segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Tereza Gonçalves: A pouca profundidade geral da discussão sobre médicos

Governo criou programa que não resolve nada e
transforma o debate politico em briga de torcida
24/08/2013- por Tereza Gonçalves

Tentando pensar com "um pouco mais de hora nessa calma".. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar.. A questão em "discussão" é Saúde Pública, direito Constitucional, mexe com a coisa mais sagrada de todos nós, merecia debate sério e não o Fla x Flu que se tornou.

Juro que é a última vez que tento e farei aqui pelo nível de debate (aparentemente) possível. E se a opção por aqui também for apenas esculacho do GF ou dos médicos (a depender da ideologia pessoal). Paciência.
Minha opinião, que não é otimista: não acredito se a coisa ficar nisso... E não acredito que não vá ficar só nisso. É o que me entristece. Perde-se a grande oportunidade de discutir saúde globalmente por uma questão eleitoreira de um lado e corporativista de outro. E quem sofre nós sabemos, são sempre os que menos tem voz 
O governo "identificou" bastante tardiamente um problema que de fato existe, faltam profissionais de saúde (não apenas médicos) nas periferias de grandes cidades e em locais distantes do Centro Sul. Digo tardiamente porque o problema vem de MUITOS anos e o partido que está no GF está no poder há 11... Antes tarde do que nunca? Ok, mas não dá prá não desconfiar que a um ano das eleições majoritárias e depois das pesquisas de popularidade pós manifestações, a proposta tenha sido colocada a toque de caixa principalmente por questões eleitoreiras. E nem vale argumentar que tem tantos problemas a serem resolvidos que não dava para ter dado atenção antes, saúde e educação nunca saem das pautas de campanha, mas saem rapidamente das realizações e ficamos com as promessas..


Minha crítica no mesmo sentido às entidades médicas.. Repentinamente se preocupam com o SUS, formação dos médicos e atendimento adequado à população...Entãotá. Morro de vergonha quando recebo as correspondências dos órgãos de classe... Muito mimimi e nenhuma proposta concreta.. Durante anos se abriram faculdades sem as menores condições de ensino e as entidades fazem o maior fuzuê e logo depois vemos os conselheiros dando aulas nessas escolas... Morro de vergonha de manifestações "somos ricos e cultos". Triste, não somos ricos (porque esses não estão nem aí para o Mais Médicos - exceto os figurões, mas prá fazer média com a classe) , muito menos cultos... mas envergonha principalmente pelo fato disso não ter a menor importância na discussão.. Babaquice total..
Aí, você escolhe sua torcida: se governista, louva os esforços do
governo e aproveita para demonstrar como o socialismo é benéfico
para a saúde, pode, inclusive, puxar um "Viva Fidel" que
ninguém da torcida vai repreender; se oposição, deve chamar os médicos
que chegam de guerrilheiros e falar de uma
conspiração socialista planetária 

E é justamente isso que vejo na maioria dos artigos de blogs e jornais, na net, na TV. Uma contraposição artificial e que não ajuda a debater saúde. Contraposição dos santos médicos estrangeiros que estão vindo por serem abnegados e os dinheiristas brasileiros.. Citações da qualidade de saúde de Cuba como se esses índices se devessem apenas ao acesso a médicos. Acusações de xenofobia e racismo..Por outro lado, acusações de que a revolução virá em forma de jaleco... haja paciência.
30% da grana pública do SUS vai para Planos de Saúde, sabiam? Até quando vamos "mimar" esse pessoal que cobra muito e oferece pouco? Até quando vão ME mimar deixando eu descontar MEU plano de saúde no IR? Não vamos discutir o fim da renúncia fiscal? Qual a porcentagem do PIB que irá prá Saúde? 
A síndrome de Ricupero abateu governo e entidades: nos números referentes à saúde, mostra-se o que interessa a meu ponto de vista, esconde-se o que não interessa... Sim, existem em todos países médicos estrangeiros. Sim, RU e Canadá são exemplos de saúde pública. Não, ninguém entra sem revalidar diploma e sem proficiência na língua...Vejam quanto os Governos investem em saúde nesses países..Vejam o plano de carreira de médicos, vejam a forma de organização dos serviços.. Vejam que formação médica é exigida dos contratados..

Esse é o debate que vale a pena. Qual será a "página dois" do programa. Se é uma situação emergencial, já deveria ter uma proposta de solução a médio e longo prazo..E existem entidades como a ABEM, o CEBES, ABRASCO com quem que vale muito a pena o Governo discutir conjuntamente atrás de soluções.

Alguns pontos: Quanto vai se investir em saúde e como? Porque quando as pessoas veem reformas de UBSs, construção de pronto atendimentos, hospitais, acham o máximo. Mas é esse o melhor modelo? Vai existir comunicação entre os serviços próximos?

Serviço social obrigatório para os formados em Universidades públicas. Eu particularmente sou a favor. mas convenhamos, não deveria ser só para médicos, sequer só para profissionais de saúde..Falta tudo nos rincões desse País e se a alegação for que o Público me formou portanto eu devo, vale para todas as profissões..

