sábado, 22 de junho de 2013

“Primavera brasileira” parece ir além do que as velhas teorias podem explicar

Vou propor, rapidamente, propor um norte para que se pense o sentido do que ocorre. Sem aprofundamentos, alerto, apresento apenas ideias expostas como parte de uma compreensão mais global sobre essa conjuntura. Utilizo o termo “multidão”, inspirado nesse conceito de Hardt & Negri, nos seus livros “Império” e “Multidão”, diferenciado de “povo”, que se refere especificamente ao Estado Nação, modelo (Estado Nação/povo) desgastado profundamente durante todo o século XX, tendo sido o seu enfraquecimento (e até mesmo fim, como querem alguns) uma das características do século. Uso a noção de direita/esquerda de Norberto Bobbio, sendo a primeira voltada para práticas de concentração de renda, num claro desequilíbrio da balança, e a segunda para a distribuição de renda, equilibrando a balança social.

Em primeiro lugar, tratemos do porquê dessas manifestações serem possíveis em uma sociedade aparentemente despolitizada, de pessoas que descreem dos políticos e de suas instituições, não filiadas a partidos e não conectadas aos discursos destes, logo pessoas, cidadãos, sem lideranças políticas significativas. Aliás, duas das principais dessas lideranças sofrem ataques até mesmo de quem antes os apoiava ou suportava e é claro que falo do ex-presidente Lula e da atual presidente Dilma Rousseff. E não creio, digo já, possível definir as manifestações contra o governo como compostas por “leitores da Veja”, membros da apedrejada “direita”, até porque o posicionamento esquerda/direita parece, hoje, muito difuso e há claras situações em que governos que são definidos ou se definem como “direita” ou “esquerda” assumem atos e posições que desmentem esse status. O caso brasileiro me parece exemplar, a não ser que se considere a estratégia populista do governo do Partido dos Trabalhadores como práxis da esquerda. Eu não considero assim. Parece haver muitas nuances entre a direita e a esquerda.

Nem esquerda, nem direita

Começo dizendo que não há como definir precisamente o motivo que tem levado milhões de pessoas, todos os dias, em inúmeras cidades brasileiras para as ruas, tomando-as para, juntas, protestar. se isso for feito com base nas velhas teorias e corriqueiras compreensões dos fenômenos de massa.

Há novidades e uma delas é a falta de um centro organizador. Efetivamente, não há. Como a “Multidão” descrita por Negri e Hardt, não se trata de povo, de manifestação popular no sentido clássico do termo, como visto em todos os países ocidentais, notadamente na segunda grande guerra. Não são fascistas, nazistas ou comunistas, os manifestantes. Não são de esquerda ou de direita, nem de qualquer centro. Não sequer se pode dizer que compartilham de uma posição moderada ou militante. Não se trata de nada disso.

Confusão inevitável

Não há dúvida que nossa sociedade interligada em rede forma um imenso corpo virtual e, mais ainda, que como em qualquer multidão, o participante unitário não se sente mais preso a seu mísero corpo, mas experimenta a sensação de ter um imenso e forte corpo, o da multidão. Maffesoli tratou bem desse tema e nos orienta para a reflexão sobre o fim da identidade como conhecida por nós até algumas décadas. Em seu lugar, um processo constante de identificação, ou, mais precisamente, identificações. Se constante, é claro, mostra-se multifacetado, caleidoscópico, próprio para ocasiões, vestido de acordo com a moda ou com a tribo da qual se faz parte.

Torna-se mais fácil, a partir deste ponto, compreender o porquê das manifestações e, acima de tudo, o seu caráter plural, fragmentário e, por que não dizer, confuso, claramente confuso. Mas, olhe em qualquer dicionário o significado de “confusão”. Depois me diga se não é mesmo confuso, como teria que ser algo assim. Mais: se você observar bem, a vida é um tanto confusa, muitas vezes e, pior ainda, as mudanças historicamente constantes da sociedade humana e, principalmente as dos últimos cinquenta anos parecem tornar as coisas mais incertas, mais passíveis de produzir confusão.

No meio do turbilhão, porém, há um sentido.

A nacionalidade oculta vai aparecendo

No caso brasileiro, o sentido se dá por uma insatisfação não consensual, mas unânime, em relação a, em primeiro lugar, o Estado enquanto entidade que teria como função, ao menos se justifica assim, proteger o cidadão, tratando-o com respeito, não o distinguindo, igualitariamente. Em segundo lugar, contra a lógica desse mesmo Estado, que além de não oferecer serviços públicos de qualidade, arrecada impostos com insana voracidade e privilegia grupos específicos a despeito do cidadão. As manifestações dizem isso, ainda que com cartazes, palavras de ordem e pensamentos divergentes.

Alguns falam em manipulação das massas, outros tremem de medo de um golpe de Estado, há mesmo os que propõem o tal golpe e os que vão para ruas sentir o gozo de andar com milhões a seu lado, real e virtualmente, em diversos lugares. De certo modo, por detrás dos ecos dessa multidão, dessa confusão multifacetada de vozes dissonantes, há uma comunidade imaginada e um povo, sim, um povo, não uma multidão, que a imagina. O que quero dizer é que há nas manifestações um espírito de nacionalidade desenhado sob a garatuja da turba pacífica ou não, incendiária ou não.

Chega de vira-latice

Curioso é perceber que tudo isso acontece durante um torneio internacional de futebol que, no fim das contas, passou de astro para um papel coadjuvante com velocidade indescritível. De certo modo, uma das mais importantes mensagens que podem estar sendo transmitidas é que o “escrete” (como chamava Nelson Rodrigues a seleção nacional de futebol) não é mais a pátria em chuteiras. O povo brasileiro, expresso por essa multidão das ruas, parece dizer que é ele que quer, a partir de agora, calçar as chuteiras. Isso pode significar a cura do complexo de vira-lata que o mesmo Nelson Rodrigues diagnosticou como o mal fundamental, nato e hereditário, do brasileiro.

Ou, no fim das contas, tudo pode acabar na terça-feira. Não terá sido mais do que um golpe patrocinado pelos donos do mundo que, segundo consta, decidiram que é preciso mudar o comando do governo brasileiro, há quem aposte, ou mesmo que tudo isso não passa de um movimento intestino “de direita”. Bem, é preciso reconhecer que essas coisas, essas forças, existem e provavelmente estão, se não nos bastidores desde o início, acompanhando com interesse participativo tudo o que está acontecendo.


No entanto, é preciso ver que há mais forças agindo neste nosso mundo do que supõe toda a filosofia que mantém as coisas como estão. 

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