domingo, 30 de junho de 2013

3 de junho, rádio The Voice of Russia: "Primavera turca ou apenas uma tempestade sazonal?" 19 de junho, Seattle Times: Comparação entre manifestações no Brasil e na Turquia, vale ler

3 June, 20:21  

Turkey unrest: “Turkish spring” or just a seasonal storm?

More protests are expected in the unrest-gripped Turkey after a weekend of anti-government demonstrations across the country.

The government seems to be completely unprepared both for the motives behind the protests and their evolution from a rally against plans to redevelop an Istanbul park into anti-government calls.
Turkey is not used to active street protests but the genie of unrest is already out of the bottle, and the protests were hardy sparked by plans to rebuild the Gezi Park alone. Experts name various versions of the events.
Some say that people are unhappy with a projected law limiting alcohol consumption in the country, some claim that Turks don’t like proposed changes in the governing system granting more powers to Prime Minister Recep Tayyip Erdogan after the 2014 elections.
Fierce clashes between tens of thousands of protesters and riot police have been reported in the Turkish capital of Ankara as well as the country’s major cities of Istanbul and Izmir. Thousands have been detained.

domingo, 23 de junho de 2013

Forma é poder: Paulo Leminski reduz a pó o argumento da neutralidade jornalística

Aqui, um excelente texto de Paulo Leminski sobre o texto jornalístico. Segundo o autor, jamais se pode definir o texto jornalismo como “realista”. Ele é, isso sim, naturalista, ou seja, automatizado, voltado para o conteúdo, não para a forma, enquanto o realismo é exatamente o oposto. O naturalismo, estilo literário nascido do jornalismo, omite, com a aparência da objetividade, sua plena subjetividade:


A "neutralidade" (objetividade) do discurso jorno/naturalista é uma convenção. Assim como a clareza, apenas uma propriedade (retórica) do discurso.
Não há texto literário sem perspectiva, quer dizer, sem intervenção da subjetividade.
 No texto naturalista (ou jornalístico), essa perspectiva é camuflada, sob as aparências de uma objetividade, uma Universalidade que - supostamente - retrata as coisas "tal como elas são".

Neste momentos em que a mídia se vê diante de acontecimentos sociais de grande relevância, como as manifestações nas ruas de praticamente todas as cidades brasileiras, parece ficar patente que toda a imparcialidade e objetividade dos grandes veículos são desmascaradas por uma significativa parte da sociedade. Assim, textos curtos e brilhantes como este merecem ser lidos. Fornecem os fundamentos de toda e qualquer crítica ao jornalismo dos grandes veículos.

Mas, também, o que esperar dessas “redes de massificação”? Cumprem, aparentemente, apenas o seu papel. O problema, sem dúvida, está no fato de que existem essencialmente para cumprir uma função pública, no caso a de informar e ajudar o cidadão a formar uma opinião, que será inevitavelmente chocada com outras opiniões e que, no seu conjunto, formam mais do que uma opinião pública, vão além de objetivam a estruturação de uma esfera pública, que Habermas acertadamente afirma ser a base da democracia moderna, uma reprodução da ágora ateniense. 

Ao apresentar como “A” verdade meras informações interpretadas segundo o interesse de grupos políticos e econômicos, parece inevitável afirmar que não cumprem com a função para a qual ganharam concessões do Estado. 

E, pior, ao mentir para o público, apresentando informações subjetivas que omitem sua natureza no véu de uma objetividade naturalista claramente alienante, os veículos de jornalismo da grande mídia têm contribuído para a deterioração da consciência do cidadão em todos os níveis, principalmente no político, mas não apenas: toda a formação cognitiva e emocional do indivíduo, além de sua crença ou descrença na ética, está à mercê dessa péssima influência. 

Essa objetividade é falsa. 
Ela apenas reflete a visão do mundo de dada classe social, de determinada civilização. 
Sua pretensão a "discurso absoluto" é totalitária.
Talvez, seguindo a exposição de Leminski, o mais importante neste momento seja o desmascaramento do naturalismo jornalístico. Há espaços de discussão e debate para isso e a disposição das pessoas que foram às ruas e protestaram contra a imprensa mostra que o caso não é somente de curtição no Facebook. 

Acompanhe o pensamento de Leminski. Boa leitura. 

========================================
Paulo Leminski, caricatura de Marcos Guilherme

Forma é poder

Paulo Leminski

1

Em práticas de texto, a ênfase no "conteúdo" está ligada a uma certa noção de "naturalidade" na expressão.

A forma "natural" é a que revela o "conteúdo" de maneira mais imediata. Preocupações com a "forma" obscurecem o "conteúdo".

2

Essa "naturalidade", porém, só é possível através de um automatismo.

Só quem obedece a um automatismo pode ser natural.

Isso que se chama "naturalidade" é uma convenção. O natural é um artifício automatizado, uma forma no poder.

A despreocupação com a forma só é possível no academicismo.

3

Naturalismo, academicismo.

O apogeu do naturalismo (Europa, segunda metade do século XIX) coincide com a explosão do jornalismo.

O discurso jorno/naturalista representa o triunfo da razão branca e burguesa: o discurso naturalista é a projeção do jornalismo na literatura.

4

O discurso jornalístico é discurso automatizado.

Sua automatização decorreu de razões práticas, do caráter de NEGÓCIO que o jornalismo teve desde o início: a necessidade (contábil) de rapidez de redação, num veículo/mercadoria de edição diária, a necessidade de anonimato, sendo o jornal (a empresa) uma entidade impessoal a abstrata.

5

A "enxutez" do discurso naturalista do século X1X é obtida através de uma tremenda repressão exercida sobre a fantasia mítica: é um discurso castrado.

A disciplina do discurso naturalista, sua contenção, são calvinistas, puritanas, reprimidas a repressoras (Reich explica).

6

Projetado na literatura, esse discurso "impessoal", "objetivo" e "natural" é investido de "normalidade". Na raiz, a palavra "normalidade" indigita sua origem de classe. "Normal" vem de "norma". Norma é lei: poder. O discurso jorno/naturalista é o discurso do Poder.

7

Esse poder é branco, burguês, greco-latino-cristão, positivista, do século XIX.

Daí, as literaturas Latino-americanas, em seu momento de afirmação, privilegiarem as variantes ditas "fantásticas" do realismo.

8

No discurso jorno/naturalista, o poder afirma, sob as espécies da linguagem verbal, a estabilidade do mundo, DE UM CERTO MUNDO, suas relações e hierarquias. O discurso, esse, em sua aparente neutralidade, é ideológico, embora invisível (ou por isso mesmo): é ideologia pura.

Sua estabilidade é catártica: nos consola e engana com a imagem de uma estabilidade do mundo. De UMA CERTA ESTABILIDADE. Uma estabilidade relativa à visâo do mundo de uma dada classe social muito bem localizada no tempo e no espaço.

9

Contra a "neutralidade" do discurso naturalista branco, levantam-se os discursos reprimidos das culturas oprimidas, o frenético dinamismo mitológico dos fodidos, sugados e pisados deste mundo.
Dinamismo, também, de formas novas.

10

A "neutralidade" (objetividade) do discurso jorno/naturalista é uma convenção. Assim como a clareza, apenas uma propriedade (retórica) do discurso.

Não há texto literário sem perspectiva, quer dizer, sem intervenção da subjetividade.

No texto naturalista (ou jornalístico), essa perspectiva é camuflada, sob as aparências de uma objetividade, uma Universalidade que - supostamente - retrata as coisas "tal como elas são".

11

Invoca-se em vão o nome do realismo, que se procura confundir com o naturalismo.

Realismo, quer dizer, discurso carregado de referencialidade, não é sinônimo de naturalismo.

Ao contrário.

O discurso realista não camufla a perspectiva.

Realistas (e não naturalistas) são textos como o "Ulysses" de James Joyce.

Ou as "Memórias Sentimentais de João Miramar", de Oswald de Andrade.

12

O naturalismo é incompatível com o experimento. Com a linguagem inovadora.

O realismo favorece-os.

13

A atitude naturalista convencional não enxerga a realidade, no experimento em prosa.

Assim como não percebe sentimento no experimento poético. Pois identifica a expressividade com os signos convencionais do expressivo.

