segurança Pública: Ela costuma ser formulada não para combater a “doença” crime, mas para reforçá-la, dar-lhe vida. Se a fosse combater, a doutrina da Segurança Pública estaria, com seu sucesso, condenada à extinção e os que dela participam estariam desempregados. A política de Segurança serve para criar cada vez mais insegurança, pois somente dessa forma pode se justificar. 
Nessa linha, pedir punições mais duras e certas para a corrupção, como faz o jornalista, é muito arriscado e mesmo injusto, numa realidade especular como essa. O que ocorre, na prática, é que o punidor pune aquele que faz exatamente o que ele próprio faz e usa esse ato estúpido para enaltecer a si próprio e ocultar seus atos injuriosos. Mais que a corrupção em si, esse procedimento é grave, muito grave. Se você parar e recordar, poderá dar inúmeros exemplos da história recente brasileira em que isso acontece. 

Ora ladrão, ora excelência

Mas, Pilagallo é realmente bem intencionado e lembra que se alguém é corrompido é porque alguém o corrompeu. Para mim, em termos de atribuição de responsabilidade, o corruptor é pior do que o corrompido e isso não significa que este seja melhor. Mas, no caso dos políticos, como já pontuou Jean Baudrillard, parece que eles aceitam “segurar” o mico das acusações de corrupção por uma função inesperada de seus cargos e mandatos: o de serem objetos de veneração e inveja, merecendo, assim, ataques furiosos e irracionais, ao mesmo tempo em que merecem, da mesma forma, olhares de admiração, apertos de mão e tapinhas nas costas das mesmas pessoas que dizem odiá-los. A diferença, aqui, é basicamente de lugar: se distante dos políticos, o sujeito os chama de ladrões; se próximo, de excelências. 

Outro ponto positivo para o jornalista Pilagallo é que ele marca a necessidade de alternância do poder. Agora há pouco escrevi sobre isso e publiquei texto “Brizola, os ‘filhotes da ditadura’ e a opção entre fogo e frigideira em 2014” (http://luizgeremias.blogspot.com.br/2013/09/brizola-os-filhotes-da-ditadura-e-opcao.html). 

Creio que a alternância é uma das maiores garantias práticas de vigilância dos desmandos dos poderosos. E é por isso que não voto no PT em 2014 nem que minha mãe, minha mulher e meus filhos peçam em coro. Nem se Jesus Cristo, em pessoa, vier até mim pedir. O PT vai ficar doze anos, já está bom. É hora de voltar para a oposição e que a atual oposição, no poder, nos ajude a julgar os atos cometidos nos doze anos. 
Basta você conhecer um pouco de como funciona o sistema bancário e financeiro para ter clareza do que é crime e, mais, de que o crime é natural, totalmente natural, na sociedade que trata os financistas e grandes banqueiros não como bandidos, mas como respeitáveis cidadãos. Assim, na prática, o crime, o verdadeiro crime, o que alimenta as raízes de todas as contravenções e crimes menores, não é combatido, é incentivado e mesmo, não raro, tido como exemplar para “vencer na vida”
Ponderação

Mas, você pode perguntar: “esse tosco articulista começou o texto falando da superficialidade dos jornalistas ao tratar de temas que não fatos de reportagens e quase só elogiou o jornalista que escreveu sobre a corrupção!” 

Devo lhe responder, caso faça realmente essa ponderação, do seguinte modo: lembra quando este tosco articulista disse ser dispensável afirmar que as pessoas são tão corruptas quanto os corruptos que criticam? Pois é, esse é o limite que parece muitas vezes intransponível para muitos jornalistas, mas não apenas para os jornalistas. O caso é que é preciso ir além e ousar pensar a natureza patológica, doente, do sistema no qual vivemos e sob a lógica do qual acabamos sendo levados a pensar. 

O fato das pessoas serem tão corruptas quanto os políticos acusados de corrupção fala mais do que do “mal”, ou melhor, fala mais do que das opções morais entre bem e mal. Até porque proponho que se pense que essas opções são, em boa parte, falsas e que muitas vezes as pessoas não tem essa opção, pois lidam puramente com parâmetros fantasiosos. Por exemplo: acreditam, neste caso, que a corrupção é um desvio dos nobres preceitos de nossa sociedade, quando, na prática, parece ser o preceito básico. 

