sexta-feira, 31 de maio de 2013

Os vira-latas estão vivos e mandando

O Maracanã foi inaugurado há 63 anos. Chegou a acomodar quase 200 mil pessoas concentradas em torno de um jogo de futebol, o nefasto Brasil X Uruguai que decidiu a Copa de 1950. O resultado (2 a 1 para os uruguaios) deu margem a Nelson Rodrigues definir que aquele fatídico jogo fora decisivo na constituição daquilo que o nobre jornalista considerava o maior mal do brasileiro: “o complexo de vira-lata”, ou seja, um sentimento de inferioridade que o sujeito nascido no Brasil teria em relação ao resto do mundo. 

Se você não entendeu, explico: a vitória era dada como certa por todo e qualquer brasileiro. O escrete vinha imbatível, goleando todo mundo e o time uruguaio chegou com campanha bem mais humilde à final. Na hora do “pega para capar”, o onze brasileiro se borrou e o ponta Alcides Ghiggia fez um gol (que ainda se chamava “goal” na época) inusitado, selando a vitória. De todo modo, como se costuma dizer, o futebol é uma caixinha de surpresas e essa memorável final provou isso. O favorito perdeu, mesmo jogando em casa e com 200 mil torcedores a seu favor. Mas, o favorito, segundo Nelson, se sentia e agia como um vira-lata. 

É importado? Claro que é melhor!

O tempo passou, o complexo foi parcialmente remediado com as sucessivas vitórias no futebol, mas, segundo o próprio Nelson, o sentimento ia muito além. O brasileiro seria um narciso às avessas, alguém que cospe na própria imagem, como se ser brasileiro significasse possuir um mal hereditário, uma vergonha nata e inominável. 

Não há como desmentir isso. Cresci ouvindo que tudo o que é estrangeiro é melhor e desde muito cedo entendi que o produto importado vem revestido da aura do simples nome: “importado”. Só esse rótulo já o faz superior em muito. Os automóveis produzidos no país foram até mesmo chamados de carroças por um ex-presidente. Hoje, muitos comemoram ter acesso a carros importados com motor de potência suficiente para disputar provas de Fórmula Um. Só não se sabe é para que servem carros assim se seus proprietários costumam andar a dez por hora nos engarrafamentos. 
O gol de Ghiggia, aquele que selou a vira-latice

Os vira-latas venceram

Até mesmo no futebol isso parece ser cruelmente verdadeiro. Se, por um lado, as vitórias de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 lavaram a alma do torcedor, é preciso observar um detalhe: mesmo com as vitórias, mesmo com o inegável sucesso, a forma de jogar futebol mudou no Brasil e mudou para pior. De certo modo, penso, não há por que não se formular a hipótese de que essa mudança foi em boa parte motivada pelo complexo nomeado por Nelson Rodrigues. Afinal, o futebol brasileiro se europeizou e se tornou bruto, defensivo, feio e mecânico, como muitos definiam o futebol europeu nos tempos encantados de Pelé, Garrincha & Cia. Mas, note, sempre houve os jornalistas que criam o futebol europeu melhor, apesar dos resultados demonstrarem claramente o oposto. Falo de um tipo especial de vira-lata, os quadrúpedes de vinte e oito patas, conforme termo de Nelson. 

Hoje, não há qualquer condição para o surgimento de um Pelé, um Garrincha. Se surgissem, seriam assassinados pelas botinas dos zagueiros e, pecado maior, se dessem um simples “balãozinho”, um mero drible do estilo elástico (especialidade de Rivelino), seriam esquartejados com a ajuda de juiz e bandeirinhas. Estes, aliás, chegam a sorrir quando um beque trucida um craque, um meio-campo bom de bola ou um atacante driblador. Quase sentem vontade de abraçar e congratular o zagueiro sanguinário. Mas, se um dos meio-campistas habilidosos ou atacantes dribladores, depois de tomar 250 botinadas durante o jogo, querem tirar satisfação com os algozes e/ou mesmo com o juiz, merecem o cartão amarelo ou, conforme o caso, o vermelho, sumário. 