14

Uma prática do texto criativo, coletivamente engajada, tem a função de desautomatizar. De produzir estranhamento. Distanciamento.

É desmistificação da "objetividade" inscrita no discurso naturalista.

Essa objetividade é falsa.

Ela apenas reflete a visão do mundo de dada classe social, de determinada civilização.

Sua pretensão a "discurso absoluto" é totalitária.

15

Violação. Ruptura. Contravenção. INFRATURA.

A poesia diz "eu acuso". E denuncia a estrutura.

A estrutura do Poder, emblematizada na "normalidade" da linguagem.

16

Só a obra aberta (= desautomatizada, inovadora), engajando, ativamente, a consciência do leitor, no processo de descoberta/criação de sentidos e significados, abrindo-se para sua inteligência, recebendo-a como parceira e co-laboradora, é verdadeiramente democrática.

In Folha de S.Paulo: Folhetim, 04/07/1982. Reproduzido em ANSEIOS CRÍPTICOS, Criar Edições, Curitiba, 1986, p. 69 a 72.

http://www.elsonfroes.com.br/kamiquase/ensaioPL7.htm 

Nathalie Drumond: "Aos amigos ativistas de esquerda que estão confusos neste momento"

(Foto – Fábio Lima/O POVO)
Texto de Nathalie Drumond. Lúcido.

===============================

Aos amigos ativistas de esquerda que estão confusos neste momento

Em todas as grandes mobilizações mundiais que eu tenho notícia a ultradireita esteve presente. Na França, Le Pein e cia, além dos votos em urna, tiverem representantes nas ruas para fazer valer sua opinião. Na Grécia, a ultradireita neonazista compareu aos atos em grandes blocos. Tiveram muitos votos na urna também. Na Espanha, Portugal e Itália também.

O Brasil vive uma crise. O povo está puto e insatisfeito e não há saídas organizadas e unânimes para ela. A ultradireita está disputando nas ruas sua política, que passa por afastar o “mal do comunismo” da massa. Eles são espertos, se escondem atrás de um sentimento generalizado de insatisfação contra os partidos. Este setor é um câncer para as manifestações e precisa ser denunciado e combatido. Estou certa que eles são uma minoria. Militarmente organizados, e por isso parecem fortes, mas uma minoria.

Mas dois graves erros se reproduzem neste momento.

Lúcido recado de Fernando Silva: "Uma rebelião popular progressiva e o início de uma crise institucional"

O texto é de Fernando Silva, foi publicado 21 de junho de 2013 no sítio Outra Política (link no final do texto). Traz uma análise lúcida da conjuntura e merece ser lido. 

==========================================

Uma rebelião popular progressiva e o início de uma crise institucional

1) Há um levante nacional, com eixo na juventude, com adesão de milhares de trabalhadores e trabalhadoras jovens e dos setores médios contra todo tipo de governo e por reivindicações no geral justas: contra o aumento das tarifas, contra gastos da Copa, fora Feliciano, saúde, educação, corrupção e os temas relativos a isso. Em geral, o signo é muito positivo e claramente colocou, desde ontem, elementos de crise institucional dado a fúria contra os poderes seja quem for o governo – contra governos e prefeituras do PT (como São Paulo e várias outras capitais), contra PSDB (governos do Estados de São Paulo e Minas Gerais), contra ACM Neto em Salvador, contra uma prefeitura do PSB apoiada pelo Aécio (Campinas) e por aí vai. Foram mais de um milhão de pessoas se manifestando em pelo menos 400 cidades do país. E agora com características de mobilizações diárias e pautas variadas.

Isto é um ascenso, que está mudando a relação de forças e questionando tudo, inclusive a institucionalidade tal como ela está instalada. Por suas características massivas já superam o Fora Collor e pode começar entrar no bojo das comparações com as diretas já. Estamos falando de uma rebelião sob democracia burguesa, o que sempre torna o problema do eixo e saída para a crise mais complexo. Mas é uma revolta contra tudo, uma “revolução da indignação em andamento.”

2) Dito isto, não significa que é um passeio, uma via de mão única para a esquerda ou em direção a um processo revolucionário linear. Nada disso, é uma situação deste ponto de vista muito diferente das diretas já e do próprio Fora Collor. Não há uma direção deste processo. E nós já sabíamos e até elaboramos muito sobre isso (a tese da maratona para reconstruir as condições subjetivas para as ideias socialistas, por exemplo). A esquerda reformista tradicional está destroçada nesta massa (PT e PCdoB) – e isso é o que está por trás do anti-partido que a direita está capitalizando em algumas capitais. Ou seja, a direita está sim disputando o processo num vazio de referência e direção, inclusive em alguns locais com espaço para grupos fascistas que já existiam. Não nos esqueçamos que já existia uma movimento meio de direita contra a corrupção e anti-partido que fez atos expressivos em 2011, como em Brasília, que existe o fascismo das milícias no Rio de Janeiro e grupos de extermínio de São Paulo. Claro que isso pode aparecer em uma situação de maior enfrentamento. Mas isso não é o tom do processo, o tom é a revolta juvenil e popular progressiva.

Isso reforça o componente de enfrentamento com as policiais. Ontem, dia 20, o eixo sequer foi São Paulo. Onde tem os jogos da Copa das Confederações as características de enfrentamento tendem a ser muito mais fortes e com justas reivindicações do movimento em relação a Copa. Ontem o Maracanã cantou o hino, mas cantou “o povo unido jamais será vencido” e isto não tem a ver com eixo de direita, embora fascistas estivessem agindo no Rio.

3) Outro tema: é um erro igualar hino nacional e bandeira nacional com direita. Outra coisa é que a direita pode se valer disso, mas o sentimento da massa é honesto, de resgate da nação contra quem ela considera que está usurpando e roubando o país, isto é e sempre foi a simbologia da massa em relação a bandeira e ao hino. Nos anos 80, com grande peso de massa da esquerda era muito comum os atos das diretas já e mesmo assembléias operárias de massa no ABC serem encerradas com o Hino Nacional. Nós temos que disputar essa consciência da massa para a esquerda, mas entendendo o valor do sentimento nacionalista anti-regime ou anti-corrupção no caso atual, no caso da minha geração era uma nacionalismo anti-ditadura do tipo dizer “o hino e a bandeira são nossos e não da ditadura”. Hoje tem isso de fundo “a bandeira, o hino, a nação são nossos e não dos corruptos”. Esquerda que não entender isso vai virar pó nesse movimento.

4) Temos que partir do princípio que o movimento conseguiu uma enorme vitória que foi a redução das tarifas. Uma enorme e inédita vitória no estado de São Paulo. Não é um movimento que larga com derrota e acuado, larga com uma grande vitória e isso impulsionou o crescimento da mobilização, pois já teve VITÓRIA.

5) Não há perigo de golpe de estado ou golpe fascista, não é essa a linha da grande burguesia e dos seus partidos, e quando falo partido, falo Globo que é principal partido da direita. Sua linha é manifestações pacíficas, rechaço contra qualquer tipo de violência, e moralização e preservação do regime, claro que nesse marco desgastando o PT. E falo isso porque tá rodando já carta dos movimentos sociais governistas pedindo governabilidade da Dilma, daqui há pouco vão agitar o fantasma de golpes e fascismo. Atenção, o governo Dilma é um governo da classe dominante, de direita, inimigo nosso e esse povo em movimento está furioso com as mazelas oriundas deste modelo que o PT aplica. Por isso essa coisa difusa na consciência média da massa sem uma direção clara, mas não vamos igualar essa massa com direita organizada. E não vamos cair na lorota do petismo sobre golpe, fascismo, que se explodam com a massa.

6) Não temos que compartilhar da ideologia do anti-partido; sempre defendemos a importância dos partidos políticos. Mas temos que entender a fundo o que está ocorrendo, porque em relação a PT e PCdoB nós não temos que brigar com a massa por conta destes vendidos, isto é empurrar a massa para os braços da direita. Pelo contrário, testaria um “Fora PSDB e fora PT” das manifestações. Não vamos ceder a pressão petista. Como não ser furioso contra o PT em Brasília que colocou a tropa de choque para esculachar o povo e os movimentos? Ou seja, a fúria contra o PT é legítima porque o PT governa e frustrou e Dilma atacou direitos, fez todas as concessões imagináveis para os grandes capitalistas por conta da Copa. O governo Dilma é uma inflexão à direita em relação ao segundo mandato de Lula que fez mais concessões à classe. Com Dilma, vieram cortes nos gastos, arrocho setor público, bandalheira grande nas obras da Copa, aliança a fundo com o agronegócio, ataques aos direitos dos povos indígenas. Em resumo, é uma revolta contra o sistema político e uma revolta legítima contra o PT.

