quinta-feira, 22 de agosto de 2013

"Mais Médicos" para eleger Padilha

Padilha é a esperança da família para tomar o governo de
São Paulo, por isso o governo aposta no "Mais Médicos"
E se mantém a polêmica acerca de importar médicos para melhorar a saúde no interior do país. Aplausos, aplausos, louvável, senhor ministro, como é mesmo o nome... Ah, Padilha. Aplausos irônicos, senhor ministro, irônicos. 

O importante no Ministério da Saúde, hoje, é a campanha “Mais Médicos” e pronto. O SUS? Como sempre, em crise, enquanto os planos de saúde privados cada vez mais desrespeitam os clientes. Saúde no Brasil? Bem, quem sabe os médicos cubanos tragam alguma boa contribuição, pois parece que lá, na ilha, a coisa funciona. Dizem que funciona e é provável que seja verdade. A dúvida é como vão fazer ao chegar aqui e encarar um sistema que não funciona. 



Mera farsa

Interessante, porém, é pensar que tudo indica que o “Mais Médicos” existe, na prática, para dar visibilidade a Padilha e seu projeto de ganhar a eleição para o governo de São Paulo no ano que vem. O programa “Mais Médicos” é, no momento, o carro chefe da campanha de Padilha. O PT quer São Paulo e está investindo no ministro, no Padilha. A militância intelectual orgânica do partido está a todo vapor defendendo a vinda de médicos de Cuba, de Portugal, Argentina etc. Não é simples, até porque um médico português de peso disse que o Brasil está propondo a escravidão aos médicos que se engajarem no programa, eles ficam com o visto de permanência atado à permanência em determinada localidade. O argumento é interessante e pode denunciar o caráter farsesco da proposta que existe para eleger Padilha. 

Esse “caráter farsesco”, aliás, parece ser a tônica do partido de Padilha, o PT, o que está no poder. Aliás, me desculpe o pessoal da militância do PT: talvez seja melhor dizer que é a tônica do governo que é composto por figurões do PT. Peço desculpas porque, em minha vida, conheci muitos respeitáveis militantes do partido, que curiosamente, hoje estão fora do partido, bradando com os punhos fechados contra a agremiação que abandonaram. Recentemente, soube de um grande militante, o deputado federal Dutra, do Maranhão, que chutou o balde e disse “chega”. 

Os bons saem do PT, quem fica? Os mensaleiros, responde alguém no Facebook. Padilha é mensaleiro? Não sei exatamente, porque esse termo é um tanto específico ao citar um episódio de corrupção política localizado temporal e espacialmente, quanto muito genérico, pois dado os condenado no processo do Supremo serem do PT, o termo ficou associado ao PT, mas não se vá dizer que todos os petistas recebem dinheiro por fora para votar ou servir ao partido. É certo que há dezenas de milhares de cargos comissionados no governo, muitos e muitos ocupados por filiados ao partido, mas sempre quero crer que a concentração de renda em seus bolsos (os salários não são nada maus) não pode ser a maior motivação desses que se dizem “de esquerda”, logo trabalham, ou dizem trabalhar, pela distribuição de renda. Pelo menos, assim espero. 

Se quiser ajudar, comece investindo 10% no SUS, Padilha!

Mas o Padilha está aí, candidatíssimo ao governo de São Paulo. E, tudo indica, usa um programa polêmico para mostrar ao eleitorado como ele é corajoso para defender os interesses dos mais pobres. Na prática, ele sabe, eu sei, você sabe e provavelmente metade da torcida do Flamengo também sabe que colocar médicos no interior é bom, mas não resolve, em boa parte dos casos, o problema. Promoção de saúde é mais do que medicalizar, qualquer profissional de saúde sabe disso. O interior do país precisa provavelmente de médicos, mas precisa de equipes de Saúde da Família, de Agentes Comunitários de Saúde, de postos de saúde com equipamento, equipe multiprofissional, hospitais de especialidades próximos ou com transporte facilitado etc. E precisa também de saneamento, de geração de renda, de cultura (não entretenimento barato) e de compromisso do poder público com a saúde, é claro, de investimentos, dinheiro para custear tudo o que é necessário para promover saúde. Médico é bom, é claro, mas medicina não é panaceia. 

No entanto, o interessante é que Padilha e o PT apostam nesse programa polêmico e podem estar declarando que apostam na “idiotização” do debate, na idiotia do eleitor. Parece que estão apostando no velho modelo da estetização da política, contra o qual se ergueu Walter Benjamin, o definindo como o modelo fascista de fazer política. E como se poderá negar que tanto Mussolini quanto Hitler, tanto Franco quanto Salazar, se garantiram na promoção da idiotia como base de sustentação? Que me desculpe o ministro e todos os outros que defendem o programa, mas, parafraseando o já citado Benjamin, contra a estetização do debate político, é preciso politizar a farsa estética. E o que é o “Mais Médicos” senão uma farsa desse tipo? 

Ora, Padilha, se você quiser ajudar mesmo o pessoal do interior do país, invista no SUS, no Sistema Único de Saúde, que o pessoal autêntico do seu partido ajudou a construir e lutou para garantir nas últimas décadas. Acolha a campanha dos 10% do orçamento para o SUS, crie condições para que os médicos se sintam atraídos para ir aonde o povo está. O SUS é um sistema exemplar, um exemplo de competência daquele pessoal da Reforma Sanitária e de tantos profissionais de saúde que o criaram, propuseram e o sustentam durante os últimos 23 anos. Muitos do PT, como já disse, e muitos que já deixaram o partido por discordar dos rumos do governo dos figurões do partido. 

Ainda há tempo de mudar o rumo, Padilha.

Não dê mau exemplo

Se quiser mesmo ter um mote de campanha ético, deixe de manipular a consciência da população criando inimigos, demonizando os médicos. Todos sabemos que há muitos malandros e vagabundos na profissão, assim como há muitos vagabundos entre todos os outros profissionais. Mas, cá para nós, criar um programa desses, que não resolverá nada e só serve para sustentar sua campanha, é feio, é malandragem. 

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