sexta-feira, 23 de agosto de 2013

No Rio, o terrorismo contra a pobreza, por Júlia Gaspar

Isso se chama terrorismo de Estado, cuja maior 
covardia é escolher como alvo a população pobre
O texto "No Rio, o terrorismo contra a pobreza" é de 2006 e lembra o quanto o Estado Terrorista já está instalado no Rio há tempo, muito tempo. O caveirão não é a primeira iniciativa terrorista, é a apenas um aprimoramento do terrorismo estatal contra sua própria população. Notadamente nos últimos anos, porém, a situação piorou, as práticas terroristas se acirraram e o governo do Rio, unido à prefeitura carioca, se mostra cada vez mais truculento. 

As imagens das últimas manifestações de rua só vêm corroborar isso. 

A PMERJ, totalmente fora de controle ou controlada por um ditador, bateu, simulou ataques a si própria, atirou em manifestantes com balas de borracha, balas de chumbo, jogou bombas de gás dentro de lares, bares e até mesmo dentro de uma clínica. Mostrou, acima de tudo, que não pode existir do modo como existe hoje. Tem quer ser extinta, urgentemente. Mas, é bom ter cuidado, pois todo aquele que levanta a voz contra ela corre sério risco de vida. A nada elogiável definição dessa instituição, principalmente do BOPE, como composta de assassinos frios não está distante da realidade. Certamente, não pode ser generalizada, mas os fatos mostram que deve ser levada em consideração. 


E tanta violência para o quê? Para manter a boa vida de meia-dúzia de malfeitores endinheirados que enriqueceram com o crime e que têm a simpatia de governantes e dos banqueiros, que faturam com negócios escusos e, não raro, com o tráfico de drogas, negócio escuso que se alimenta da proibição e da repressão? 

Para o quê? Para demonizar a população pobre associando-a ao crime? 

Parece que tanta violência insana se destina a manter o emprego de um governador que mandou maltratar e matar tantos nas comunidades pobres cariocas, numa autêntica política de extermínio que ceifou vidas, causou dor a famílias e destruiu a vida dos que sobreviveram. 

Muitos cariocas e fluminenses vêm definindo o governador como um sujeito que claramente não tem qualquer interesse político a não ser ter boa vida e encher os próprios bolsos e os dos amigos chegados. O dizem patrono de um prefeito que somente deixará como legado a perseguição aos mais pobres e os tapetes vermelhos na passagem dos amigos ricos. 

Os últimos anos são, segundo tantos, para serem lembrados como uma espécie de idade das trevas para o estado e a cidade do Rio de Janeiro. Sem esquecer, é claro, de citar gestões anteriores, como a de Garotinho e sua esposa, hoje inimigos fidagais de Sergio Cabral.

Sou carioca, cresci bem próximo ao atual governador, chegando inevitavelmente a conhecê-lo e a ter que algumas vezes conviver com sua presença pernóstica, sua malandragem "coca-cola" e sua ginga de otário metido a esperto. Creio que, após suas nefastas práticas como governador, ele poderia não apenas renunciar, mas se mudar da cidade e do estado, para que cariocas e fluminenses possam mais rapidamente esquecer os tempos difíceis em que o tiveram no Palácio Guanabara. Tempos que, tudo indica, vão chegando rapidamente ao fim pela pressão das ruas. 

Segue o texto de Júlia Gaspar. 

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No Rio, o terrorismo contra a pobreza

Júlia Gaspar, Rio de Janeiro (RJ)


O medo que as crianças tinham do Bicho Papão caiu em desuso; o monstro da vez é o Caveirão. Mas este não foi extraído de um conto de fadas. É algo bem verdadeiro e assustador até para adultos: trata-se de um carro blindado do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope) do Rio de Janeiro que tem o desenho de uma caveira com duas pistolas cruzadas e uma faca enfiada na cabeça, além de uma série de fuzis que eventualmente dão tiros para todos os lados de forma aleatória. 

Esse típico veículo de guerra entra nas favelas do Rio de Janeiro todos os dias com um alto-falante que faz ameaças aos moradores: "Sai da rua"; "Vai dormir"; "Vim buscar sua alma". Quem é pego de surpresa, precisa encarar ou pode ser morto na tentativa de se esconder.

