terça-feira, 4 de junho de 2013

Aquela coisa lá

"Aquela coisa lá" em um videogame, tão real quanto o real, ou mais
Um dia, conversava com um amigo diante de uma televisão. Assistíamos os noticiários da noite, o que fazíamos com frequência. Nossa conversa: todos os telejornais eram iguais, ou quase. A diferença estava, no máximo, em uma entonação de voz em determinado momento, na cor da gravata do apresentador ou no formato do nariz de sua colega. Muitas vezes, era quase imperceptível qualquer dessemelhança. Até mesmo as matérias das agências internacionais eram as mesmas e, não raro, tratavam de temas bizarros. As imagens que ilustravam essas matérias, como seria esperado, também eram as mesmas. 

Cansados de assistir aquela modorrenta exposição de notícias, trocamos o canal. Era segunda-feira e assistimos parte de uma resenha esportiva que tratava da rodada futebolística do final de semana. Reparamos, surpresos, que, ao contrário dos políticos ouvidos nos telejornais, dos temas quase monocórdicos lidos pelos apresentadores dos ditos (não âncoras, apresentadores mesmo), os analistas esportivos pareciam envolvidos carnalmente, ou, mais que isso, espiritualmente no debate. Tomavam posição, falavam claramente sobre o que tinham visto, ouvido e pensado. Tudo indicava que não estavam fazendo pose ou medindo as palavras. Eram gente e gente viva. 

Na mesma noite, na sequência, trocamos mais uma vez de canal e assistimos uma entrevista com um político nacional, se não me engano um deputado federal. A cada pergunta, era uma lengalenga, um discurso que tentava, via de regra, agradar a gregos, troianos, assírios e fenícios, ou seja, o político não dizia nada com nada, não tomava posição, não falava o que pensava. Provavelmente, sua assessoria estava nos bastidores orientando-o com mapas de pesquisas de opinião. O político, assim, claramente não pensava, apenas repetia frases feitas, relativizava o máximo possível, saía pela tangente, cuidava para ser bem aceito por todos. Em suma, parecia mais um boneco de ventríloquo do que uma pessoa. 

Entendemos, naquela noite, que assistir uma resenha esportiva era muito mais salutar e mesmo emocionante do que ouvir um político falar. Pelo menos, parecia que gente estava ali expondo ideias, divergindo, discordando e, muitas vezes, discutindo asperamente. Repito: havia, ali, seres vivos.

Maracanã? Para quem? 

Ontem, segunda-feira, dia 3 junho, não assisti nenhum telejornal, pois não tenho mais esse hábito desde que deixei de ser tolo o suficiente para ficar engolindo e engolindo aquela quantidade de informações parciais e subjetivas que são vendidas como imparciais e objetivas. Assisti apenas uma resenha esportiva, a da ESPN Brasil, que tem Trajano e Kfouri, dois sujeitos que falam e falam o que pensam, aparentemente doa a quem possa doer. Em um momento, falando da reinauguração do Maracanã, Trajano diz algo assim: “Maracanã? Não vou nem falar que aquilo é o Maracanã... Vou falar ‘aquela coisa lá’”. 

Tive a certeza: realmente uma resenha esportiva, principalmente a citada, com Trajano e Kfouri, é um dos poucos lugares em que a gente pode confiar que haverá tomada de posição, discordância, frases ferinas e credibilidade. Efetivamente, Trajano foi porta-voz de tantos, como eu, que olham o “novo” Maracanã (pela TV) e pensam: isso não é o Maracanã. 

Concordo com Trajano. Quando for me referir ao Maracanã de hoje, não me resta outra alternativa a não ser dizer: “aquela coisa lá”. 

Sem cheiro de povo

Um dos motivos pelos quais Trajano (e também Kfouri e também Fernando Calazans etc.) torcem o nariz para “aquela coisa lá” está na total e absoluta ausência, no jogo Brasil X Inglaterra, daquilo que chamamos (ou chamávamos) povo, isto é, os trabalhadores que guardavam uns trocados durante a semana para ver o seu time jogar no Maracanã. O que se viu na reabertura “daquela coisa” foi gente fresca, empombada, quase o público das corridas de cavalos em dia de Grande Prêmio Brasil, que eu, quando criança, assistia pela TV e via os cavalheiros com seus melhores ternos (havia mesmo alguns de fraque e cartola, parecendo pinguins degelados) e as madames com aqueles chapelões ridículos, mas sofisticados. 

Um torcedor enviou um e-mail que foi lido durante a resenha, no qual dizia que foi “àquela coisa” de trem, partindo de Duque de Caxias e, para sua surpresa, foi e voltou em vagões completamente vazios. Outro torcedor, dessa vez mineiro, garantia, em outro e-mail, que ia quase todos os finais de semana ao Mineirão e, quando fazia isso, ganhava mal, bem mal. Hoje, dizia ele, ganha bem, muito bem, mas ao pensar em ir assistir um jogo no estádio, deparou com o preço do ingresso: se fosse comprar ingressos apenas para ele e o filho, gastaria R$ 120,00. Isso, somente para entrar no estádio. 

A miséria desprezível da elite vira-lata

Nelson Rodrigues, se vivo, provavelmente ficaria triste e talvez não mais fosse ao estádio que leva o nome de seu irmão querido, Mário Filho. E, sentenciaria: “’Aquela coisa’ é a prova cabal que nossas elites padecem do mais flagrante e inequívoco complexo de vira-lata, nato e hereditário. O brasileiro, que eu já disse ser uma nova experiência humana, está sendo forçado a regredir e querem transformá-lo não mais num macaco, mas em coisa pior. Querem fazê-lo um soldadinho de chumbo, como o americano ou o europeu”. 

Parece realmente que a elite brasileira quer esquecer que vive nos trópicos. Se pudesse, faria cair neve no Natal, falaria inglês e se amontoaria em locais semelhantes à Barra da Tijuca do Rio de Janeiro, com uma réplica da estátua da liberdade no centro do bairro, shoppings centers espalhados em todos os quarteirões e a língua inglesa (com o sotaque nasal estadunidense) falada fluentemente. Yeah! 

Para essa gente, não mais deveríamos viver o real, não mais a realidade. Tudo não passa de um videogame. 

Em boa parte, os ricos (e os aspirantes a) daqui parecem seres caninos e pobres de espírito, miseráveis. Trocariam a companhia de todos os nossos patrícios para serem empregados, faxineiras ou mordomos de algum rico inglês ou suíço. Subalternos, mas bem vestidos. 

Essa elite anseia pela redução da maioridade penal para enjaular desde cedo todos que não lhes sejam feitos à sua semelhança, como se a sua aparência de plástico fosse assim tão atraente quanto julgam. 

Ora, esses nossos ricos estão provando que só há um tipo de miséria que merece o mais autêntico e visceral desprezo: a de espírito. 

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