Joga mal, não tem habilidade, é um mero zagueiro que prefere acertar o joelho do atacante em vez de tentar lhe tomar a bola? Merece prêmio ou, no máximo, uma advertência formal do juiz. É atacante, gosta de jogar futebol, parte para cima do zagueiro com a bola no pé? Deve ser congratulado com inúmeras botinadas e, se reagir, com dedo na cara, cartão amarelo ou vermelho, expulso do jogo que só tem admitido e prestigiado os perebas. 

De certo modo, o complexo de vira-lata prevaleceu e conseguiu vencer até mesmo o virtuosismo que deu ao Brasil o título de melhor do mundo no futebol durante tanto tempo. Tem conseguido, inclusive, desmentir o epíteto de Nelson que definia o brasileiro como “uma nova experiência humana”, enquanto rebaixava os europeus ao status de soldadinhos de chumbo que viviam uma imitação da vida, com sua ordem obsessiva e suas instituições vetustas e afetadas. Hoje, graças à ação de vira-latas influentes e formadores de opinião, o brasileiro não se sente um vira-lata: é um vira-lata, mas “curte” ser o que é. 


Pelé e Garrincha seriam exterminados no futebol de hoje

É a vira-latice renovada e com upgrade 

Bem, mas vamos ao que interessa. Foi no Maracanã que surgiu o tal complexo. Hoje, no mesmo Maracanã, vemos nascer mais uma razão de vergonha, desta vez não especificamente desportiva, mas ligada ao futebol, esporte que se tornou motivo de orgulho nacional durante muito tempo. 

A humilhação de hoje não vem de uma derrota no campo, entre quatro linhas. Vem da sórdida e incestuosa relação entre os políticos brasileiros e o grande empresariado, um casamento que tem gerado diversas crias, todas monstruosas, apesar da propaganda afirmar o contrário. 

Veja: o governo do Rio de Janeiro já gastou aproximadamente R$ 1 bilhão de reais em reformas no Maracanã. Dinheiro, é claro, dos moradores daquele estado, pois eles que sustentam o governo do estado. É deles que saem os recursos que enchem os chamados “cofres públicos”. 

Mas, creia, apesar dos contribuintes terem pago dos próprios bolsos o R$ 1 bilhão das reformas, o governo que diz representá-los conclui as obras e anuncia que uma empresa privada, ou um grupo delas, irá administrar o estádio. Talvez se não fôssemos tão covardes, se não nos sentíssemos tão vira-latas, faríamos algo a respeito disso. Digo “nós”, talvez porque me sinta ainda tão vinculado ao Rio ou porque me sinta naturalmente ultrajado com esse fato. O fato é que quem pagou as obras do Maracanã não ganhou nem ganhará nada com isso. Em português mais claro, o povo que financiou a reforma pode bem ser chamado de otário, pois gastou (e muito), mas não ganhou, não ganha nem ganhará porra nenhuma com isso. 

Ah, sim, algum quadrúpede de vinte e oito patas alegará, entre latas tombadas: “Pô, mas assistiremos partidas de futebol em um estádio moderno e remodelado, lindo, lindo, como os que eu vejo na TV nos jogos do Real Madrid, do Barcelona”, como me disse, recentemente, um pobre e contumaz idiota que disse não se importa de pagar R$ 100,00 para assistir a uma partida num reles estádio, quanto mais no Maracanã. 

O mais comovente, nesses casos, é que o vira-lata não tem qualquer consciência do quanto se considera inferior e até mesmo “curte” tanto sua alienação quanto sua vira-latice mórbida. 

Inglês viu e não gostou

Tudo isto está sendo lembrado e dito porque um jornal inglês, o The Guardian, publicou matéria na qual diz o seguinte: 

"O País está humilhado e frustrado com os gastos excessivos e os atrasos que atormentam a realização da Copa de 2014", mencionou o jornal, relembrando que o Maracanã passou três anos em reformas, que custaram cerca de R$ 1 bilhão. O Maracanã passou por luxuosas reformas, sugando quase R$ 2 bilhões dos cofres públicos e passando a impressão de que a nação abençoada com o mais vitorioso futebol está também amaldiçoada por uma das piores corrupções e burocracias”. 