De modo que acredito ser uma total perda de tempo falar de corrupção como algo acidental e/ou excepcional ou pontual, quando a sociedade ocidental, como um todo, se funda na corrupção, notadamente na práxis abraçada pelos governos brasileiros nos últimos 20 anos. Aliás, a semelhança entre PT e PSDB é tanta que Gilberto Felisberto Vasconcelos criou um neologismo para falar dos governos dessas últimas duas décadas: "Petucanismo". 
Estamos falando do mundo dos "vícios privados, benefícios públicos", bem ilustrado na "Fábula das Abelhas" de Mandeville. Mas, há os que ignoram isso e ficam falando da corrupção como um problema, quando na verdade é a solução, ou seja, é a prática usual para quem está dentro do sistema. 
Iatrogenia e (in)Segurança Pública

Pilagallo parece bem intencionado, mas se parece tratar a tal corrupção como uma doença, não consegue pensar que o sistema é essencialmente doente. Talvez desconheça o conceito de "iatrogenia", no qual está contida a verdade de que muitas terapêuticas que supostamente tentam a cura, na prática promovem é a doença. 

Um excelente exemplo fora da Medicina é a política de Segurança Pública. Ela costuma ser formulada não para combater a “doença” crime, mas para reforçá-la, dar-lhe vida. Se a fosse combater, a doutrina da Segurança Pública estaria, com seu sucesso, condenada à extinção e os que dela participam estariam desempregados. A política de Segurança serve para criar cada vez mais insegurança, pois somente dessa forma pode se justificar. 

Vamos, também, falar de crime. Ora, combater o crime do ladrão de galinhas ou do traficante de favela é fácil e rende lucro para quase todos, polícia, advogados, promotores, secretários de Segurança, prefeitos, governadores etc. Mesmo o crime do empresário pode ser politicamente lucrativo, pois imagens da prisão de empresários podem ser usadas em campanhas políticas para simbolizar a retidão de determinado candidato, que não manda a polícia prender somente pobres. 

Mas, cá para nós, combater o crime de verdade não é isso. Basta você conhecer um pouco de como funciona o sistema bancário e financeiro para ter clareza do que é crime e, mais, de que o crime é natural, totalmente natural, na sociedade que trata os financistas e grandes banqueiros não como bandidos, mas como respeitáveis cidadãos. Assim, na prática, o crime, o verdadeiro crime, o que alimenta as raízes de todas as contravenções e crimes menores, não é combatido, é incentivado e mesmo, não raro, tido como exemplar para “vencer na vida”. 

Por esse motivo, tratar a corrupção como um sintoma localizado, como faz Pilagallo, é reforçar a doença. 
Se quer saber o que é lama,
suje as mãos (pelo menos elas)

Para saber o que é lama, tem que sujar as mãos

Estamos falando do mundo dos "vícios privados, benefícios públicos", bem ilustrado na "Fábula das Abelhas" de Mandeville. Mas, há os que ignoram isso e ficam falando da corrupção como um problema, quando na verdade é a solução, ou seja, é a prática usual para quem está dentro do sistema. 
No caso dos políticos, como já pontuou Jean Baudrillard, parece que eles aceitam “segurar” o mico das acusações de corrupção por uma função inesperada de seus cargos e mandatos: o de serem objetos de veneração e inveja, merecendo, assim, ataques furiosos e irracionais, ao mesmo tempo em que merecem, da mesma forma, olhares de admiração, apertos de mão e tapinhas nas costas das mesmas pessoas que dizem odiá-los. A diferença, aqui, é basicamente de lugar: se distante dos políticos, o sujeito os chama de ladrões; se próximo, de excelências
Repito que Pilagallo parece estar no caminho, mas talvez precise ir mais longe, pois para conhecer algo da natureza da lama é preciso sujar as mãos. Não é algo contornável a índole corrupta da sociedade denunciada por Mandeville. Nela, ou você se corrompe ou corre o risco de sucumbir e cabe aos loucos e perdedores a tarefa de pagar o alto custo de recusar o caminho indicado “oficialmente”. Mas, quem quer ganhar o rótulo de “louco” ou “perdedor” em tempos de glória dos saudáveis, dos competitivos e dos ganhadores? 

Parece faltar a Pilagallo estômago para pôr a mão na lama e não vomitar. Apesar disso, o jornalista tem muitos méritos. Principalmente porque não parece estar entre os que sabem muito bem do que falam, mas mesmo assim ficam com essa conversa dissimulada de "Oh, meu Deus! Corrupção! Oh, que horror". Francamente, vamos falar sério. O caminho da cura não é a negação da doença. Muito pelo contrário. 

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