7) Este tipo de revolta e os fenômenos que geram estão inseridos em uma quadro internacional. Por acaso ontem vi um documentário muito interessante sobre a situação atual na Turquia. Parecia que estavam falando do Brasil. 80% dos jovens nas ruas não tem partido e não gostam de partidos, a esquerda é fragmentada em muitos grupos com pouca inserção social e a direita lá são os islâmicos fundamentalistas anti-laicos. Na Grécia, mesmo com inúmeras greves gerais, uma esquerda quase ganhando eleições tem também uma extrema direita fortíssima e organizada. Ou seja, ascensão e polarização social geram luta de classes polarizada entre os extremos, tem também a contra-revolução ganhando espaço. Mas não é isso que está dando o tom no Brasil. A essência do movimento é progressiva, mas que será disputada à esquerda e à direita.

8) O problema é aqui o como disputar. Há uma crise institucional se gestando, uma multiplicidade de reivindicações e isso nos conduz para a questão política do poder, a questão da corrupção, a questão de que democracia precisamos, o que fazer com os desmandos, etc. Não podemos centrar só na pauta sócio-econômica (digamos assim) das reivindicações e deixar na mão da direita a pauta do regime, da política, das questões democráticas e da corrupção, porque tem grande chance disto ganhar peso, basta ver a pauta do Anônimos, limitadíssima, mas que vai nessa direção e tem e terá apelo popular (Fora Renan, contra a PEC 37, que a PF investigue as obras da Copa). Isto terá apelo de massas e temos que entrar no debate até porque é um escândalo se a PEC 37 passar – é acabar com o poder de investigação do Ministério Público (o que o petismo corrupto adoraria). Não pode ser então que deixemos uma reivindicação que é anti-bonapartista do ponto de vista da democracia, como é o caso da PEC 37, nas mãos da direita.

9) Então temos que combinar a manutenção da pauta das reivindicações populares: tarifa zero, moradia, educação, contra privatização com a pauta democrático-política.

O que estou querendo dizer: temos que politizar o tema da corrupção e do regime e rápido. A essência da nossa pauta política é a democratização do poder e reforma política com controle e participação popular. Isto tem que se traduzir em medidas como desmilitarização da PM (à qual devemos dar muito peso), quebra de sigilo de todos os parlamentares e dos grupos que os financiaram, revogação de mandatos, salário de parlamentar não pode ser maior que professor. Enfim, vai por aí. Sem se chocar com as medidas anti-corrupção que estão sendo pautadas porque elas são progressivas. Pior coisa agora é ficarmos com preconceito com a pauta que se desdobra do repúdio à corrupção. E outro tema político democrático que temos que entrar é democratização dos meios de comunicação e controle social da mídia.

Nosso programa para essa etapa vai na direção de combinar a pauta das reivindicações populares (eixo nos direitos e serviços públicos), desmilitarização da PM, democratização do poder (as bandeiras da reforma política popular) e democratização da grande mídia.

10) Uma opinião sobre como reagir as provocações da direita ou ao peso da direita nas manifestações. Tudo, tudo, menos o que fez o MPL hoje, declarar que não vai mais convocar manifestações. Isso é um desastre. É sair das ruas! É debandar, não é recuar. O MPL tinha que continuar convocando atos pela pauta do movimento, com eixo tarifa zero/passe livre. E bancar a pauta do movimento. Tá difícil na Paulista? Puxa pra periferia junto com o MTST: passe livre para a periferia, transporte público e moradia, por exemplo. Hoje mesmo enquanto escrevo tem 80 mil pessoas confirmadas para o ato contra a cura gay, ou seja, tem que manter a pauta do movimento e a capacidade convocatória dos movimentos.

11) Temos que começar a nos organizar de forma mais séria para os atos, aceitar que não há relação de forças geral pela consciência da massa para ir com bandeira e partido, mas entrar de forma organizada com outros setores e movimento com adesivos, faixas, camiseta vermelha, começarmos a discutir as formas de auto-proteção do movimento. Buscar construir uma proposta de um fórum e uma reunião nacional dos movimentos da esquerda combativa, buscar puxar o próprio MPL para esse tipo de política para articular um programa e uma pauta do movimento. Temos que colocar na agenda a construção de um espaço amplo da esquerda (sem o PT e sem o PCdoB), proibi-los de estar nos nosso espaços. Quero insistir: nada de bloco com PT e PCdoB. São inimigos e não aliados. Como disse o André Ferrari em sua análise que circulou nas redes sociais: “que o PT pague pela sua traição histórica”. Não vamos sair das ruas, nem rebaixar nossas reivindicações, o que temos é que estar melhor organizados e mais unidos aos setores de esquerda combativos para disputar a massa e os rumos deste ascenso.

http://outrapolitica.wordpress.com/2013/06/21/uma-rebeliao-popular-progressiva-e-o-inicio-de-uma-crise-institucional/

sábado, 22 de junho de 2013

“Primavera brasileira” parece ir além do que as velhas teorias podem explicar

Vou propor, rapidamente, propor um norte para que se pense o sentido do que ocorre. Sem aprofundamentos, alerto, apresento apenas ideias expostas como parte de uma compreensão mais global sobre essa conjuntura. Utilizo o termo “multidão”, inspirado nesse conceito de Hardt & Negri, nos seus livros “Império” e “Multidão”, diferenciado de “povo”, que se refere especificamente ao Estado Nação, modelo (Estado Nação/povo) desgastado profundamente durante todo o século XX, tendo sido o seu enfraquecimento (e até mesmo fim, como querem alguns) uma das características do século. Uso a noção de direita/esquerda de Norberto Bobbio, sendo a primeira voltada para práticas de concentração de renda, num claro desequilíbrio da balança, e a segunda para a distribuição de renda, equilibrando a balança social.

Em primeiro lugar, tratemos do porquê dessas manifestações serem possíveis em uma sociedade aparentemente despolitizada, de pessoas que descreem dos políticos e de suas instituições, não filiadas a partidos e não conectadas aos discursos destes, logo pessoas, cidadãos, sem lideranças políticas significativas. Aliás, duas das principais dessas lideranças sofrem ataques até mesmo de quem antes os apoiava ou suportava e é claro que falo do ex-presidente Lula e da atual presidente Dilma Rousseff. E não creio, digo já, possível definir as manifestações contra o governo como compostas por “leitores da Veja”, membros da apedrejada “direita”, até porque o posicionamento esquerda/direita parece, hoje, muito difuso e há claras situações em que governos que são definidos ou se definem como “direita” ou “esquerda” assumem atos e posições que desmentem esse status. O caso brasileiro me parece exemplar, a não ser que se considere a estratégia populista do governo do Partido dos Trabalhadores como práxis da esquerda. Eu não considero assim. Parece haver muitas nuances entre a direita e a esquerda.

Nem esquerda, nem direita

Começo dizendo que não há como definir precisamente o motivo que tem levado milhões de pessoas, todos os dias, em inúmeras cidades brasileiras para as ruas, tomando-as para, juntas, protestar. se isso for feito com base nas velhas teorias e corriqueiras compreensões dos fenômenos de massa.

Há novidades e uma delas é a falta de um centro organizador. Efetivamente, não há. Como a “Multidão” descrita por Negri e Hardt, não se trata de povo, de manifestação popular no sentido clássico do termo, como visto em todos os países ocidentais, notadamente na segunda grande guerra. Não são fascistas, nazistas ou comunistas, os manifestantes. Não são de esquerda ou de direita, nem de qualquer centro. Não sequer se pode dizer que compartilham de uma posição moderada ou militante. Não se trata de nada disso.