Isso sem contar com a reforma que aconteceu na metade da década passada, com a justificativa de preparar o estádio para os jogos pan-americanos de 2007. 

Quer dizer, analise bem. Pense, observe. O governo gasta um bilhão de reais (eram 700 milhões previstos) e, logo na sequência, entrega a administração do Maracanã a um grupo privado. O que o pessoal que pagou a obra fez ou está fazendo? Nada. Há exceções, é claro. O ex-atacante Romário, hoje deputado, entregou direitinho o jogo e vem gritando e gritando contra esses abusos. Isso há pelo menos um ano, certamente mais. 

A multidão, no entanto, como sempre se cala e se porta como uma matilha. 
Se você é lesado pelo governo e reclama, a polícia
comparece para te dizer: vira-lata que late perde os dentes

Sempre há boas exceções, mas não são bem-vindas

Não é certamente “privilégio” brasileiro, pois há inúmeros, centenas, milhares de exemplos do mesmo acontecendo lá fora. Ou você é daqueles que pensa que a multidão estrangeira é mais consciente? De certo modo, junte-se uma dezena de pessoas e terá uma matilha de vira-latas, sejam brasileiros, italianos ou tailandeses. Jogue-lhes um osso e ouvirá os uivos e dentes rilhando. 

Quando a crise do sub-prime rebentou com as famílias estadunidenses, estas perderam suas propriedades caladas, quase sem exceções. O mesmo aconteceu na França, na Alemanha, na Grécia, em Portugal e por aí vai, sempre com exceções, ou seja, gente que se movimentou para fazer algo de alguma forma, protestar, gritar. Mas, quando há exceções, entram em ação as tropas com escudos, cassetetes, bombas e balas de borracha e cala-se a imprensa que, no máximo, lamenta a violência policial, como no recente caso do protesto que alguns cidadãos promoveram em frente ao Maracanã. Quem viu o que aconteceu garantiu que a polícia mostra contra pessoas desarmadas um elã que não tem quando se depara com bandidos de verdade. Parece que a ausência de armas nas mãos dos cidadãos que protestam eleva em muito a coragem dos policiais. Mas, a imprensa apoia a ordem, acima de tudo, principalmente quando a ordem é lucrativa. 

Não parece haver muita diferença entre a nossa passividade e a dos gringos. A semelhança está na repressão. Se você está sendo prejudicado por um governo e resolver protestar contra isso, lembre-se: ele possui sob seu controle uma instituição chamada polícia, que justifica sua existência sempre com a nobreza da “defesa da sociedade”, dizendo estar “ao lado do cidadão” etc. Na prática, porém, sempre admitindo exceções, essa instituição costuma desprezar boa parte das demandas dos tais cidadãos e, quando pode, gosta muito de servir a esses cidadãos com cassetetes e armas apontadas para eles. Quando há exceções nesse caso, o recalcitrante pode pegar cadeia no quartel e a antipatia de certos colegas para os quais usar a farda é uma capa que serve para esconder a aparência e a condição lupina. 

E o que é um lobo senão um vira-lata selvagem?

Enfim...

Parece que nosso destino é saber dessas coisas absurdas, ter em frente dos olhos a canalhice e achá-la natural, até mesmo atraente. Ah, é possível comentar essas barbaridades com amigos, publicar textos críticos em blogs e em sítios como o Facebook. Mas, não se iluda: o meio é a mensagem, ensinava McLuhan. Sabe o que significa isso? Resulta na filosofia do “fale, fale o que quiser; tudo será incorporado ao espetáculo que você assiste e, falando, do qual também participa”. Falou? Protestou? Caiu na rede. E quem cai na rede, você sabe que acaba sem cabeça, exposto no mercado. 

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