sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Sobre a (in)existência do "fato em si"

Alegoria da caverna: liberação das formas
impuras rumo às ideias/fatos puras/puros?
Para cada fato há, no mínimo, um olhar, uma interpretação. Na verdade, se tomarmos em conta as referências da psicanálise, sempre há pelo menos dois olhares, dois discursos, duas interpretações, que muitas vezes se sustentam e se referem, como no processo especular. 

A questão da isenção no jornalismo deve levar em conta que um fato tem, efetivamente, pelo menos duas versões, dois olhares que fundamentam essas versões etc. Assim, é claro que para se dizer isento, o jornalista precisa fornecer versões do fato, ou levá-las em conta ao apresentar o fato. Por isso, é importante o "outro lado", levado tão pouco em conta, principalmente nos jornalões. 


O fato não é uma ideia platônica, não existe em si e por si, acima do mundo das formas. Aliás, a concepção de ideia platônica foi denunciada por Nietzsche como uma manobra algo desonesta, que veio para solapar a verve guerreira dos atenienses. Há, também, o Muniz Sodré, que chama a atenção para a manobra aristocrática do conceito de ideia pura, um ataque à democracia grega, que, claramente, desgostava os aristoi, os aristocratas. Mas, há outras interpretações mais interessantes e conjunturais daquele momento, como as dadas por Vernant e Dodds. 

Parece lógico que afirmar a existência do fato em si, independente de uma interpretação, é uma posição filosófica idealista. Não é errada, nem inadequada em si, mas pode ser, conforme a interpretação. 

Trata-se de um fundamento do velho mundo, uma crença que a filosofia europeia clássica, em grande parte idealista, alimenta. No chamado Novo Mundo, nos EUA pragmáticos como só eles, a verdade é entendida filosoficamente mais como um consenso do que como algo prévio ao consenso. Rorty que o diga.

O fato não existe por si só, depende de uma formulação, de uma interpretação, de um "olhar" ou de qualquer outro sentido que o faça existir. O único fato que se pode dizer que existe "em si" é a morte, pois é o único fato da vida que não apenas independe de qualquer sentido: está fora de qualquer sentido que lhe tentemos dar. 

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