Confusão inevitável

Não há dúvida que nossa sociedade interligada em rede forma um imenso corpo virtual e, mais ainda, que como em qualquer multidão, o participante unitário não se sente mais preso a seu mísero corpo, mas experimenta a sensação de ter um imenso e forte corpo, o da multidão. Maffesoli tratou bem desse tema e nos orienta para a reflexão sobre o fim da identidade como conhecida por nós até algumas décadas. Em seu lugar, um processo constante de identificação, ou, mais precisamente, identificações. Se constante, é claro, mostra-se multifacetado, caleidoscópico, próprio para ocasiões, vestido de acordo com a moda ou com a tribo da qual se faz parte.

Torna-se mais fácil, a partir deste ponto, compreender o porquê das manifestações e, acima de tudo, o seu caráter plural, fragmentário e, por que não dizer, confuso, claramente confuso. Mas, olhe em qualquer dicionário o significado de “confusão”. Depois me diga se não é mesmo confuso, como teria que ser algo assim. Mais: se você observar bem, a vida é um tanto confusa, muitas vezes e, pior ainda, as mudanças historicamente constantes da sociedade humana e, principalmente as dos últimos cinquenta anos parecem tornar as coisas mais incertas, mais passíveis de produzir confusão.

No meio do turbilhão, porém, há um sentido.

A nacionalidade oculta vai aparecendo

No caso brasileiro, o sentido se dá por uma insatisfação não consensual, mas unânime, em relação a, em primeiro lugar, o Estado enquanto entidade que teria como função, ao menos se justifica assim, proteger o cidadão, tratando-o com respeito, não o distinguindo, igualitariamente. Em segundo lugar, contra a lógica desse mesmo Estado, que além de não oferecer serviços públicos de qualidade, arrecada impostos com insana voracidade e privilegia grupos específicos a despeito do cidadão. As manifestações dizem isso, ainda que com cartazes, palavras de ordem e pensamentos divergentes.

Alguns falam em manipulação das massas, outros tremem de medo de um golpe de Estado, há mesmo os que propõem o tal golpe e os que vão para ruas sentir o gozo de andar com milhões a seu lado, real e virtualmente, em diversos lugares. De certo modo, por detrás dos ecos dessa multidão, dessa confusão multifacetada de vozes dissonantes, há uma comunidade imaginada e um povo, sim, um povo, não uma multidão, que a imagina. O que quero dizer é que há nas manifestações um espírito de nacionalidade desenhado sob a garatuja da turba pacífica ou não, incendiária ou não.

Chega de vira-latice

Curioso é perceber que tudo isso acontece durante um torneio internacional de futebol que, no fim das contas, passou de astro para um papel coadjuvante com velocidade indescritível. De certo modo, uma das mais importantes mensagens que podem estar sendo transmitidas é que o “escrete” (como chamava Nelson Rodrigues a seleção nacional de futebol) não é mais a pátria em chuteiras. O povo brasileiro, expresso por essa multidão das ruas, parece dizer que é ele que quer, a partir de agora, calçar as chuteiras. Isso pode significar a cura do complexo de vira-lata que o mesmo Nelson Rodrigues diagnosticou como o mal fundamental, nato e hereditário, do brasileiro.

Ou, no fim das contas, tudo pode acabar na terça-feira. Não terá sido mais do que um golpe patrocinado pelos donos do mundo que, segundo consta, decidiram que é preciso mudar o comando do governo brasileiro, há quem aposte, ou mesmo que tudo isso não passa de um movimento intestino “de direita”. Bem, é preciso reconhecer que essas coisas, essas forças, existem e provavelmente estão, se não nos bastidores desde o início, acompanhando com interesse participativo tudo o que está acontecendo.


No entanto, é preciso ver que há mais forças agindo neste nosso mundo do que supõe toda a filosofia que mantém as coisas como estão. 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Quebraram a ALERJ? É preciso cobrar daquele que acha que polícia é para proteger seu próprio rabo

Polícia contra o povo para defender alguns? Isso também é corrupção
Transcrevo texto retirado do Facebook, sem a identificação, embora você já o possa ter sido "curtido" ou compartilhado inúmeras vezes. O que interessa, aliás, não é a autoria precisamente, mas o que ela descreve. Saber do que ela passou é importante para se ter uma noção do poder que a polícia ganhou nas últimas décadas e, principalmente naquilo em que se transformou: tropa de defesa de políticos e privilegiados em geral, não da sociedade. 

Quem já foi acusado de algo, quem já esteve numa delegacia, sabe que ali não existem nem mesmo os direitos humanos liberais (aqueles formais, da inviolabilidade disso, do direito daquilo), quanto mais a noção de que do lado do réu está um humano. O acusado, mesmo que injustamente, é um acusado e deve ser intimidado e, não raro, espancado, como vi acontecer. 

O Direito preconiza a inocência prévia de alguém, até que outro alguém prove que há culpa ou dolo. Mas, depois de detido ou preso, o cidadão não precisa mais que se prove sua culpa: é culpado desde que nasceu pelo que o doutor delegado quiser. 

No caso dos que foram presos simplesmente por estar na rua se manifestando contra uma conjuntura claramente injusta (recheada de corrupção em todos os níveis, de descaso e absoluto desprezo pela maioria das pessoas em favor de poucos) a situação ainda é mais ultrajante, daquelas que revoltam o estômago dos mais fortes. 

Há ainda os que não fizeram efetivamente nada, simplesmente passavam por uma multidão, coisa que todos os dias efetivamente fazem, mas foram detidos pela insânia das forças policiais militares. Ora, muitos cidadãos sensatos já entenderam que a Polícia Militar não pode existir com a filosofia de defender políticos e seus privilegiados. 

Cargo público não pode ser ganhar de presente uma tropa só para si, sua família e amigos, como tem sido. Uma polícia militarizada, se é que tem sentido para existir, é para invasões coloniais e, está bem, aceitemos, para a defesa do patrimônio público em caso de grave desordem. Mas, e na ALERJ, na segunda-feira, o que aconteceu? Era o prédio, os móveis e cortinas que a polícia (a que não apareceu, não os coitados que lá foram postos para apanhar da turba) defendia? Não. Claramente, não há dúvida, era o "rabo" do governador. 

Repito: se eleger governador não é ganhar de presente soldadinhos de carne, ossos, escudos e armamento para defender a si próprio. Só o que aconteceu na ALERJ já justificaria um cartão amarelo para o governador Sergio Cabral, do Rio de Janeiro, quem sabe um processo disciplinar que poderia resultar numa advertência pública oficial (porque a advertência pública extra-oficial a multidão já está lhe dando) ou, quem sabe, no decorrer das investigações, até mesmo um convite para se retirar ao vestiário mais cedo. 

E é bom não esquecer, o prejuízo deve ser cobrado do verdadeiro responsável. Se isso for feito, com certeza o princípio da justiça estará não apenas sendo preservado, como incentivado a toda a sociedade. 

Segue, abaixo, o texto da moça que foi presa pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, cujos membros precisam lembrar que não são pagos para defender políticos.

=================================================

Escrevo primeiro para agradecer o apoio e carinho de familiares e amigos.

Segunda-feira participei da manifestação que juntou 100.000 pessoas, estava parada na calçada, em frente a ALERJ olhando, quando um policial me perguntou se eu era jornalista. Ele pediu meu crachá, e quando eu afirmei que não era jornalista me enfiou dentro de um ônibus da Polícia. Lá já estava uma menina, Liv, muito transtornada, depois fui ver a foto que rodou o mundo, em que covardemente jogavam spray de pimenta em uma mulher sozinha e desarmada, era ela (http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/06/pm-admite-excesso-de-policial-que-atacou-mulher-com-spray-de-pimenta.html).  Foram colocando uma pessoa de cada vez, algumas algemadas, na maioria estudantes e homens, mas também havia um morador de rua. 

Enquanto isso, no ônibus parado, entravam, se alternando, o policial bom, dizendo pra ficarmos tranquilos, e o mau, que nos ameaçava de algemar no chão e jogar gás lacrimogêneo, não nos conhecíamos, não sabíamos o que estávamos fazendo lá, e pior, não sabíamos aonde seriamos levados. 
Isso me preocupa, se na 5a DP, em um momento em que a imprensa internacional está presente, situações como esta acontecem, o que estará acontecendo no Subúrbio e nas favelas?
Ás 11:37, do meu celular, liguei para minha mãe avisando que estava sendo presa, que olhasse o meu filho. Tinha saído de casa para ir à acupuntura e nem sabia da manifestação. Também pedi que avisasse o meu irmão, quando tiraram o meu celular. Tiraram também o do Pedro Assis Rodrigues. Algumas mochilas foram retidas, mochilas que depois apareceram, na Delegacia com pedras e outras coisas que foram colocadas lá como provas.

