quinta-feira, 13 de junho de 2013

Não sofra em silêncio

Leio protesto indignado de um jornalista paulista, de nome Leonardo Sakamoto. Ele tem razão, não há dúvida. No texto intitulado “Por que esses vândalos não sofrem em silêncio?” o cara chega a brincar com a lógica do protestômetro, proposta que se ouve por aí. 
Fiquei bege ao ler propostas de que manifestações populares em São Paulo passem a ser realizadas no Parque do Ibirapuera ou no Sambódromo. Pelo amor das divindades da mitologia cristã, o pessoal só pode estar de brincadeira! Desculpe quem tem nojo de gente, mas protesto tem que mexer mesmo com a sociedade, senão não é protesto. Vira desfile de blocos de descontentes, que nunca serão atendidos em suas reivindicações porque deixam de existir simbolicamente. "Quesito: Importância social. Sindicato dos Bancários, nota 10. Movimento Passe Livre, nota 10. Movimento Cansei, nota 6,5".
Parar a cidade, inverter o campo, subverter a realidade. Ninguém faz isso para causar sofrimento aos outros (“ah, mas tem as ambulâncias que ficam presas no trânsito” – faça-me um favor e encontre um argumento decente, plis), mas para se fazer notado, criar um incômodo que será resolvido a partir do momento em que o poder público resolver levar a sério a questão.
Aplausos. Não porque o cara tenha dito ou escrito algo genialmente fora do comum ou da ordem. Ele simplesmente disse o óbvio. Se for para protestar naquele canto, por duas horas exatas e sem muito barulho, melhor é ir logo para o quartel e vestir uma farda para defender o poder instituído. Ou esquecer o assunto e ir ao bar tomar uma cerveja e fazer uma revolução entre copos. 

Uma das indignações de Sakamoto, aliás, é com a passividade bovina das boas ideias postas nas frases dos protestos online. Ele não fala nem refere nada a respeito, mas é até comovente acompanhar os protestos e manifestações via internet, em facebooks etc. Na aparência, todo mundo “é do bem” ou tenta ser. Todo mundo respeita os direitos dos gays, das lésbicas e de todas as minorias. Ai de quem disser que não. Ai daquele que destoar. As “Patrulhas Ideológicas” aquelas que Caetano Veloso denunciou, não morreram e estão fortes, muito fortes. O engraçado é que os patrulheiros são moral e eticamente probos, dizem que até a quinta página, por isso defendem com unhas e dentes a legalidade e até acham boa ideia ter um lugar para se manifestar. Já o têm no Facebook, por que não um protestômetro? Assim as ambulâncias podem circular em paz, a 10 km/h no trânsito engarrafado. Para mim, é a mesma lógica dos que estão do lado dos “direitos individuais” de todas as minorias. Direito individual é argumento liberal. A discussão é outra e não pode ser esgotada numa conversa acompanhada pelo laissez faire ou entre mãos invisíveis. 

Se é para levar a sério, tem que falar sério. Senão, vamos brincar e deixar tudo como está até mais tarde. 

O texto de Sakamoto é bom e merece ser lido em http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/06/13/protestos-pelo-brasil-por-que-esses-vandalos-nao-sofrem-em-silencio/

Leia aqui o que ele escreve aos colegas jornalistas e, se é um destes colegas, considere o dia ganho se entendeu bem o que o sujeito está dizendo (se é que já não entendeu, mas continua repetindo asneiras porque o editor assim deseja): 


Caro amigo e cara amiga jornalistas, falo com todas as letras: não existe observador independente. Você vai influenciar a realidade e ser influenciado por ela. E vai tomar partido e, se for honesto, deixará isso claro ao leitor. Sei que há colegas de profissão que discordam, que dizem ser necessário buscar uma pretensa imparcialidade, mas isso é só metade da história. Deve se buscar ouvir com decência todos os lados de um fato para reconstruí-lo da melhor maneira possível. Afirmar que existe isenção em uma cobertura jornalística de um conflito, contudo, só seria possível se nos despíssemos de toda a humanidade.

Não sofra em silêncio. Isso dá câncer. 

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