domingo, 23 de junho de 2013

Forma é poder: Paulo Leminski reduz a pó o argumento da neutralidade jornalística

Aqui, um excelente texto de Paulo Leminski sobre o texto jornalístico. Segundo o autor, jamais se pode definir o texto jornalismo como “realista”. Ele é, isso sim, naturalista, ou seja, automatizado, voltado para o conteúdo, não para a forma, enquanto o realismo é exatamente o oposto. O naturalismo, estilo literário nascido do jornalismo, omite, com a aparência da objetividade, sua plena subjetividade:


A "neutralidade" (objetividade) do discurso jorno/naturalista é uma convenção. Assim como a clareza, apenas uma propriedade (retórica) do discurso.
Não há texto literário sem perspectiva, quer dizer, sem intervenção da subjetividade.
 No texto naturalista (ou jornalístico), essa perspectiva é camuflada, sob as aparências de uma objetividade, uma Universalidade que - supostamente - retrata as coisas "tal como elas são".

Neste momentos em que a mídia se vê diante de acontecimentos sociais de grande relevância, como as manifestações nas ruas de praticamente todas as cidades brasileiras, parece ficar patente que toda a imparcialidade e objetividade dos grandes veículos são desmascaradas por uma significativa parte da sociedade. Assim, textos curtos e brilhantes como este merecem ser lidos. Fornecem os fundamentos de toda e qualquer crítica ao jornalismo dos grandes veículos.

Mas, também, o que esperar dessas “redes de massificação”? Cumprem, aparentemente, apenas o seu papel. O problema, sem dúvida, está no fato de que existem essencialmente para cumprir uma função pública, no caso a de informar e ajudar o cidadão a formar uma opinião, que será inevitavelmente chocada com outras opiniões e que, no seu conjunto, formam mais do que uma opinião pública, vão além de objetivam a estruturação de uma esfera pública, que Habermas acertadamente afirma ser a base da democracia moderna, uma reprodução da ágora ateniense. 

Ao apresentar como “A” verdade meras informações interpretadas segundo o interesse de grupos políticos e econômicos, parece inevitável afirmar que não cumprem com a função para a qual ganharam concessões do Estado. 

E, pior, ao mentir para o público, apresentando informações subjetivas que omitem sua natureza no véu de uma objetividade naturalista claramente alienante, os veículos de jornalismo da grande mídia têm contribuído para a deterioração da consciência do cidadão em todos os níveis, principalmente no político, mas não apenas: toda a formação cognitiva e emocional do indivíduo, além de sua crença ou descrença na ética, está à mercê dessa péssima influência. 

Essa objetividade é falsa. 
Ela apenas reflete a visão do mundo de dada classe social, de determinada civilização. 
Sua pretensão a "discurso absoluto" é totalitária.
Talvez, seguindo a exposição de Leminski, o mais importante neste momento seja o desmascaramento do naturalismo jornalístico. Há espaços de discussão e debate para isso e a disposição das pessoas que foram às ruas e protestaram contra a imprensa mostra que o caso não é somente de curtição no Facebook. 

Acompanhe o pensamento de Leminski. Boa leitura. 

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Paulo Leminski, caricatura de Marcos Guilherme

Forma é poder

Paulo Leminski

1

Em práticas de texto, a ênfase no "conteúdo" está ligada a uma certa noção de "naturalidade" na expressão.

A forma "natural" é a que revela o "conteúdo" de maneira mais imediata. Preocupações com a "forma" obscurecem o "conteúdo".

2

Essa "naturalidade", porém, só é possível através de um automatismo.

Só quem obedece a um automatismo pode ser natural.

Isso que se chama "naturalidade" é uma convenção. O natural é um artifício automatizado, uma forma no poder.

A despreocupação com a forma só é possível no academicismo.

3

Naturalismo, academicismo.

O apogeu do naturalismo (Europa, segunda metade do século XIX) coincide com a explosão do jornalismo.

O discurso jorno/naturalista representa o triunfo da razão branca e burguesa: o discurso naturalista é a projeção do jornalismo na literatura.

4

O discurso jornalístico é discurso automatizado.