Felizmente fomos levados à Quinta DP, na Gomes Freire, onde encontrei o Renato Cinco e os Advogados dos Direitos Humanos da OAB. Minha família também apareceu. Sou filha de Exilados Políticos chilenos, eu mesma exilada na Suécia aos 2 anos. Meu padrasto, foi torturado e exilado. Nada me surpreendia, eu só não conseguia entender qual era a acusação. Me sentia no processo de Kafka. Eu e Liv estávamos na sala, com dois policias civis, que escreviam o processo, e dois dos vários policiais que nós prenderam. Lá também estava Juliana Isméria Campos Vianna, estudante de História da UFF que fora acusada junto com Caio Brasil Rocha e Vagner Ferreira da Silva estudantes de Engenharia Metalúrgica da Universidade Federal do Rio de Janeiro da UFRJ de Receptação de Mercadorias (http://extra.globo.com/noticias/rio/secretaria-de-administracao-penitenciaria-divulga-fotos-de-estudantes-presos-em-manifestacao-com-uniformes-da-cadeia-8741313.html). Fico muito emocionada em ver esta foto, porque um dos policiais, disse pra Juliana, que sendo presa, a primeira coisa que fariam seria cortar o seu cabelo. Os Rapazes todos estava em uma cela 3X3. Quando chegamos a Juliana estava na outra cela, só que depois a tiraram para colocar o Bhlyann, um estudante de 16 anos de Enfermagem, que ficou em carcel, algemado e foi o último a conseguir fazer a sua ligação. 

Simplesmente o esqueceram lá.

Juliana estava muito nervosa, porque teria que ligar para São Paulo, para pedir ao seu pai que pagasse uma indenização de 2.000 reais, com uma acusação de receptação de mercadoria. Depois o soldado mudou a sua versão, dizendo que os tinha visto roubando uma loja de malas, o que é mentira porque os prendeu na Cinelândia e a loja de malas fica em outro lugar. Em todo caso isso impediu que saíssem sob fiança.

Juliana nos contou que o Delegado, um ser truculento e autoritário, nem levou em conta o depoimento deles. Percebi que os esforços dos Advogados estava limitado a nós tirar dali o mais rápido possível. Não importa se você é culpado ou não. A 5a DP é um lugar onde não existe Justiça.

Se um policial, diz que você fez algo, é a palavra dele que vale.

Isso me preocupa, se na 5a DP, em um momento em que Imprensa Internacional esta presente, situações como esta acontecem, o que estará acontecendo no Subúrbio e nas favelas?

Termino afirmando que Juliana, Caio e Vagner, assim como nós foram buchas. Fomos todos presos, para mostrar serviço de uma polícia, inapta. Certamente seguindo ordens de um Governador mais inapto ainda.

Do Facebook

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Visão do colonizador: epa, alto lá, isso é o negativo do “jeitinho” europeu e é aquele que os gringos atribuem aos bárbaros...

Circula na internet a seguinte imagem (à esquerda), com essa mensagem extremamente bem intencionada e que representa, para mim, um exemplo das boas intenções que certamente povoam o inferno. 

Tá, muito bonito isso, mas cuidado: levar essas recomendações ao extremo pode ocasionar efeitos colaterais terríveis. Tente pensar que o ser humano não é um robô ou boneco e que o que está sendo "vendido" nessa mensagem é um modelo civilizatório, não "O" modelo civilizatório. Cuidado, em terra de espelhos, quem quer ter boa aparência se equivoca mais que o necessário, confunde os lados e as posições políticas. 

O "jeitinho brasileiro" não é canalha como parece descrito, é uma defesa contra o poder do colonizador, ou melhor, foi fundamental durante bastante tempo como defesa, talvez não seja mais e, quem sabe, tenha se tornado até indesejável. Mas, é importante sabe, a canalhice e o desrespeito ao semelhante nunca foram e nunca serão apanágio do brasileiro. O chamado "primeiro mundo" tem dado péssimos exemplos nesse sentido (o que os EUA fizeram e fazem dispensa comentários nesse sentido), muito mais do que todos os que os brasileiros já deram. 

Mas, curiosamente, jamais vi ninguém falar do péssimo “jeitinho ianque”. 

Na relação posta na imagem, há um conjunto de pequenas grandes canalhices que não representam o chamado "jeitinho brasileiro", que, como dito, é mais uma reação malandra a um poder opressivo do que uma forma irresponsável ou calhorda de ser e proceder. 

Em boa parte, o “jeitinho” se desenvolveu sob a seguinte lógica do colonizado diante do colonizador: 

1. As regras sob as quais os poderosos vivem e as quais querem me impor, foram criadas em outro lugar, por outra gente, não foram criadas por mim nem por qualquer conterrâneo meu;

2. Essa gente tem hábitos e crenças muito peculiares, próprias deles, não minhas; 

3. Essas regras foram “exportadas” em bloco para os locais que o povo (que criou essas regras e o modo de ser característico delas) invadiu e “colonizou” como parte do processo de dominação e controle - ao colonizador causa horror a singularidade do colonizado, quando há;

4. Toda e qualquer resistência ao poder do colonizador é classificada por este como barbaridades e atribuídas características bárbaras, inumanas e criminosas a todo aquele que destoe ou discorde dessas regras;

5. Essas regras servem basicamente ao senhor colonial, não ao colonizado, mas aquele as tenta impor a este como atributos universais que caracterizam todo aquele que é civilizado;

6. Essas regras não representam “a” civilização, mas a civilização do colonizador.

Para entender melhor o "jeitinho" ou o "jeito" brasileiro, recomento Nelson Rodrigues. Acho que foi o autor que melhor soube captar o "humano" brasileiro ou, talvez mais precisamente, o carioca, praticante do "verdadeiro jeitinho", que não se encaixa na relação proposta na imagem, que não passa do resultado daquilo que o frio olhar preconceituoso e crítico do colonizador "enfiou" na subjetividade nacional, criando o que Nelson chamou de "complexo de vira-lata". 

O vira-lata age como descrito na imagem.

Wikileaks: organização financiada pelos EUA treina oposicionistas pelo mundo

O Canvas se especializou em Chávez, mas não conseguiu derrubá-lo
Texto que fez aniversário ontem. Traz informações importantes que devem ser, sem dúvida, incluídas em nosso rol de conhecimentos sobre a conjuntura contemporânea. 

Convém estar atento ao aproveitamento de movimentos e manifestações populares, já que estamos vivendo tempos em que há tantas. 

Pelo que o texto sugere (citação abaixo), a encantadora e incensadíssima "primavera árabe" começou com o Canvas. E, pior: se há esse grupo, podem, devem, haver outros, fora a CIA. 

A realidade não está se mostrando nada simples.

Um das ações do Canvas que ganhou maior visibilidade foi o treinamento de uma liderança do movimento 6 de Abril, considerado o embrião da primavera egípcia. O movimento começou a ser organizado pelo Facebook para protestar em solidariedade a trabalhadores têxteis da cidade de Mahalla al Kubra, no Delta do Nilo. Foi a primeira vez que a rede social foi usada para este fim no Egito. (...) Nos emails aos analistas da Stratfor, Popovic se gaba de manter relações com os líderes daquele movimento, em especial com Mohammed Adel – que se tornou uma das principais fontes de informação a respeito do levante no Egito em 2011. Na comunicação interna da Stratfor, ele é mencionado sob o codinome RS501.

===========================================

Wikileaks: organização financiada pelos EUA treina oposicionistas pelo mundo

18/06/2012 - 10h00 | Natalia Viana/Agência Pública*|São Paulo

Análise da Canvas sobre a Venezuela, onde a oposição começou a ser treinada em 2005: “Há uma forte tendência presidencialista. Como podemos mudar isso?”

