segunda-feira, 19 de agosto de 2013

E viva a kakistocracia

O governo do PT não consegue esconder mais suas falcatruas e parece claro que usa de recursos do velho populismo para se sustentar no poder. Por outro lado, a oposição tucana patina em escândalos, principalmente os relacionados a um suposto jogo de propinas e vantagens no metrô paulistano e Marina Silva precisa explicar quem financia sua campanha. Parece que o despertar da campanha de 2014 anuncia que faltarão ventiladores para espalhar tanta merda. Parece uma espécie de saco de gatos no qual todos brigam e ninguém tem razão. Ou, mais precisamente, todos se acusam, mas ninguém tem a ficha limpa. 



Eduardo Campos é o menos atacado e o que mais, aparentemente, consegue, neste momento, manter o telhado intacto, ou quase. Se começar a pintar como preferido ou, no mínimo, como aspirante a preferido, pode esperar as pedras. Além do mais, os petistas ainda nutrem a esperança de vê-lo compondo com Dilma ou Lula em 2014. No dia em que isso for totalmente descartado, aí tudo muda. 

O que importa é que não dá para salvar ninguém, nem enaltecer a pureza ou condenar a impureza. Todos são políticos, “raposas do rabo felpudo”, conforme diz o povo. Você não pode escolher um (ou uma) candidato(a) apenas por suas virtudes pessoais, ou mesmo políticas, se estas forem consideradas isoladamente. Todos têm máculas e cada um tem articulações específicas no contexto político. Essas articulações vão determinar alianças e compromissos que, via de regra, não são assumidos levando você em conta. Levam em consideração os interesses do grupo que sustenta o(a) candidato(a). 

Você me diz: “Mas isso é óbvio!”. Ok, eu respondo, se você sabe disso é óbvio, mas para você. A maior parte dos mortais não entende exatamente como a coisa funciona. Acredita, vota e se decepciona. 

A gente estamos bem

A política está dominada e determinada por interesses que se manifestam economicamente. Cada grupo ou partido interessado em ocupar “cadeiras”, sejam de Presidente da República, de deputado, vereador ou mesmo de ministro ou diretor de estatal, precisa se integrar a grupos que prometam sustentar esse interesse, em troca de algum tipo de vantagem, é claro. 

Nos discursos oficiais, se costuma dizer que você é importante, é cidadão, eleitor, que depende de você o futuro do país etc. Na prática, a sua importância é bem pequena, a não ser que você seja um dos que sustentam algum político ou partido político, financiando uma campanha e, é claro, cobrando, depois da eleição, a conta. Aí, sem dúvida, você é muito importante. Se não, é um mero eleitor. 

O eleitor não vale quase nada, mas, ironicamente, de dois em dois anos os partidos o procuram para que ele e mais milhares ou milhões de pessoas como ele “depositem” sua confiança em determinados candidatos, pessoas como ele que, um dia, foram abençoadas e alcançaram a luz de um mandato. Essas pessoas deixam de ser “qualquer um” e se alçam ao céu das estrelas com votos e mandato. Ao fazer isso, se destacam da massa e passam a ser tratados não mais como “Ei, você!”, mas pelo nome e, não raro, com o prefixo “doutor” ou “doutora” antes. 

Uma fonte me conta que até mesmo o Lula, que foi presidente e é inegavelmente inteligente, mesmo sem ter estudado, era chamado de doutor por muita gente. “Doutor Lula”, eles diziam, “como está o senhor?”. “A gente estamos bem”, o doutor respondia, muitas vezes. 

Em poder de gangs

As eleições de 2014 vão ser bem disputadas, isso parece consenso. Parte da dificuldade estará, com certeza, na falta de credibilidade que caracteriza candidatos e partidos. No geral, não há substancial diferença entre o PT e o PSDB, muito menos entre Marina Silva, sua Rede e qualquer outro partido de direita ou de esquerda. Não se trata de uma dificuldade para escolher qual o melhor. Pelo contrário: a escolha ficará no “menos mau” (ou menos má). 

Isso, dizem alguns, é democracia. Mas, na prática, há outro nome para isso: kakistocracia. Segundo Mário Ferreira dos Santos, no seu Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, esse é o nome que se dá quando há o governo dos piores, ou em termos preciso do dicionário: “É o estado de corrupção do governo, quando cai, pela demagogia e pela burla eleitoral, explorando a ignorância dos eleitores, em poder de ‘gangs’, e grupos corruptos e corruptores”.

Talvez você viva numa kakistrocracia e nem sabia. 

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