Essa conduta da polícia militar carioca está mobilizando movimentos sociais e Organizações Não-Governamentais (ONGs), como a Anistia Internacional, o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, a Justiça Global e a Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência. Juntas, essas entidades preparam um abaixo-assinado que reivindica à governadora do Estado do Rio de Janeiro, Rosinha Matheus (PMDB), a suspensão do Caveirão, definindo-o como um "instrumento de terrorismo, inconstitucional e contrário aos mais elementares direitos humanos". Além das assinaturas no Brasil, a governadora vai receber de 72 países cartões postais com a foto do Caveirão e um texto em repúdio ao veículo. 

Até o momento, a polícia militar possui oito blindados deste tipo - três de uso do Bope e cinco dos comandos regionais. O tenente coronel Aristeu Leonardo Tavares, chefe do setor de Relações Públicas da Polícia Militar do Rio de Janeiro, afirma que a experiência possui resultados tão compensatórios que policiais militares de outro estados buscam implementar o sistema. Ele também diz que o Caveirão é uma das causas da diminuição drástica do número de policiais mortos em serviço. Mas Marcelo Freixo, da ONG Justiça Global, explica que a quantidade de civis mortos pela PM aumentou muito e acusa a polícia do Rio de Janeiro de ser a mais violenta do mundo. 

Muitas das mortes causadas por policiais são registradas como "auto de resistência", que significa que supostamente o indivíduo morreu em conflito com a polícia. O professor Ignácio Cano, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), fez uma pesquisa e constatou que, em 70% dos casos registrados como "auto de resistência", os tiros foram dados pelas costas e a curta distância. Como não há ninguém que troque tiros de costas, foram, na realidade, execuções sumárias. Na maioria dos casos, cabe apenas à família provar a inocência do morto, dizendo que não enfrentou a polícia. O confronto fica resumido à palavra do morador do morro versus a palavra do policial.

Terrorismo social

A maioria das vítimas de violência policial é de moradores da favela. E, apesar de os bandidos serem minoria nas favela (no Rio de Janeiro como em outras metrópoles), isso é o suficiente para legitimar, nas políticas de segurança pública, a criminalização de toda uma comunidade. "Ocorre que não está se criminalizando o crime, mas sim a pobreza", afirma Marcelo Freixo. 

O ativista também critica o "mandato de busca genérico", instrumento pelo qual um juiz autoriza a polícia a entrar na casa de qualquer pessoa de uma comunidade inteira. Ou seja, toda a favela é suspeita. A justificativa que consta de um desses mandados é mais que preconceituosa: "para contribuir com os incorruptíveis policiais do RJ (...) e combater o lixo genético da sociedade". 

O conceito de que bandido e favelado são sinônimos vem desde as músicas cantadas durante o treinamento de membros da divisão de elite do Bope. O relatório "Eles entram atirando", divulgado pela Anistia Internacional, descreve algumas dessas canções: "O interrogatório é muito fácil de fazer / pega o favelado e dá porrada até doer / O interrogatório é muito fácil de acabar / pega o favelado e dá porrada até matar". Outra dessas músicas citadas no documento: "Bandido favelado / não varre com vassoura / se varre com granada / com fuzil, metralhadora".

Repressão

"A primeira coisa que a polícia faz é acusar as pessoas de traficantes, e a mídia reproduz", diz Deley, morador da Favela de Acari, na capital fluminense. Deley é professor de futebol e conta que estava em aula com seus alunos, quando ouviram que o Caveirão estava subindo o morro, então todos correram, apavorados. Ele lembra também de uma das vezes em que a polícia invadiu a favela, porque os traficantes não tinham pagado a propina dos policiais. E fala que, em represália, os PMs mataram um garoto, prenderam em frente ao Caveirão, rodaram pela área esperando trazerem o dinheiro e ameaçaram colocar mais cinco corpos em cima do blindado. Para Marcelo Freixo, a luta de direitos humanos é pedagógica, é a construção de uma cultura de direitos. Por isso, a campanha contra o Caveirão faz uma crítica à política de segurança pública e leva a sociedade a discutir a realidade em que vive.

http://www.brasildefato.com.br/node/939

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