quarta-feira, 19 de junho de 2013

Visão do colonizador: epa, alto lá, isso é o negativo do “jeitinho” europeu e é aquele que os gringos atribuem aos bárbaros...

Circula na internet a seguinte imagem (à esquerda), com essa mensagem extremamente bem intencionada e que representa, para mim, um exemplo das boas intenções que certamente povoam o inferno. 

Tá, muito bonito isso, mas cuidado: levar essas recomendações ao extremo pode ocasionar efeitos colaterais terríveis. Tente pensar que o ser humano não é um robô ou boneco e que o que está sendo "vendido" nessa mensagem é um modelo civilizatório, não "O" modelo civilizatório. Cuidado, em terra de espelhos, quem quer ter boa aparência se equivoca mais que o necessário, confunde os lados e as posições políticas. 

O "jeitinho brasileiro" não é canalha como parece descrito, é uma defesa contra o poder do colonizador, ou melhor, foi fundamental durante bastante tempo como defesa, talvez não seja mais e, quem sabe, tenha se tornado até indesejável. Mas, é importante sabe, a canalhice e o desrespeito ao semelhante nunca foram e nunca serão apanágio do brasileiro. O chamado "primeiro mundo" tem dado péssimos exemplos nesse sentido (o que os EUA fizeram e fazem dispensa comentários nesse sentido), muito mais do que todos os que os brasileiros já deram. 

Mas, curiosamente, jamais vi ninguém falar do péssimo “jeitinho ianque”. 

Na relação posta na imagem, há um conjunto de pequenas grandes canalhices que não representam o chamado "jeitinho brasileiro", que, como dito, é mais uma reação malandra a um poder opressivo do que uma forma irresponsável ou calhorda de ser e proceder. 

Em boa parte, o “jeitinho” se desenvolveu sob a seguinte lógica do colonizado diante do colonizador: 

1. As regras sob as quais os poderosos vivem e as quais querem me impor, foram criadas em outro lugar, por outra gente, não foram criadas por mim nem por qualquer conterrâneo meu;

2. Essa gente tem hábitos e crenças muito peculiares, próprias deles, não minhas; 

3. Essas regras foram “exportadas” em bloco para os locais que o povo (que criou essas regras e o modo de ser característico delas) invadiu e “colonizou” como parte do processo de dominação e controle - ao colonizador causa horror a singularidade do colonizado, quando há;

4. Toda e qualquer resistência ao poder do colonizador é classificada por este como barbaridades e atribuídas características bárbaras, inumanas e criminosas a todo aquele que destoe ou discorde dessas regras;

5. Essas regras servem basicamente ao senhor colonial, não ao colonizado, mas aquele as tenta impor a este como atributos universais que caracterizam todo aquele que é civilizado;

6. Essas regras não representam “a” civilização, mas a civilização do colonizador.

Para entender melhor o "jeitinho" ou o "jeito" brasileiro, recomento Nelson Rodrigues. Acho que foi o autor que melhor soube captar o "humano" brasileiro ou, talvez mais precisamente, o carioca, praticante do "verdadeiro jeitinho", que não se encaixa na relação proposta na imagem, que não passa do resultado daquilo que o frio olhar preconceituoso e crítico do colonizador "enfiou" na subjetividade nacional, criando o que Nelson chamou de "complexo de vira-lata". 

O vira-lata age como descrito na imagem.

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