Federalização da carreira, ou no máximo divisão com Estados. A municipalização era idéia ótima no papel (os prefeitos saberiam melhor o que aquela população precisa), mas na prática virou pulverização de recursos.. Que prefeito não quer, por política eleitoreira, inaugurar hospital com ressonância? Se nem existe médico para trabalhar lá, vocês imaginam a qualificação do secretário de saúde desses locais? O último que li era parente do prefeito e dono de açougue.. Sem preconceito, não precisa ser médico, mas precisa entender de saúde, aplicação de recursos, comunicação entre serviços...No mundo, apenas Finlândia e Brasil tem saúde municipalizada.. Olhem o tamanho da Finlândia e me digam se não tem algo MUITO errado...
Resolver os problemas da Saúde Pública?
Investir no SUS? Para quê?
Isso não dá mídia, pensa o governo.

Reforma do Ensino Médico: hoje se formam especialistas demais quando os países com saúde pública universal nos mostram que o investimento em Medicina da Família é o que traz retornos. Pensem vocês mesmos - que tiverem paciência de ler isso- se quando se vêem acima do peso não pensam em endocrinologistas, se quando têm pressão alta não pensam em cardiologistas... Absurdo, uma distorção da necessidade de especialistas - no privado ok, livre escolha. Mas em um governo que se comprometa a levar saúde a todos não dá prá ser assim.. E não é pior, os bons médicos de família e comunidade resolvem a maioria absoluta dos casos. E bem resolvido, não gambiarra... As Residências Médicas oferecidas pelo Estado devem aumentar enormemente as vagas para formação em Medicina da Família..

30% da grana pública do SUS vai para Planos de Saúde, sabiam? Até quando vamos "mimar" esse pessoal que cobra muito e oferece pouco? Até quando vão ME mimar deixando eu descontar MEU plano de saúde no IR? Não vamos discutir o fim da renúncia fiscal? Qual a porcentagem do PIB que irá prá Saúde?
E grande parte das pessoas pensando que se trata de jogo de futebol, escolhe "a torcida": malhar médicos ou GF (Governo Federal) 
Os salários milionários ( 20 mil 30 mil,) que alguns dizem aparecer em Estados e municípios Brasil afora na tentativa de atrair médicos, não são verdade. Ou não existem, ou pagam um mês e depois que você mudou toda a vida...não é mais isso.

Então: plano de carreira federal. Mas amigos médicos, não vamos ganhar como o pessoal do Direito porque somos bem mais, a viúva tem grana curta e saúde não se faz só com médico... Porém amigos não médicos, dizer que não se cumpre o juramento de Hipócrates porque queremos fortunas...Jogo de cena política. Em São Paulo o Estado e Prefeitura oferecem salários que começam com pouco mais de 1000 não chegam a 4000 reais.. Não dá para fixar ninguém assim..

Investimento pesado em formação de profissionais de saúde não médicos... Precisaremos de menos médicos, acreditem, esse modelo medicalocêntrico é falido, caro, cheio de distorções, sendo que a principal e mais perigosa talvez seja que não é focado na promoção de saúde e sim na doença..

Enfim, existem várias coisas que mereceriam ser debatidas. E tenho a impressão que lado e outro (Governo e entidades médicas) se eximem porque estão em um jogo infantil e irresponsável.. Imaginou falar em fim de isenção fiscal? Considerar tirar o repasse a municípios? Falar que o ensino deve ser menos focado em especialidade? Falar em serviço social obrigatório? Dizer que outros profissionais de saúde bem treinados diminuiriam a necessidade numérica de médicos? Que o Governo - já que trabalho prá ele - vai dizer onde atuo e em que área? Essa "briga", esse enfrentamento necessário não interessa nem ao GF nem às entidades de classe. Então.. fingem que brigam, mas estão na mesma toada de "não solução"... Brigam no varejo e se locupletam no atacado...

Cubanos, espanhóis, portugueses, belgas, americanos, canadenses, ingleses, russos & que nacionalidade for.....bem vindos, espero mesmo que se alivie o sofrimento do pessoal desassistido, A ver. Mas lembremos que saúde se mede com índices, não com impressões pessoais. (Nem posso ser acusada de corporativismo, nem chamá-los de colegas porque Padilha disse que psiquiatra não é médico)

Também sei que essas medidas não são na base da canetada. Nem gostaria que fossem porque não sou dona da verdade. Mas queria debate público sério e honesto sobre saúde. Não é pedir demais.

Minha opinião, que não é otimista: não acredito se a coisa ficar nisso... E não acredito que não vá ficar só nisso. É o que me entristece. Perde-se a grande oportunidade de discutir saúde globalmente por uma questão eleitoreira de um lado e corporativista de outro. E quem sofre nós sabemos, são sempre os que menos tem voz.

E grande parte das pessoas pensando que se trata de jogo de futebol, escolhe "a torcida": malhar médicos ou GF.

Pão & circo, oferecimento de Genis desviando atenção do que interessa que não deveria ser o "melhor que nada", mas o melhor possível...


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