No canto superior do documento, um punho cerrado estampa a marca da organização. No corpo do texto se lê: “Há uma tendência presidencialista forte na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar isso?”. Mais abaixo, o leitor encontra as seguintes frases: “Economia: o petróleo é da Venezuela, não do governo. É o seu dinheiro, é o seu direito… A mensagem precisa ser adaptada para os jovens, não só para estudantes universitários… E as mães, o que querem? Controle da lei, a polícia agindo sob autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso”.
O pesquisador Mark Weisbrot concorda, em termos. “É claro que nenhum grupo estrangeiro, ainda mais um grupo pequeno, pode causar uma revolução em um país”. Para ele, não é o dinheiro do governo norte-americano – seja através de ONGs pagas pelo National Security Council, pela USAID ou pelo Departamento de Estado – que faz a diferença. “A elite venezuelana, por exemplo, não precisa deste dinheiro. O que estes grupos financiados pelos EUA, antigamente e hoje, agregam são duas coisas: uma é habilidade e o conhecimento necessário em subverter regimes. E a segunda coisa é que esse apoio tem um papel unificador. A oposição pode estar dividida e eles ajudam a oposição a se unificar”.
O texto citado não está em espanhol nem foi escrito por algum membro da oposição venezuelana. O material, em inglês, foi produzido por um grupo de jovens baseados na Sérvia. O documento “Análise da situação na Venezuela, Janeiro de 2010”, feito pela organização Canvas, cuja sede fica em Belgrado, está entre os documentos da empresa de inteligência Stratfor vazados pelo Wikileaks.

O último vazamento do Wikileaks – ao qual a Pública teve acesso – mostra que o fundador desta organização se correspondia sempre com os analistas da Stratfor, empresa que mistura jornalismo, análise política e métodos de espionagem para vender “análise de inteligência” a clientes que incluem corporações como a Lockheed Martin, Raytheon, Coca-Cola e Dow Chemical – para quem monitorava as atividades de ambientalistas que se opunham a elas – além da Marinha americana.

O Canvas (sigla em inglês para “centro para conflito e estratégias não-violentas”) foi fundado por dois líderes estudantis da Sérvia, que participaram da queda de Slobodan Milosevic em 2000. Durante dois anos, os estudantes organizaram protestos. Depois, juntaram o cabedal de conhecimento em manuais e começaram a dar aulas a grupos oposicionistas de diversos países sobre como se organizar para derrotar o governo. Foi assim que chegaram à Venezuela, onde começaram a treinar líderes da oposição em 2005. Em seu programa de TV, o presidente Hugo Chávez acusou o grupo de golpista e de estar a serviço dos Estados Unidos. “É o chamado golpe suave”, disse.

Os novos documentos analisados pela Pública mostram que se Chávez não estava totalmente certo – mas também não estava totalmente errado.
O Canvas (sigla em inglês para “centro para conflito e estratégias não-violentas”) foi fundado por dois líderes estudantis da Sérvia, que participaram da queda de Slobodan Milosevic em 2000. Durante dois anos, os estudantes organizaram protestos. Depois, juntaram o cabedal de conhecimento em manuais e começaram a dar aulas a grupos oposicionistas de diversos países sobre como se organizar para derrotar o governo.
O começo, na Sérvia

“Foram dez anos de organização estudantil durante os anos 90”, diz Ivan Marovic, um dos estudantes que participaram dos protestos contra Milosevic. “No final, o apoio do exterior finalmente veio. Seria bobo eu negar isso. Eles tiveram um papel importante na etapa final. Sim, os EUA deram dinheiro, mas todo mundo deu dinheiro: alemães, franceses, espanhóis, italianos. Todos estavam colaborando porque ninguém mais apoiava o Milosevic”, disse ele em entrevista à Pública.

 “Dependendo do país, eles doavam de um determinado jeito. Os norte-americanos têm um ‘braço’ formado por ONGs muito ativo no apoio a certos grupos. Outros países, como a Espanha, não têm e nos apoiavam através do Ministério do Exterior”.  Entre as ONGs citadas por Marovic estão o NED (National Endowment for Democracy), uma organização financiada pelo Congresso norte-americano, a Freedom  House e o International Republican Institute, ligado ao partido republicano – ambos contam polpudos financiamentos da USAID, a agência de desenvolvimento que capitaneou movimentos golpistas na América Latina nos anos 60, inclusive no Brasil.

Srdja Popovic

Todas essas ONGs são velhas conhecidas dos governos latinoamericanos, incluindo os mais recentes. Foi o IRI, por exemplo, que ministrou “cursos de treinamento político” para 600 líderes da oposição haitiana na República Dominicana em 2002 e 2003. O golpe contra Jean-Baptiste Aristide, presidente democraticamente eleito, aconteceu em 2004. Investigado pelo Congresso, o IRI foi acusado de estar por trás de duas organizações que conspiraram para derrubar Aristide.
Ivan Marovic: “Dependendo do país, eles doavam de um determinado jeito. Os norte-americanos têm um ‘braço’ formado por ONGs muito ativo no apoio a certos grupos. Outros países, como a Espanha, não têm e nos apoiavam através do Ministério do Exterior”.
Na Venezuela, o NED enviou US$ 877 mil para grupos de oposição nos meses anteriores ao golpe de Estado fracassado em 2002, segundo revelou o The New York Times. Na Bolívia, de acordo com documentos do governo norte-americano obtidos pelo jornalista Jeremy Bigwood, parceiro da Pública, a USAID manteve um “Escritório para Iniciativas de Transição”, que investiu US$ 97 milhões em projetos de “descentralização” e “autonomias regionais” desde 2002, fortalecendo os governos estaduais que se opõem a Evo Morales.

Procurado pela Pública, o líder do Canvas, Srdja Popovic, disse que a organização não recebe fundos governamentais de nenhum país e que seu maior financiador é o empresário sérvio Slobodan Djinovic, que também foi líder estudantil. Porém, um PowerPoint de apresentação da organização, vazado pelo Wikileaks, aponta como parceiros do Canvas o IRI e a Freedom House, que recebem vultosas quantias da USAID.

Para o pesquisador Mark Weisbrot, do instituto Center for Economic and Policy Research, de Washington, organizações como a IRI e Freedom House não estão promovendo a democracia. “Na maior parte do tempo, estão promovendo exatamente o oposto. Geralmente promovem as políticas norte-americanas em outros países, e isto significa oposição a governos de esquerda, por exemplo, ou a governos dos quais os EUA não gostam”.
Na Venezuela, o NED enviou US$ 877 mil para grupos de oposição nos meses anteriores ao golpe de Estado fracassado em 2002, segundo revelou o The New York Times. Na Bolívia, de acordo com documentos do governo norte-americano obtidos pelo jornalista Jeremy Bigwood, parceiro da Pública, a USAID manteve um “Escritório para Iniciativas de Transição”, que investiu US$ 97 milhões em projetos de “descentralização” e “autonomias regionais” desde 2002, fortalecendo os governos estaduais que se opõem a Evo Morales.
Hoje, Ivan Marovic é um bem sucedido
empresário do ramo de revoluções
Fase dois: da Bolívia ao Egito

Vista através do mesmo PowerPoint de apresentação, a atuação do Canvas impressiona. Entre 2002 e 2009, realizou 106 workshops, alcançando 1800 participantes de 59 países. Nem todos são desafetos dos EUA – o Canvas treinou ativistas por exemplo na Espanha, no Marrocos e no Azerbaijão – mas a lista inclui outros: Cuba, Venezuela, Bolívia, Zimbábue, Bielorrússia, Coreia do Norte, Siria e Irã.

Segundo o próprio Canvas, sua atuação foi importante em todas as chamadas “revoluções coloridas” que se espalharam por ex-países da União Soviética nos anos 2000. O documento aponta como “casos bem sucedidos” a transferência de conhecimento para o movimento Kmara em 2003 na Geórgia, grupo que lançou a Revolução das Rosas e derrubou o presidente; uma ajudinha para a Revolução Laranja, em 2004, na Ucrânia; treinamento de grupos que fizeram a Revolução dos Cedros em 2005, no Líbano; diversos projetos com ONGs no Zimbabue e a coalizão de oposição a Robert Mugabe; treinamento de ativistas do Vietnã, Tibete e Burma, além de projetos na Síria e no Iraque com “grupos pró-democracia”. E, na Bolívia, “preparação das eleições de 2009 com grupos de Santa Cruz” – conhecidos como o mais ferrenho grupo de adversários de Evo Morales.

