quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Polícia não é para servir a governantes ou apenas a ricos

Assim como provavelmente "apagou" o Amarildo e
tantos outros, pode apagar você, também, cuidado
Que me perdoem as excelentes pessoas que já conheci e que pertenciam ou pertenceram à instituição policial. Que me perdoe, em especial, o Anselmo, um policial militar paranaense que já não está entre nós, mas me mostrou, com seu exemplo de vida, com sua sensibilidade e caráter, que há pessoas do mais alto valor humano na corporação da Polícia Militar. Que me desculpem todos os que cultuam e, muitas vezes veneram a instituição policial militar. Mas, me sinto na obrigação de expor uma reflexão sobre o assunto “polícia”, ainda mais levando em consideração o que aconteceu e acontece no Rio de Janeiro, hoje, onde a Polícia Militar é apontada como a pior do mundo, a que mais mata, a que mais comete execuções (os famigerados “autos de resistência”, execuções sumárias ou homicídios mascarados pelo termo) e é usada, agora, apenas para defender o mandato de um governador indesejado. 


Esse governador indesejado, o Sr. Sergio Cabral Filho, mandou essa mesma polícia agredir, matar, exterminar, milhares de pessoas em comunidades pobres, em atos de covardia que só pode nos causar nojo. É esse mesmo governante que manda, nestes dias, essa polícia agredir fisicamente pessoas, feri-las o mais gravemente possível, quando a agressão que essas pessoas lhe fazem ou fizeram, a ele ou à sua tropa colonial, é lhe dirigir o pedido, a exigência, de que renuncie, que suma da frente dos cariocas e, se possível, não mais apareça ou viva fora da vista, sem mostrar constantemente sua cara de tartaruga em meios de comunicação com palavras cínicas. Essa polícia, aliás, cada vez mais se mostra não como uma tropa “de” elite, como se costuma dizer, mas como uma tropa “da” elite, dos amigos endinheirados do governador, de outros políticos cariocas e de todos os que enriqueceram às custas do resto da população. É basicamente a esses que a polícia carioca tem servido e o delegado Hélio Luz, quando esteve à frente da polícia civil foi corajoso o suficiente para dizer isso. 

Aliás, falando em “auto de resistência”, tanto esse termo como “resistência seguida de morte” deveriam não mais ser usados, pois, como sugere o sítio da Justiça Global (http://global.org.br/programas/entrevista-com-sandra-carvalho-e-juliana-farias-da-justica-global-sobre-a-mudanca-nos-%E2%80%9Cautos-de-resistencia%E2%80%9D/), escondem “violações de direitos humanos ou ações de grupos de extermínio”. Em vez dos termos citados, que se use “lesão corporal decorrente de intervenção policial” e “morte decorrente de intervenção policial”, propõe o sítio. É claro que isso não muda substancialmente muito, mas, pelo menos, se deixaria de oficializar o cinismo da “resistência seguida de morte” ou do “auto de resistência”. 

No Rio, se criou um monstro a partir da mentalidade de segurança.  Um monstro, sem meias palavras, que não se esqueça disso. Essa monstruosidade defende acima de tudo os próprios interesses e os de quem o sustenta com prestígio e poder. O BOPE é apenas um de seus tentáculos, talvez o mais visível e condenável, mas não apenas. 

Há uma parcela significativa de nós, cidadãos brasileiros, que não aceitamos a polícia que existe, hoje. Ela não nos protege e não confiamos nela. O Rio tem seu monstro e dizem os organismos internacionais de direitos humanos que é o mais cruel e assassino do mundo, quando não o mais corrupto (corrupção é algo maior do que receber propina, está mais ligado à venda do caráter, à dissolução do respeito pelo semelhante e à negação de qualquer princípio ético). 

Mas, não é só o Rio, ou São Paulo. A polícia, notadamente a militarizada, tem que ser repensada como um todo e não temo dizer que não há por que existir uma polícia que seja militar. Polícia Militar usavam os colonizadores, os feitores, é uma tropa colonial com validade vencida, como sempre digo. Um exército, uma tropa militar, é para ser usada contra inimigos externos, em guerras, nunca contra a própria população. 

Pela força que esse monstro adquiriu, recomendo a todos os que se posicionam contra ele, ou a favor de sua morte, cuidado, muito cuidado. Mas, por outro lado, também espero coragem, muita coragem, porque precisamos mudar esta realidade injusta e que nos está custando vidas preciosas. O tal Amarildo é só um ícone, mas são milhões de Amarildos, assim como foram os Herzogs e os Fiéis Filho, no passado, assassinados por essa mesma instituição militar ou por alguma outra congênere policial. 

Polícia não é para servir a governantes ou apenas a ricos. Se é só para isso, que acabe, pois não precisamos dela. 

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