Sua automatização decorreu de razões práticas, do caráter de NEGÓCIO que o jornalismo teve desde o início: a necessidade (contábil) de rapidez de redação, num veículo/mercadoria de edição diária, a necessidade de anonimato, sendo o jornal (a empresa) uma entidade impessoal a abstrata.

5

A "enxutez" do discurso naturalista do século X1X é obtida através de uma tremenda repressão exercida sobre a fantasia mítica: é um discurso castrado.

A disciplina do discurso naturalista, sua contenção, são calvinistas, puritanas, reprimidas a repressoras (Reich explica).

6

Projetado na literatura, esse discurso "impessoal", "objetivo" e "natural" é investido de "normalidade". Na raiz, a palavra "normalidade" indigita sua origem de classe. "Normal" vem de "norma". Norma é lei: poder. O discurso jorno/naturalista é o discurso do Poder.

7

Esse poder é branco, burguês, greco-latino-cristão, positivista, do século XIX.

Daí, as literaturas Latino-americanas, em seu momento de afirmação, privilegiarem as variantes ditas "fantásticas" do realismo.

8

No discurso jorno/naturalista, o poder afirma, sob as espécies da linguagem verbal, a estabilidade do mundo, DE UM CERTO MUNDO, suas relações e hierarquias. O discurso, esse, em sua aparente neutralidade, é ideológico, embora invisível (ou por isso mesmo): é ideologia pura.

Sua estabilidade é catártica: nos consola e engana com a imagem de uma estabilidade do mundo. De UMA CERTA ESTABILIDADE. Uma estabilidade relativa à visâo do mundo de uma dada classe social muito bem localizada no tempo e no espaço.

9

Contra a "neutralidade" do discurso naturalista branco, levantam-se os discursos reprimidos das culturas oprimidas, o frenético dinamismo mitológico dos fodidos, sugados e pisados deste mundo.
Dinamismo, também, de formas novas.

10

A "neutralidade" (objetividade) do discurso jorno/naturalista é uma convenção. Assim como a clareza, apenas uma propriedade (retórica) do discurso.

Não há texto literário sem perspectiva, quer dizer, sem intervenção da subjetividade.

No texto naturalista (ou jornalístico), essa perspectiva é camuflada, sob as aparências de uma objetividade, uma Universalidade que - supostamente - retrata as coisas "tal como elas são".

11

Invoca-se em vão o nome do realismo, que se procura confundir com o naturalismo.

Realismo, quer dizer, discurso carregado de referencialidade, não é sinônimo de naturalismo.

Ao contrário.

O discurso realista não camufla a perspectiva.

Realistas (e não naturalistas) são textos como o "Ulysses" de James Joyce.

Ou as "Memórias Sentimentais de João Miramar", de Oswald de Andrade.

12

O naturalismo é incompatível com o experimento. Com a linguagem inovadora.

O realismo favorece-os.

13

A atitude naturalista convencional não enxerga a realidade, no experimento em prosa.

Assim como não percebe sentimento no experimento poético. Pois identifica a expressividade com os signos convencionais do expressivo.

14

Uma prática do texto criativo, coletivamente engajada, tem a função de desautomatizar. De produzir estranhamento. Distanciamento.

É desmistificação da "objetividade" inscrita no discurso naturalista.

Essa objetividade é falsa.

Ela apenas reflete a visão do mundo de dada classe social, de determinada civilização.

Sua pretensão a "discurso absoluto" é totalitária.

15

Violação. Ruptura. Contravenção. INFRATURA.

A poesia diz "eu acuso". E denuncia a estrutura.

A estrutura do Poder, emblematizada na "normalidade" da linguagem.

16

Só a obra aberta (= desautomatizada, inovadora), engajando, ativamente, a consciência do leitor, no processo de descoberta/criação de sentidos e significados, abrindo-se para sua inteligência, recebendo-a como parceira e co-laboradora, é verdadeiramente democrática.

In Folha de S.Paulo: Folhetim, 04/07/1982. Reproduzido em ANSEIOS CRÍPTICOS, Criar Edições, Curitiba, 1986, p. 69 a 72.

http://www.elsonfroes.com.br/kamiquase/ensaioPL7.htm 

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