Até 2009, o principal manual do grupo, “Luta não violenta – 50 pontos cruciais” já havia sido traduzido para 5 línguas, incluindo o árabe e o farsi. Um das ações do Canvas que ganhou maior visibilidade foi o treinamento de uma liderança do movimento 6 de Abril, considerado o embrião da primavera egípcia. O movimento começou a ser organizado pelo Facebook para protestar em solidariedade a trabalhadores têxteis da cidade de Mahalla al Kubra, no Delta do Nilo. Foi a primeira vez que a rede social foi usada para este fim no Egito. Em meados de 2009, Mohammed Adel, um dos líderes do 6 de Abril viajou até Belgrado para ser treinado por Popovic.
Segundo o próprio Canvas, sua atuação foi importante em todas as chamadas “revoluções coloridas” que se espalharam por ex-países da União Soviética nos anos 2000.
Nos emails aos analistas da Stratfor, Popovic se gaba de manter relações com os líderes daquele movimento, em especial com Mohammed Adel – que se tornou uma das principais fontes de informação a respeito do levante no Egito em 2011. Na comunicação interna da Stratfor, ele é mencionado sob o codinome RS501.

“Acabamos de falar com alguns dos nossos amigos no Egito e descobrimos algumas coisas”, informa ele no dia 27 de janeiro de 2011. “Amanhã a Irmadade Muçulmana irá levar sua força às ruas, então pode ser ainda mais dramático… Nós obtivemos informações melhores sobre estes grupos e como eles têm se organizado nos últimos dias, mas ainda estamos tentando mapeá-los”.

Evo Morales é outro alvo
Documentos da Stratfor

Os documentos vazados pelo Wikileaks mostram que o Canvas age de maneira menos independente do que deseja aparentar. Em pelo menos duas ocasiões, Srdja Popovic contou por email ter participado de reuniões no National Securiy Council, o conselho de segurança do governo norte-americano.
A primeira reunião mencionada aconteceu no dia 18 de dezembro de 2009 e o tema em pauta era Russia e a Geórgia. Na época, integrava o NSC o “grande amigo” de Popovic – nas suas próprias palavras – o conselheiro sênior de Obama para a Rússia, Michael McFaul, que hoje é embaixador americano naquele país.
Marko explica aos seus colegas da Stratfor que o Canvas – nas suas palavras, um grupo tipo “exporte-uma-revolução” –  “ainda depende do financiamento dos EUA e basicamente roda o mundo tentando derrubar ditadores e governos autocráticos (aqueles de quem os EUA não gostam)”. (...) No dia seguinte, ele reitera em outro email: “Para explicar o plano de ação que enviamos, é um guia de como fazer uma revolução, obviamente”.
No mesmo encontro, segundo Popovic relatou mais tarde, tratou-se do financiamento de oposicionistas no Irã através de grupos pró-democracia, tema de especial interesse para ele. “A política para o Irã é feita no NSC por Dennis Ross. Há uma função crescent sobre o Irã no Departamento de Estado sob o Secretário Assistente John Limbert. As verbas para programas pró-democracia no Irã aumentaram de US$ 1,5 milhão em 2004 para US$ 60 milhões em 2008 (…) Depois de 12 de junho de 2009, o NSC decidiu neutralizar os efeitos dos programas existentes, que começaram com Bush. Aparentemente a lógica era que os EUA não queriam ser vistos tentando interferir na política interna do Irã. Os EUA não querem dar ao regime iraniano uma desculpa para rejeitar as negociações sobre o programa nuclear”, reclama o sérvio, para quem o governo Obama estaria agindo como “um elefante numa loja de louça” com a nova política. “Como resultado, o Iran Human Rights Documentation Center, Freedom House, IFES e IRI tiveram seus pedidos de recursos rejeitados”, descreve em um email no início de janeiro de 2010.

A outra reunião de Popovic no NSC teria ocorrido às 17 horas do dia 27 de julho de 2011, conforme Popovic relatou à analista Reva Bhalla. “Esses caras são impressionantes”, comentou, em um email entusiasmado, o analista da Stratfor para o leste europeu, Marko Papic. “Eles abrem uma lojinha em um país e tentam derrubar o governo. Quando bem usados são uma arma mais poderosa que um batalhão de combate da força aérea”.

Marko explica aos seus colegas da Stratfor que o Canvas – nas suas palavras, um grupo tipo “exporte-uma-revolução” –  “ainda depende do financiamento dos EUA e basicamente roda o mundo tentando derrubar ditadores e governos autocráticos (aqueles de quem os EUA não gostam)”. O primeiro contato com o líder do grupo, que se tornaria sua fonte contumaz, se deu em 2007. “Desde então eles têm passado inteligência sobre a Venezuela, a Georgia, a Sérvia, etc”.
O documento, ao qual a Pública teve acesso, foi escrito no início de 2010 pelo “departamento analítico” da organização e relata, além dos pilares de suporte de Chávez, listando as principais instituições e organizações que servem de respaldo ao governo (entre elas, os militares, polícia, judiciário, setores nacionalizados da economia, professores e o conselho eleitoral), os principais líderes com potencial para formarem uma coalizão eficiente e seus “aliados potenciais” (entre eles, estudantes, a imprensa independente e internacional, sindicatos, a federação venezuelana de professores, o Rotary Club e a igreja católica).
Em todos os emails, Popovic demonstra grande interesse em trocar informações com a Strtafor, a quem chama de “CIA de Austin”. Para isso, vale-se dos seus contatos entre ativistas em diferentes países. Além de manter relação com uma empresa do mesmo filão ideológico, se estabelece uma proveitosa troca de informações. Por exemplo, em maio de 2008 Marko diz a ele que soube que a inteligência chinesa estaria considerando atacar a organização pelo seu trabalho com ativistas tibetanos. “Isso já era esperado”, responde Srdja. Em 23 de maio de 2011, ele pede informações sobre a autonomia regional dos curdos no Iraque.

Quer fazer uma revolução?
Contrate Ivan Marovic, Srdja Popovic e sua organização
Venezuela

Um dos temas mais frequentes na conversa com analistas da Stratfor é a Venezuela; Srdja ajuda os analistas a entenderem o que a oposição está pensando. Toda a comunicação, escreve Marko Papic, é feita por um email seguro e criptografado. Além disso, em 2010, o líder do Canvas foi até a sede da Stratfor em Austin para dar um briefing sobre a situação venezuelana.

 “Este ano vamos definitivamente aumentar nossas atividades na Venezuela”, explica o sérvio no email de apresentação da sua “Análise da situação na Venezuela”, em 12 de janeiro de 2010. Para as eleições legislativas de setembro daquele ano, relata que “estamos em contato próximo com ativistas e pessoas que estão tentando ajudá-los”, pedindo que o analista não espalhe ou publique esta informação. O documento, enviado por email, seria a “fundação da nossa análise do que planejamos fazer na Venezuela”. No dia seguinte, ele reitera em outro email: “Para explicar o plano de ação que enviamos, é um guia de como fazer uma revolução, obviamente”.

O documento, ao qual a Pública teve acesso, foi escrito no início de 2010 pelo “departamento analítico” da organização e relata, além dos pilares de suporte de Chávez, listando as principais instituições e organizações que servem de respaldo ao governo (entre elas, os militares, polícia, judiciário, setores nacionalizados da economia, professores e o conselho eleitoral), os principais líderes com potencial para formarem uma coalizão eficiente e seus “aliados potenciais” (entre eles, estudantes, a imprensa independente e internacional, sindicatos, a federação venezuelana de professores, o Rotary Club e a igreja católica).

A indicação do Canvas parece, no final, bem acertada. Entre os principais líderes da oposição que teriam capacidade de unificá-la estão Henrique Capriles Radonski, governador do Estado Miranda e candidato de oposição nas eleições presidenciais de outubro pela coalizão MUD (Mesa de Unidade Democrática), além do prefeito do Distrito Metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, e do ex-prefeito do município de Chacao, Leopoldo Lopez Mendoza. Dois líderes estudantis, Alexandra Belandria, do grupo Cambio, e Yon Goicochea, do Movimiento Estudiantil Venezolano, também são listados.
Usamos estas análises nas nossas pesquisas e compartilhamos com estudantes, ativistas, pesquisadores, professores, organizações e jornalistas com os quais cooperamos – que estão interessados em entender o fenômeno do poder popular.
O objetivo da estratégia, relata o documento, é “fornecer a base para um planejamento mais detalhado potencialmente realizado por atores interessados e pelo Canvas”. Esse plano “mais detalhado” seria desenvolvido posteriormente com “partes interessadas”.

Em outro email Popovic explica: “Quando alguém pede a nossa ajuda, como é o caso da Venezuela, nós normalmente perguntamos ‘como você faria?’ (…) Neste caso nós temos três campanhas: unificação da oposição, campanha para a eleição de setembro (…). Em circunstâncias NORMAIS, os ativistas vêm até nós e trabalham exatamente neste tipo de formato em um workshop. Nós apenas os guiamos, e por isso o plano acaba sendo tão eficiente, pois são os ativistas que os criam, é totalmente deles, ou seja, é autêntico. Nós apenas fornecemos as ferramentas”.

Mas, com a Venezuela, a coisa foi diferente, explica Popovic: “No caso da Venezuela, por causa do completo desastre que o lugar está, por causa da suspeita entre grupos de oposição e da desorganização, nós tivemos que fazer esta análise inicial. Se eles irão realizar os próximos passos depende deles, ou seja, se eles vão entender que por causa da falta de UNIDADE eles podem perder a corrida eleitoral antes mesmo que ela comece”.

Aqueles que receberam a análise (como o pessoal da Strartfor, por exemplo) aprenderam que segunda a lógica do Canvas os principais temas a serem explorados em uma campanha de oposição na Venezuela são:

- Crime e falta de segurança: “A situação deteriorou tremendamente e dramaticamente desde 2006. Motivo para mudança”

- Educação: “O governo está tomando conta do sistema educacional: os professores precisam ser atiçados. Eles vão ter que perder seus empregos ou se submeter! Eles precisam ser encorajados e haverá um risco. Nós temos que convencê-los de que os temos como alta esfera da sociedade; eles detêm uma responsabilidade que valorizamos muito. Os professores vão motivar os estudantes. Quem irá influenciá-los? Como nós vamos tocá-los?”

- Jovens: “A mensagem precisa ser dirigida para os jovens em geral, não só para os estudantes universitários”.

-Economia: “O petróleo é da Venezuela, não do governo, é o seu dinheiro, é o seu direito!  Programas de bem-estar social”.

- Mulheres: “O que as mães querem? Controle da lei, a polícia agindo sob as autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso. Nós não queremos mais brutamontes”.

- Transporte: “Trabalhadores precisam conseguir chegar aos seus empregos. É o seu dinheiro.  Nós precisamos exigir que o governo preste contas, e da maneira que está não conseguimos fazer isso”.

- Governo: “Redistribuição da riqueza, todos devem ter uma oportunidade”.

- “Há uma forte tendência presidencialista na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar com isso?”

No final do email, Popovic termina com uma crítica grosseira aos venezuelanos que procura articular: “Aliás, a cultura de segurança na Venezuela não existe. Eles são retardados e falam mais que a própria bunda. É uma piada completa”.

Procurado pela Pública, o líder do Canvas negou que a organização elabore análises e planos de ação revolucionária sob encomenda. E foi bem menos entusiasta com relação ao seu “guia” elaborado para a Venezuela.
O pesquisador Mark Weisbrot concorda, em termos. “É claro que nenhum grupo estrangeiro, ainda mais um grupo pequeno, pode causar uma revolução em um país”. Para ele, não é o dinheiro do governo norte-americano – seja através de ONGs pagas pelo National Security Council, pela USAID ou pelo Departamento de Estado – que faz a diferença. “A elite venezuelana, por exemplo, não precisa deste dinheiro. O que estes grupos financiados pelos EUA, antigamente e hoje, agregam são duas coisas: uma é habilidade e o conhecimento necessário em subverter regimes. E a segunda coisa é que esse apoio tem um papel unificador. A oposição pode estar dividida e eles ajudam a oposição a se unificar”.
 “Nós ensinamos as pessoas a analisarem e entenderem conflitos não-violentos – e durante o processo de aprendizagem pedimos a estudantes e participantes que utilizem as ferramentas que apresentam no curso. E nós também aprendemos com eles! Depois usamos o trabalho que eles realizaram e combinamos com informações públicas para criar estudos de caso”, afirmou. “E isso é transformado em análises mais longas por dois estagiários. Usamos estas análises nas nossas pesquisas e compartilhamos com estudantes, ativistas, pesquisadores, professores, organizações e jornalistas com os quais cooperamos – que estão interessados em entender o fenômeno do poder popular”.

Questionado, Popovic também respondeu às criticas feitas por Hugo Chávez no seu programa de TV: “É uma fórmula bem conhecida… Por décadas os regimes autoritários de todo o mundo fazem acusações do tipo ‘revoluções exportadas’ como sendo a principal causa dos levantes em seus países. O movimento pró-democracia na Sérvia foi, claro, acusado de ser uma ‘ferramenta dos EUA’ pela TV estatal e por Milosevic, antes dos estudantes derrubarem o seu regime. Isso também aconteceu no Zimbábue, Bielorrúsia, Irã…”

O ex-colega de movimento estudantil, Ivan Marovic – que ainda hoje dá palestras sobre como aconteceu a revolta contra Milosevic – concorda com ele: “É impossível  exportar uma revolução. Eu sempre digo em minhas palestras que a coisa mais importante para uma mudança social bem-sucedida é ter a maioria da população ao seu lado. Se o presidente tem a maioria da população ao lado dele, nada vai acontecer”.

Marovic avalia, no entanto, que houve uma mudança de percepção do “braço de ONGs” dos governos ocidentais, em especial dos EUA, depois do que aconteceu na Sérvia em 2000 e as “revoluções coloridas” que se seguiram no leste europeu. “Um mês depois de derrubarmos o Milosevic, o NYT publicou um artigo dizendo que quem realmente derrubou o Milosevic foi a assistência financeira norte-americana. Eles estão aumentando o seu papel. E agora acreditam que a grana dos EUA pode derrubar um governo. Eles tentaram a mesma coisa na Bielorrúsia, deram um monte de dinheiro para ONGs, e não funcionou”.
Para o pesquisador Mark Weisbrot, do instituto Center for Economic and Policy Research, de Washington, organizações como a IRI e Freedom House não estão promovendo a democracia. “Na maior parte do tempo, estão promovendo exatamente o oposto. Geralmente promovem as políticas norte-americanas em outros países, e isto significa oposição a governos de esquerda, por exemplo, ou a governos dos quais os EUA não gostam”.
O pesquisador Mark Weisbrot concorda, em termos. “É claro que nenhum grupo estrangeiro, ainda mais um grupo pequeno, pode causar uma revolução em um país”. Para ele, não é o dinheiro do governo norte-americano – seja através de ONGs pagas pelo National Security Council, pela USAID ou pelo Departamento de Estado – que faz a diferença. “A elite venezuelana, por exemplo, não precisa deste dinheiro. O que estes grupos financiados pelos EUA, antigamente e hoje, agregam são duas coisas: uma é habilidade e o conhecimento necessário em subverter regimes. E a segunda coisa é que esse apoio tem um papel unificador. A oposição pode estar dividida e eles ajudam a oposição a se unificar”.

Para Weisbrot, muitas vezes o patrocínio norte-americano tem uma “influência perniciosa” em movimentos legítimos. “Sempre há grupos lutando pela democracia nestes países, com uma variedade de demandas, como reforma agrária, proteções sociais, empregos… E o que acontece é que eles capitaneiam todo o movimento com muito dinheiro, inspirado pelas políticas que interessam aos EUA. Muitas vezes, os grupos democráticos que recebem o dinheiro acabam caindo em descrédito”.

*Originalmente publicado no site da Agência Pública

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/22498/wikileaks+organizacao+financiada+pelos+eua+treina+oposicionistas+pelo+mundo.shtml